'O Agente Secreto' brilhou como pôde, mas não trouxe estatuetas para o Brasil, nem Adolpho Veloso, mas demarcaram a força de nosso cinema numa festa geopolítica para Paul Thomas Anderson e seu 'Uma Batalha Após a Outra'
É da natureza sistêmica do cinema haver épocas em que cineastas de quilate autoral dos mais altos, esnobados muitas vezes na entrega dos prêmios mais relevantes da indústria audiovisual, encontram uma noite de Oscar para chamar de sua, como foi o caso de Paul Thomas Anderson (PTA), em 15 de março de 2026. Em meio à ressaca brasileira pela derrota de "O Agente Secreto" em quatro frentes, numa estrada pavimentada por um histórico de vitórias invejável conquistado pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, o realizador do febril "Uma Batalha Após A Outra" ("One Battle After Another") levou, enfim, para cada uma láurea que já deveria ter ido para ele desde "Magnólia" (Urso de Ouro de 2000).
Bateu na trave da consagração muitas vezes, ainda que, a cada tentativa, tenha entregue às telas um longa-metragem magistral, a se destacar "Sangue Negro" ("There Will Be Blood", 2007). O artista californiano venceu agora, aos 55 anos, qual o inglês Christopher Nolan saiu vitorioso em 2024, com "Oppenheimer", ou seja, saiu levando tudo - o que pôde. Ganhou em seis frentes: Filme, Direção, Roteiro Adaptado (de autoria dele), Escalação de Elenco, Montagem e Ator Coadjuvante, dado a Sean Penn, que vem sendo parte de sua trupe desde "Licorice Pizza" (2021).
Não levou mais por haver "Pecadores" ("Sinners") em sua trajetória e este, de certa medida, também carregava um padrão similar: a coroação de Ryan Coogler como um dos grandes de nosso tempo já deveria ter vindo antes, em "Creed - Nascido Para Lutar" (2015) e "Pantera Negra" (2018). Demorou, mas ele e seu parceiro de criação mais fiel, Michael B. Jordan, foram oscarizados: Melhor Roteiro Original para o diretor e Melhor Ator para seu astro rei. A láurea de Melhor Fotografia dada a essa alegoria horrorífica sobre o racista, confiada à artesã da luz Autumn Durald Arkapaw, teve um peso redentor em meio às lutas feministas dos EUA, na briga pela equidade laboral de gêneros. É um indício a mais de que, em tempos de guerra, quando o espanhol Javier Bardem foi uma das poucas vozes a esgoelar um "Palestina livre!" no palco do Dolby Theatre, os dois longas de maior visibilidade entre os oscarizados do ano carregaram uma centelha geopolítico numa festa das mais irregulares e insossas.
Conan O'Brien começou bem à beça seu trabalho de apresentador, usando a mesma peruca com que Amy Madigan transformou a figura da Tia Gladys, de "A Hora do Mal" ("Weapons"), numa das figuras mais aterrorizantes que o cinema já viu. Logo na sequência, após um número de ópera hilariante, ele ofuscou-se em piadas chochas. Quando Billy Crystal foi abrir o Tributo aos Mortos (que ignorou Silvio Tendler e Silvio Da-Rin), deu saudade dos tempos em que ele era o mestre de cerimônias da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ainda assim, a coda do evento, pós-premiação, deu a Conan uns instantes de graça, numa hora em que o Brasil já estava de bode com tudo o que via.
Acreditava-se que a Neon, distribuidora de "O Agente Secreto" nos EUA, houvesse tocado em massa os miocárdios dos votantes com a esplendorosa engenharia narrativa de Kleber ao rever o Brasil da ditadura sob a ótica da "pirraça". O torvelinho prêmios prévios do filme (85 ao todo) parecia apontar algo tão imbatível quanto a vitória de "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, que venceu em março de 2025. Na hora h, de perda em perda, o anúncio de "Valor Sentimental" ("Affeksjonsverdi"), da Noruega, como Melhor Filme Internacional, comprovou que a fortuna da América Latina em competições cinematográficas está sujeita a vetores com valor de X dos mais indecifráveis. Ainda assim, como consolação, venceu um filmaço.
"Uma Batalha Após A Outra" foi "O" ganhador por ser um tratado antitrumpista, uma reação do cinema dos EUA a um líder que opera na chave do ódio e fomenta conflitos bélicos a fim de alimentar a necessidade de "pão e de circo" de um povo (mal) educado por Bushes e Reagan. A percepção de que sua dramaturgia se move a partir da rebeldia de uma mulher preta, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), que trata homens com a mesma voracidade e o mesmo desdém com que as forças femininas costumam ser tratadas ao longo da História, dá ao longa de PTA uma carga politicamente poética. Há, ali, uma reflexão sobre racismo, encarnado no núcleo em volta do Coronel Steven J. Lockjaw (o ferrabrás encarnado por Sean Penn), relevante como a de "Pecadores", que consegue se singularizar ao trilhar vias ancestrais, na arte (o Blues) e na fé (o Candomblé), para expor a segregação de um país que institucionalizou práticas racistas.
