Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Pedro Morelli: 'Lealdade é uma questão ética e é sempre material rico para dramaturgia'

Pedro Morelli | Foto: Pepe Perdigão/Divulgação


"Irmandade" nasceu pop e se fez cult. Tornou-se uma série de sucesso colossal na Netflix não apenas pelo empenho de um elenco em estado de graça (sobretudo Seu Jorge), mas por sua precisão na autópsia em corpo vivo da criminalidade nacional - que cresce na metástase do desamparo estatal. Ser leal é um dos componentes na cartilha de deveres da Comédia Humana localizada entre um presídio e seus arredores, com foco numa facção do crime que se espalha pela maior metrópole do país. Palavra de ordem entre as figuras retratadas com empatia de episódio em episódio, "lealdade" é a essência temática das narrativas rodadas pelo diretor paulistano Pedro Morelli, hoje com 39 anos.

O termo é onipresente em tudo que o realizador de "Zoom" (2015) tem esculpido do início dos anos 2010 até hoje, o que o levou a esse seriado. Agora, é ele quem assina a direção de um frenético derivado em forma de longa-metragem com base nessa épica criminal serializada. "Salve Geral: Irmandade", produção da O2 recém-chegada ao streaming, já é tratada como um golaço de audiência. Pudera! Pedro (filho do também realizador Paulo Morelli, com quem rodou o rasga-coração "Entre Amigos", em 2013) dirige sequências de tiroteio e perseguição com uma ventoinha cinemática e uma descarga de adrenalina que evocam "John Wick". Em vez de Keanu Reeves, temos uma Naruna Costa com sangue no olho no papel da advogada Cristina, que precisa salvar a sobrinha, Elisa (Camila Damião), de uma turma fardada que, apesar de ter distintivo, age pela banda podre da Lei.

No papo a seguir, Morelli explica a construção de uma destreza na lida com a ação que já se fez notar em seu trabalho em "Cidade dos Homens" e "DNA do Crime".

Em tempos pós-"Operação Invasão" ("The Raid"), pós-"John Wick", franquias que reinventaram o uso da cinemática nas telas, tratando o movimento como balé, qual foi o caminho adotado em "Salve Geral: Irmandade" para criar tomadas de batalha realistas na ação? De que forma pesa aí a troca com Kaue Zilli?

Pedro Morelli - O projeto já nasceu com o objetivo de ter suas principais cenas filmadas em plano-sequência. Escrevi o roteiro pensando nisso. Acredito que o plano-sequência permite uma imersão do espectador muito mais profunda do que numa cena com cortes. Somos convidados a presenciar aquela cena, ocupando o espaço físico em que ela se passa. Filmes como "Athena" e "Children of Men" ("Filhos da Esperança") são ótimos exemplos do uso de planos-sequência em cenas de ação, e me inspiraram para buscar essa linguagem, pouco comum no Brasil. A parceria com o diretor de fotografia Kaue Zilli foi fundamental para esse projeto, pois toda cena era um desenho conjunto entre câmera e elenco, numa coreografia complexa.

Seu filme consegue ser um espetáculo plástico quase coreográfico do combate armado sem jamais perder o elã político com o debate sociológico do crime. Como é equacionar a natureza espetaculosa da ação com a matriz crítica do thriller social?

A série "Irmandade" sempre teve uma abordagem séria e densa sobre o universo social e político que retrata. O filme faz o mesmo, com mais ação, e com a coreografia do plano-sequência. Acredito que as duas coisas se somam e se complementam. Pois, por mais que as cenas de ação sejam coreografadas, elas são muito cruas e violentas. Bebendo da mesma fonte de densidade com a qual é retratada a situação social do país.

Você é um artesão que moda seu estilo ao que a dramaturgia pede, mas carrega um traço autoral temático na recorrente opção por tramas sobre lealdade. De que modo a advogada Cristina (Naruna Costa) espelha esse sentimento que rege o peito de quem é leal - uma condição perseguida por você em toda a sua obra, desde "Entre Nós", lá em 2013?

Lealdade é uma questão ética e é sempre material rico para dramaturgia. É uma forma de colocar personagens em conflito de caráter. E o que deixa a coisa realmente interessante é quando damos visibilidade para diversos pontos de vista É mostrar o gesto desleal sempre explorando o porquê daquilo, relativizando a motivação por trás daquele gesto, sem julgar o personagem, mas ambientando suas escolhas num universo moralmente complexo. Cristina é isso. Sempre colocada em meio a intensos dilemas morais, de diferentes âmbitos, ela personifica a dificuldade que qualquer pessoa teria para se situar no centro de um universo complexo de criminalidade.

O que o universo de "Irmandade" te ensinou sobre os códigos sociais de um Brasil de exclusões?

O crime organizado no brasil cresceu de forma acelerada a partir do momento em que estabeleceu normas de conduta rígidas, regras claras do que é certo ou errado. O papel ausente do Estado deu espaço para as organizações criminosas crescerem dentro das prisões, abraçando os presos abandonados pelo Estado. O discurso da luta por justiça uniu os presos e só fez o movimento crescer, até o momento em que as organizações criminosas passam a ter força para enfrentar o mesmo Estado que permitiu que elas surgissem.

Que novos projetos você tem pelo caminho para o ano?

Em maio, estreia a série "Brasil70", que retrata a campanha da Seleção Brasileira no Mundial de 1970. É um projeto de outra natureza do que a do "Salve Geral: Irmandade", certamente. Muito mais leve e alto astral. Fala de um tema que levo como grande paixão: o futebol.