Coroado com sua terceira estatueta, no domingo, pelo sucesso de Paul Thomas Anderson, Sean Penn atrai novos olhares para seus cults, hoje em streaming, e dirige documentário
Depois de ganhar seu terceiro Oscar, no domingo, pelo desempenho acachapante no papel do coronel Steven J. Lockjaw, em "Uma Batalha Após A Outra", Sean Penn vê seu peso no mercado audiovisual disparar. Antes dele, na ala dos atores a serviço dos EUA, só Jack Nicholson, Walter Brennan e Daniel Day-Lewis venceram uma trinca de estatuetas. Venceu sem favoritismos, no momento em que prepara um novo filme no posto de realizador: um documentário sobre o jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2018. Sua fita mais recente como diretor, o documentário "Superpower", .doc sobre a Guerra da Ucrânia, permanece inédito em circuito por aqui.
Porém, uma de suas últimas incursões ao exercício da direção, o drama "Flag Day - Lembranças Perdidas", indicado à Palma de Ouro de 2021, acaba de ser lançado aqui, via YouTube, onde está disponível para compra ou aluguel. Sua protagonista, Dylan Penn, é filha do ator, e vive Jennifer, jovem problemática que entra numa jornada errática pelos EUA trombando com seu pai trambiqueiro, vivido pelo próprio Sean. A vida dura da menina não atenua seu amor pela figura paterna, que sempre a tratou como seu xodó, protegendo-a, dentro do possível.
"Eu tento apoiar pessoas que estão apoiando a liberdade", disse Penn na Berlinale de 2023, ao lançar "Superpower", sobre a violência cometida por Vladimir Putin na Guerra da Ucrânia, valorizando a estratégia do líder político Volodymyr Zelenskyy no conflito.
Codirigido por Aaron Kaufman, este ensaio sobre a violência institucionalizada foi recebido com controvérsia pela crítica pelo modo como Penn se debruça sobre a cultura da brutalidade na mídia. "Este não é um filme parcial pois fala de uma guerra que não é ambígua", disse Penn na coletiva de Berlim.
Hoje na HBO Max "Uma Batalha Após A Outra" se impõe como mais um sucesso da carreira do astro, iniciada em 1979 e coroada com o Oscar de Melhor Ator antes por "Milk - A Voz da Igualdade", em 2009, e por "Sobre Meninos e Lobos", em 2004. Muitas vezes festivais como o de Cannes estenderam tapete vermelho para a presença de Penn, como se viu na Croisette em 2010, com a estreia mundial de "Jogo do Poder", de Doug Liman, na disputa pela Palma de Ouro. É a saga de um político que descobre a ligação de sua companheira (Naomi Watts) com esquemas de espionagem da CIA. É possível vê-lo hoje na Amazon Prime, streaming que acolhe uma série de produções estreladas pelo artista, como "Caça aos Gângsters" (2013) e "A Grande Ilusão" (2006).
Lá é possível (re)ver alguns dos melhores momentos de Penn à frente das telas, como "Colors - As Cores da Violência" (1988), de Dennis Hopper, e "Tiro de Misericórdia" (1990), de Phil Joanou. A Amazon acolhe ainda alguns filmes que Penn dirigiu, como "Acerto Final" (1995), que valeu uma indicação de Melhor Atriz Coadjuvante pra Anjelica Huston. Já a Netflix resguarda a pérola "Na Natureza Selvagem", seu maior sucesso, consagrado pela trilha sonora de Eddie Vedder; e "The Last Face - A Última Fronteira", indicado à Palma em 2016. Este fala da relação entre cirurgiões ligados aos Médicos Sem Fronteiras, vividos por Charlize Theron (ex-namorada de Penn) e Javier Bardem.
"Queria falar sobre as contradições de quem se dedica a salvar vidas. Fui atrás da realidade nas zonas de guerra da África, filmando com uma multidão de pessoas como figurantes para retratar aquilo que a gente viu em campo: uma multidão de gente com problemas diante dos horrores da violência", disse Penn ao Correio da Manhã ao fim da exibição de "A última fronteira" em Cannes. "Filmamos na Cidade do Cabo buscando eliminar qualquer traço épico dos médicos: são pessoas normais, sujeitas a falhas, a dúvidas, a paixões, correndo riscos".
Recentemente, Penn mobilizou espaços mais autorais de exibição, incluindo o Festival do Rio, com "Daddio", lançado pela HBO Max como "Papai". Cada saliva gasta pela passageira Girlie (Dakota Johnson), na narrativa ambientada quase 100% no interior de um táxi, umedece (e esquenta) o calejado coração do chofer de praça Clark, um dos papéis mais ternos de Penn em décadas. Sob a direção de Christy Hall, esse par de estrelas tem uma performance a dois que cativa pela habilidade de dar dor a palavras simples. Na trama, Girlie chega ao aeroporto após uma viagem e se entrega ao celular, numa troca de mensagens a princípio cálidas e, mais tarde, abusivas, ao longo de uma jornada até o bairro Hell's Kitchen, numa Manhattan congestionada. Clark sabe ouvir. O tempo gasto ao volante talhou seus tímpanos para escutas nas quais tem sempre um conselho na manga para ofertar. Só que num dado ponto da corrida, as angústias de Girlie são similares a muitas das que ele tem em relação ao vazio existencial que sente
Penn tem uma tendência autoral em denunciar silenciamentos e desamparos estatais, tendo participado de um movimento de mídia para ajudar o Haiti, em 2012. Mas foi na ficção que ele mais se destacou como diretor, embora seus filmes - personalíssimos - encontrem pouco ou zero ressonância no cinemão. A jornalista brasileira Bianca Kleinpaul cunhou, em 2007, uma expressão perfeita para definir Penn aos olhos da indústria cinematográfica: "o odiadinho de Hollywood". Grandes realizadores evitam elencá-lo, cientes de que sua personalidade combativa por vezes cria uma série de rusgas. Ele e Woody Allen, por exemplo, terminaram "Poucas e Boas" (1999) sem se falar. Só Terrence Malick, entre os titãs na ativa, adora filmar com ele, tendo convidado o ator para "Além da Linha Vermelha" (Urso de Ouro de 1999) e "A Árvore da Vida" (Palma de Ouro de 2011). Destaca-se ainda o já citado Paul Thomas Anderson, que o incluiu numa singular participação em "Licorice Pizza", antes de "Uma Batalha Após A Outra".
Só é difícil encontrar em streaming o primeiro longa dirigido por Penn, "Unidos Pelo Sangue" ("The Indian Runner", 1991), indicado ao Leopardo de Ouro de Locarno. É a saga de uma família em xeque, num embate entre os irmãos Joe e Frank Roberts, vividos por David Morse e Viggo Mortensen, com direito a Patricia Arquette, Valeria Golino, Dennis Hopper e (pasmem!) Charles Bronson no elenco. São surpresas que Penn nos reserva.