Enquanto falava com o Correio, a usina de fazer filmes (bons) Susanna Lira botava ordem numa agenda inflada de trabalho, parte pela demanda por testes de elenco para novas empreitadas, parte pelo ajuste final em projetos como "Apenas 3 Meninas", que vai lançar em setembro. É uma nova ficção numa carreira majoritariamente documental, que mostrou êxito fora dos registros do real com o recente "#SalveRosa", premiado no Festival do Rio de 2025 e lançado faz pouco na Netflix.
A trajetória cada vez mais híbrida da cineasta carioca mudou de patamar, assegurando-lhe prestígio autoral de excelência, depois do .doc "Torre das Donzelas" (2018), um furacão em festivais, com prêmios a cada pouso. Nesta quinta-feira (19), às 21h, esta produção encontrará uma das vitrines mais democráticas do país quando se pensa em acesso e quando se fala em esmero curatorial de inclusão: a grade da TV Brasil. Semana a semana, a EBC, a empresa de comunicação por trás da emissora educativa, faz da televisão aberta uma cinemateca de brasilidades, com titãs de nossa filmografia (Nelson Pereira dos Santos, Helena Ignez, Walter Carvalho, Rogério Sganzerla), a quem Susanna agora se junta.
Seu maior sucesso traz relatos inéditos da ex-presidente Dilma Rousseff e de suas ex-companheiras de cela do Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a ditadura militar. Detidas entre o fim dos anos 1960 até 1972, quando a prisão foi desativada, as entrevistadas falam sobre as torturas a que foram submetidas, mas também sobre as amizades criadas. A realizadora pediu para que cada uma desenhasse a tal "torre das donzelas" como elas se lembravam. Durante a pesquisa, a equipe percebeu que cada uma tinha uma memória distinta do lugar, o que gera um panóptico riquíssimo de recordações sobre os anos de chumbo.
Na conversa a seguir, Susanna relembra do sucesso de "Torre das Donzelas", em sua premiada estreia no Festival de Brasília, há exatos oito anos, e discute as formas sinistras de expressão que o machismo hoje busca para tentar calar a "incalável" determinação feminina pela liberdade.
Em 2018, o documentário "Torre das Donzelas", que a TV Brasil exibe nesta quinta, celebrou a coragem feminina num contexto de presas políticas. O que o longa revelou sobre uma fatia da História pouco conhecida e o quanto esse tal desconhecimento se deve ao machismo?
Susanna Lira - A importância da exibição do filme no Festival de Brasília de 2018 foi muito simbólica para a gente, porque foi o ano da eleição do Bolsonaro e a gente tinha acabado de ver a Dilma Roussef sair defenestrada do governo de uma forma horrenda, de que ele, inclusive, participou muito. Então era como se o machismo tivesse sido premiado ali, naquele episódio. Isso foi muito duro. A gente estava celebrando, num filme, a história daquelas mulheres que resistiram, mas, ao mesmo tempo, a realidade nos dizia que eles, aqueles homens conservadores, tinham voltado com toda a força. Isso era bem assustador. Logo depois, a gente foi para o Festival do Rio e para a Mostra de São Paulo e o filme foi ganhando outros contornos. Era tudo muito simbólico. Mas a gente continua ainda sem saber exatamente onde as mãos do machismo estão. Elas parecem estar dominando ainda esse planeta, porque as coisas só pioram nos índices de feminicídio e da violência. Olhando para o "Torre das Donzelas" hoje, eu acho que ele celebra a coragem feminina, mas também nos faz uma alerta: para toda coragem das mulheres, há uma reação do machismo muito forte. Isso é ainda um desafio grande pra gente.
Quem era a Dilma naquele momento e o que ela passou a representar para você?
Era uma mulher importante, forte, que tinha acabado de sair do governo de uma maneira horrenda. Depois da entrevista, eu vi nela uma mulher muito humana, muito delicada, muito engraçada. Ela conseguia fazer humor com coisas que eu jamais imaginei que ela pudesse fazer. Quando eu fazia perguntas sobre alguma possível culpa de alguém, por ela estar naquele lugar, jamais terceirizava responsabilidades. Isso é muito forte, e passei a pensar a vida assim: as coisas que me acontecem são responsabilidade minha, também... e não só do outro. Dilma não se faz de vítima, eu acho isso muito incrível, isso eu aprendi muito.
Como o êxito do seu filme, a partir de Brasília, redefiniu seu cinema?
Eu acho que o Festival de Brasília me fez, pois me colocou um pouco mais no radar nacional. As pessoas não conheciam muito o meu trabalho antes do "Torre..." e eu acho que ganhei mais fôlego depois dele, para poder fazer um cinema político mais corajoso ainda, para trabalhar com as pautas de que eu gosto de trabalhar, ainda com mais vontade. Naquela época, mesmo perdendo uma eleição de maneira tão drástica, fazer aquele filme era reforçar a resistência que todos nós temos.
De 2018 até hoje, o que mudou no espaço que as mulheres ocupam na política nacional?
De 2018 para cá, eu acho que houve um aumento, sim, da ocupação das mulheres nos espaços de poder, na política brasileira, mas volta e meia elas recebem reações negativas. Não à toa, na semana passada, a Erika Hilton sofreu transfobia de um apresentador de televisão em rede nacional ao vivo. Para cada passo que a gente dá, parece que o machismo quer empurrar a gente uns dez passos atrás, então, é uma luta constante. O espaço mudou, mas o espaço ainda é muito duro de ser mantido e de ser respeitado, isso realmente é preocupante ainda, e, por isso mesmo, a gente tem que eleger mais mulheres para que essas coisas mudem, para que as políticas públicas mudem. Isso é uma consciência de voto, eu não consigo entender mulheres que votam em políticos misóginos e políticos machistas. Isso é um grande enigma.
Quais são seus projetos para os próximos meses?
Será um ano de muitos lançamentos, entre eles um filme sobre Gonzaguinha, que estou fazendo há bastante tempo e traz um viés político, abordando a censura que ele sofreu nas letras dele. Depois, vamos lançar o documentário "Mr. Wonderful", sobre um estilista (Luiz de Freitas) da mesma cidade do Garrincha, Pau Grande, que teve uma marca no Rio de Janeiro. Estou finalizando para outubro a série sobre a cantora Marília Mendonça e tem "Apenas 3 Meninas" em setembro.