Segregar é um verbo que está na espinha dorsal de "O Agente Secreto", na forma como o vilão, o empresário paulista (descendente de italiano) Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli) trata quem é do Nordeste. Há ainda um matador de aluguel (Gabriel Leone) que olha um peão carregando saco (Kaiony Venâncio) e se refere ao ofício com a fala elitista "trabalho de bicho". Vê-se a Casa Grande com toda a sua força ali, na trama sobre um professor universitário (Wagner Moura, imenso) caçado por matadores em decorrência da disputa por uma patente. Hollywood nos deu dois Globos de Ouro como recompensa pela sagacidade de Kleber. Na hora de resolver quem levaria os quatro Oscars a que concorríamos, a miopia sociológica pesou e preferiu-se um drama de amor familiar. No mínimo, "Valor Sentimental", hoje na plataforma MUBI, é um drama exemplar, coroado com o Grande Prêmio do Júri em Cannes.
Aos 52 anos, Joachim Trier ganhou num momento dourado para a Noruega em circuito, pois antes dele, em fevereiro de 2025, "Dreams (Sex Love)", de Dag Johan Haugerud, papou o Urso de Ouro da Berlinale passada. O sobrenome de Joachim pode evocar um outro diretor vindo de terras escandinavas, conhecido por êxitos como "Dogville" (2003) e "Dançando no Escuro" (Palma de Ouro de 2000): o dinamarquês Lars von Trier. Tal evocação não é gratuita. O pai de Joachim, o técnico de som Jacob Trier, nasceu na Dinamarca e tem um parentesco distante com Lars, polemista por trás de "Melancolia" (2011). Mas ele e Joachim, de gerações diferentes, não são próximos. Nem no estilo de filmar, nem nas provocações. Joachim ganhou notoriedade há duas décadas, ao lançar "Começar de Novo".
Galgou glórias recentes com "A Pior Pessoa do Mundo" (2021), mas é por "Valor Sentimental" que ele há de ser lembrado. Seu longa explora as memórias duas irmãs, órfãs de mãe, a atriz Nora e a historiadora Agnes (vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas) em meio ao regresso do pai, Gustav Borg, vivido por um Stellan Skarsgård em estado de graça em cena. Ele é um cineasta renomado, hoje dedicado a títulos documentais, que se manteve distante da família por anos e surge em busca de reconciliação através de seu novo projeto: uma ficção. Esse tal projeto aborda o suicídio da mãe dele, avó de suas meninas, e seu desejo é ter Nora como sua protagonista. A recusa dela leva o artista a travar parceria com uma estrela americana, Rachel (Elle Fanning). Só que mexer num vespeiro familiar há de dar ruim...
Foi imperdoável a ideia da Academia de preterir Skarsgård em prol de Sean Penn, pois, ainda que ambos estejam titânicos, o primeiro, vindo da Suécia, supera o ator americano, que só ganha o Oscar quando NÃO deve. Ganhou com "Sobre Meninos e Lobos" (2003) quando Bill Murray era o merecedor, por "Encontros e Desencontros", em 2004, e voltou a ganhar em 2009, por "Milk - A Voz da Igualdade", quando a torcida mais forte era por Mickey Rourke em "The Wrestler - O Lutador". Uma vez, ele, que nem comparecer a cerimônia, aprontou.
Faz parte. Oscars são assim... Kleber Mendonça já tem um filme novo em confecção, com foco no Recife dos anos 1930. Para nossa felicidade, nesta quarta, no Copacabana Palace, a Golden Globe Foundation fará uma homenagem ao cinema brasileiro, com prêmios honoríficos para Fernanda Montenegro, Antônio Pitaganga, Valentina Herszage e Adolpho Veloso.
Teve muito descuido neste Oscar, como o absoluto esquecimento do iraniano Jafar Panari e seu "Foi Apenas Um Acidente" (recipiente da Palma de Ouro de 2025), em pleno bombardeio do Irã. Apesar disso, alguns gols foram marcados, ainda que sem muito brilho. O troféu dado a uma atriz da tarimba de Amy Madigan, aos 75 anos, por um filme de terror que chacoalhou morais ("A Hora do Mal"), lavou a alma de muita gente. Ouvir Barbra Streisand retomar "The Way We Were", cinco décadas depois, também. E ver o Capitão América Chris Evans fazendo graça com o Homem de Ferro (agora Doutor Destino) Robert Downey Jr. foi hilário.
Terminado o Oscar, começa a expectativa pelo Festival de Cannes, que inaugura sua 79ª edição no dia 12 de maio, com o sul-coreano Park Chan-wook como presidente do júri.