Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

De Leox Carax a Mario de Andrade

Salamano e seu cão circundam as reflexões existencialistas de 'O Estrangeiro' | Foto: Bethuel Foz/Gaumont

 

Destaque no elenco de 'O Estrangeiro', que François Ozon tirou de Albert Camus, o ator Denis Lavant integra a nova adaptação de 'Macunaíma' para as telas

Estima-se que o Festival de Cannes deste ano vá matar suas saudades de Denis Lavant ao exibir o recém-finalizado "Depuis Que Le Soleil A Brûlé", de Michaël d'Auzon, no qual o astro fetiche de Leos Carax esbanja sua destreza em movimentos corporais avessos às leis da gravidade. O evento está marcado de 12 a 23 de maio e ele poderá ou não participar desde que seu trabalho em "Les Apôtres Ne Font Pas Crédit", de Sylvain White, hoje a pleno vapor, estiver terminado a tempo. Falta ser rodado um pedaço de um outro longa-metragem ao qual este arlequim de 64 anos está associado e que mexe, um bocado, com a curiosidade brasileira: "Makunaima XXI", de Zahy Tentehar e Felipe M. Bragança.

Em 2025, o astro de cults como "Holy Motors" (2012) passou pelo Rio para filmar o primeiro hemisfério da produção e, logo que chegou, deu uma palestra na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM), para rever seu legado. Ficou pouca coisa da língua portuguesa - fora os versos "Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá" - nas saudades que ele guardou de sua aventura brasileira.

Macaque in the trees
O arlequim da França em 'Holy Motors', de seu diretor do coração, Leos Carax | Foto: Divulgação

"O único parâmetro concreto que a minha forma de atuar comporta é a prática do efêmero, e eu levei esse jeito de criar, baseado no transbordamento, na loucura, comigo ao Brasil. Tentei confrontar meus colegas de cena brasileiros com o máximo de respeito, na batalha para poder dominar o acento fonético da língua portuguesa", disse Lavant, logo após declamar o poema supracitado de bate-pronto, ao cruzar com o Correio da Manhã ao fim da projeção de "Redoubt", drama com tons de suspense de CEP escandinavo, projetado na mostra New Directors do Festival de San Sebastián.

Seu rosto mobilizou o festival espanhol ainda em "O Estrangeiro" ("L'Étranger"), pérola do cineasta François Ozon que faz sucesso de público na Península Ibérica e tem provisão de chegada no Brasil no dia 16 de abril.

Seu papel é o de Salamano, um rabugento satélite de vizinhança do anti-herói, Meursault (Benjamin Voisin), um francês que vive na Argélia dos anos 1930 e parece indiferente a tudo e a todos. Essa apatia começa a se transformar quando ele recebe a notícia da morte de sua mãe e, pouco depois, vive um encontro trágico que termina em assassinato. Antes do incidente, ele esbarra com Salamano em suas andanças por andares de um prédio velho, por onde aquela idosa figura carrega seu cachorro entre gritos e muita impaciência. Ele é uma medida da falta de vivacidade que assombrava o romancista e filósofo Albert Camus (1913-1960), autor da trama que embasa a narrativa.

"Existe um abismo na imagem filmada que me atrai e está em Ozon, em Claire Denis, em Carax e no time do Brasil com que trabalhei", diz Lavant.

As marcas de suas 64 primaveras se espalham em suas feições sorridentes, de um bom humor contagiante, mas não apagam as alusões aos personagens mucho locos que ele construiu em parcerias com o diretor Leos Carax ao longo dos anos 1980 e 90. Não por acaso, em sua excursão pelo Rio, em junho, o MAM exibiu "Sangue Ruim" (1986), marco do legado inventivo que o ator francês construiu sob a recorrente troca com Carax.

"Eu sou o cinema mudo e Carax entendeu isso na minha busca pela densidade que mora no silêncio", define-se Lavant, ao definir um estilo construído a partir da formação de mímico e dançarino. "Ele é um cineasta que trabalha a imagem sem a dependência da palavra. Existem textos que nos encantam e despertam provocações. O texto em português que Felipe e a Zahy me deram, em 'Makunaíma XXI', era delicioso. Eu tive um pouco de medo, pois estava filmando num país que não conhecia, sem ter noção da linha de atuação do elenco brasileiro. É preciso harmonia com seus pares, para que haja química. Apesar disso, cruzar o Atlântico para viver um personagem com bigodes que lembram o do Astérix me deu uma honra imensa, pois me permitiu ter a compreensão de uma outra realidade. Estou ansioso para vê-lo pronto e sei que eles estão fazendo um trabalho hercúleo".

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O drama escandinavo 'Redoubt' recria tempos da Guerra Fria na qual um fazendeiro (Lavant) tenta fortalecer sua propriedade | Foto: Divulgação

Há quem diga que só os festivais de 2027 poderão atestar a pujança de Mario de Andrade (1893-1945) numa releitura que promete ser radical, com um colorido multicultural e com ecos de ancestralidades dos povos originários. Enquanto "Makunaima XXI" não sai, Lavant ajuda "Redoubt" a ganhar aplausos, sob a batuta do jovem cineasta de origem sueca John Skoog. O filme deles se passa no auge da Guerra Fria, numa estância rural da Escandinávia, onde o agricultor Karl-Göran Persson (Lavant) começa a fortificar sua casa. Ele recolhe sucata e a lança os metais nas paredes a fim de construir uma fortaleza destinada a proteger a si mesmo e aos seus vizinhos. Seus esforços são recebidos com perplexidade por todos, exceto pelas crianças. À medida que a construção avança, também avança o conflito com as pessoas da aldeia.

"Tive que aprender sueco e praticar uma rotina agrícola para construir esse homem, vivendo isolado numa casa. Uma bicicleta era o sinal mais próximo de Modernidade que eu tinha. A vivência solitária numa vastidão de campo era fundamental para que eu encontrasse sua essência. Não sou um ator de método, sou um artista que encontra sua voz na pesquisa, na experimentação. Não aposto em preparação prévia. O meu corpo reage às descobertas, ele pesquisa", diz Lavant, fiel à sua cinefilia. "Eu levo Leos Carax comigo a cada trabalho. Sempre há algo de 'O Amantes de Pont-Neuf' comigo, em cada novo filme".