'Enzo', que chega hoje às telas, foi rodado por Robin Campillo a partir de escritos do finado diretor de 'Entre os Muros da Escola', cuja obra, sobretudo, '@Arthur Rambo', brilha online
Atração de abertura da Quinzena de Cineastas de Cannes de 2025, "Enzo" chega hoje ao Brasil como um filme-testamento dos afetos que guiaram a obra do francês Laurent Cantet (1961-2024), ganhador da Palma de Ouro de 2008 por "Entre os Muros da Escola" e apaixonado pelo Rio de Janeiro. Esteve aqui no ano de lançamento de sua obra-prima e voltou em 2017, a fim de integrar a comitiva europeia de convidados da Festa Literária das Periferias (Flup), com seu fetiche pela educação na adolescência. Antes de morrer, aos 63 anos, em decorrência de um câncer, ele deixou um argumento inacabado do longa-metragem que acaba de aterrizar aqui, antes chamado "L'Apprenti".
As anotações de Cantet foram retrabalhadas e filmadas por seu amigo e habitual parceiro de escrita, Robin Campillo, diretor do sucesso "120 Batimentos Por Minuto" (Grande Prêmio do Júri em Cannes em 2017). A trama, deixada como herança a Campillo, finca os olhos no processo de amadurecimento do personagem título, vivido por Eloy Pohu, cujo coração está anuviado por hormônios e angústias.
O que vemos é a luta de Enzo para se encontrar no mundo, numa recusa do abastado patrimônio familiar em prol de um investimento na vida de pedreiro. Ele luta com os colegas e com o mestre de obras, mas busca paz no afeto da jovem que deseja e em amizades fugazes.
O respeito que Cantet adquiriu em vida chancelou "Enzo" como iguaria e despertou um movimento de redescoberta de sua obra, que passou a atrair mais cliques no ambiente dos streamings. "Entre os Muros da Escola", que rendeu a ele a Palma de Ouro, em 2008, por decisão unânime de um júri presidido por Sean Penn, hoje arrasta internautas para a plataforma Reserva Imovision. Ele está no Prime Video da Amazon também, como "A Classe". Pela Imovision é possível encontrar ainda um Cantet menos citado: "Retono À Ítaca", de 2014, que evoca memórias cubanas. Porém o título hoje mais buscado é seu derradeiro longa como realizador, "@Arthur Rambo - Ódio nas Redes", que disputou a Concha de Ouro em San Sebastián, em 2021. O longa pode ser alugado ou comprado no YouTube.
Achismos decorrentes do chamado "efeito manada", a predisposição coletiva em atacar alguém por conta de uma histeria coletiva, quase sempre alimentada pelo Facebook, são o foco desse filme devastador, rodado por um diretor que entrou para a posteridade por ser um investigador das fraturas sociais francesas. Ele exibiu seu estudo sobre a intolerância em Toronto antes de ir a San Sebastián.
"O redesenho que se ensaiou para o conceito de coletividade preencheu lacunas que práticas de Poder não satisfazem, mas esbarrou numa obsessão pelo número de seguidores. O fervor para ter visibilidade na internet leva a atitudes nem sempre éticas. E eu me debruço sobre essa incompatibilidade entre o que é ser inclusivo e o que é ser excludente em todo o meu cinema, uma vez que ele se esforça em manter viva a discussão do que se passa sobretudo entre os jovens, que têm comportamentos sempre em ebulição, seja pelos hormônios, seja pelos sonhos", disse Cantet ao Correio da Manhã quando anunciou o projeto de "@Arthur Rambo - Ódio nas Redes". "Eu não sigo ideologias partidárias em meu discurso. Mas eu faço da inclusão uma bandeira. O que me guia é o interesse na complexidade humana".
De um domínio espartano das ferramentas narrativas da tensão, o longa acompanha o ódio que as redes sociais passam a destilar, da noite para o dia, contra um escritor best-seller de origem argelina depois que uma série de tweets postados por ele, quando mais moço, espalham-se pela web. Rabah Nait Oufella vive o protagonista, Karim D. No auge de seu sucesso, com um livre baseado no cotidiano de sua mãe, uma imigrante, o rapaz passa a ser rejeitado por todos que lhe paparicavam depois do vazamento de seus escritos sob o pseudônimo de Rambo. Pra atrair curtidas, ele era agressivo em suas postagens, atacando judeus e a comunidade gay, praticando gordofobia e sendo machista. Mas a retaliação que sofre por essas ideias nada empáticas será das mais brutais. Cantet parte desse mote para debater o linchamento virtual.
"Karim D. é a representação viva da fratura social entre os mundos periféricos", diz Cantet ao Correio, num papo em San Sebastián, onde lembrou sua passagem pela Festa Literária das Periferias (FLUP), no Rio de Janeiro, em 2017. "Entre os adolescentes, a ficção se contorce a partir de vetores da realidade, gerando choques com as convenções. A literatura ainda é um dos mais fortes caminhos de um jovem atrair a mirada do mundo para suas angústias".