Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

CinemaScópio, do Recife ao pódio de Hollywood

Kleber Mendonça Filho (diretor), Emilie Lesclaux (produtora) e Wagner Moura (ator) no set de filmagens de 'O Agente Secreto': a trinca de sucesso por trás do longa que chega ao Oscar com quatro indicações | Foto: Brent Travers/Divulgação

Com prêmios em Cannes, Berlim e mais festivais GG, produtora fundada em 2008 pelo casal Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho vira grife mundial de excelência, indicada ao Oscar

Caso "O Agente Secreto" ganhe a estatueta de Melhor Filme na festa do Oscar, no domingo, a vitória... histórica para a América Latina... será do Brasil, do cinema pernambucano, de Kleber Mendonça Filho, mas, antes de tudo, da CinemaScópio, a produtora que a francesa radicada há 24 anos no Recife Emilie Lesclaux fundou com o cineasta brasileiro em 2008. Quem produz é quem costuma ter a primazia da fala na consagração da láurea principal de qualquer grande premiação do cinema, numa lógica de um lado industrial e, do outro, artística. Neste caso, o diretor e sua companheira de vida (com quem é casado e tem dois filhos) mesclam os talentos de suas distintas expertises na manutenção de uma empresa de criação artística que, depois de participações sucessivas em festivais GG (Cannes, Berlim, San Sebastián e Veneza), firma-se como grife de excelência mundial... agora com quatro indicações ao prêmio mais disputado da cultura pop.

Todas as vezes que uma produção latina de CEP nacional galgou voz na Meca hollywoodiana, a cia. produtora por trás dela explodiu em visibilidade. Foi o que se deu nos anos 1990, quando a carioca LC Barreto, de Lucy e Luiz Carlos (o Barretão), emplacou indicações ao Oscar com "O Quatrilho", em 1996, e "O Que É Isso, Companheiro?", em 1998. Em 1999, a Videofilmes dos irmãos Salles, ganhou holofotes quando Waltinho concorreu com "Central do Brasil". Falou-se muito dela (na maioria das vezes representada pela figura da produtora Maria Carlota Bruno) no ano passado, com a conquista (até então inédita) do Oscar de "Ainda Estou Aqui", que popularizou primeiramente uma outra empresa brasileira (hoje das mais prolíficas na lida cinematográfica), a RT Features. Rodrigo Teixeira, coração dessa companhia de SP, é presença constante hoje das mostras mais importantes do planeta, e esteve nas raias da premiação de Hollywood antes com "Me Chame Pelo Seu Nome" (vencedor do troféu de Melhor Roteiro Adaptado da Academia, em 2018) e com "O Farol", em 2020.

Nesse mesmo pódio, outrora, também esteve a O2 Filmes, de Fernando Meirelles, em meio as (também quatro) indicações ao Oscar de "Cidade de Deus", em 2004. Na década de 1980, por lá passou a HB Filmes, quando Hector Babenco (1946-2016) concorreu à láurea de Melhor Direção por "O Beijo da Mulher Aranha" (1985).

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A equipe de CinemaScópio Produções nas filmagens de 'Bacurau', que ganhou o Prêmio do Júri em Cannes | Foto: Victor Juca?/CinemaScópio

"A coprodução, que é algo sempre complexo, principalmente envolvendo vários países, foi uma experiência muito feliz para o 'Agente Secreto', como foi para 'Bacurau' e 'Aquarius', disse Emilie ao Correio da Manhã quando o thriller com Wagner Moura passou pela primeira vez, em maio do ano passado, no Festival de Cannes. "O filme teve um financiamento inicial via Estados Unidos que não foi pra frente, e nos encontramos no final de 2022 tendo que reconstruir um orçamento do zero".

Visto por 2,5 milhões de pagantes no Brasil, "O Agente Secreto" é uma coprodução Brasil (CinemaScópio Produções), França (MK Productions), Holanda (Lemming) e Alemanha (One Two Films). Emilie explicou ao Correio, na Croisette, que ela e Kleber começaram o processo de procurar fundos no Brasil, com a distribuidora, a Vitrine. Em Cannes mesmo, em meio a carreira de seu longa anterior, "Retratos Fantasmas" (2023), começou uma parceria com a MK Productions, e alguns meses depois, com a One Two Films (Alemanha) e a Lemming Film (Holanda). O equipamento de câmera ARRI, com lentes Panavision dos anos 1970, usados para fotografar as peripécias do personagem de Wagner Moura, foi trazido da França, de onde veio a diretora de fotografia do longa, Evgenia Alexandrova. Parte expressiva da pós-produção foi executada na Europa. A trilha sonora, por exemplo, foi gravada num estúdio em Amsterdã (o STMPD). Já a correção de cor foi feita na Rotor, nos Estúdios Babelsberg na Alemanha. Paris foi o endereço da mixagem com o aclamado técnico Cyril Holtz.

"Tudo foi contribuindo para novas camadas criativas num filme que continua extremamente brasileiro... pernambucano. Aliás, uma das coisas mais belas foi ver franceses assobiando um frevo e ver um alemão aperfeiçoando a cor de um ônibus elétrico dos anos 1970", disse Emilie.

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Achado da empresa, 'Recife Frio' (2009) passou em 20 festivais pelo mundo e virou um cult do curta nacional | Foto: CinemaScópio

Nos anos 2000, os curtas-metragens de Kleber "A Menina do Algodão" (2003), "Vinil Verde" (2004), "Eletrodoméstica" (2005), "Noite de Sexta, Manhã de Sábado" (2006) e a narrativa documental de metragem longa "Crítico", de 2008 (hoje na MUBI) contabilizaram cerca de cem prêmios em festivais no Brasil e no exterior. A partir daí, entre 2008 e 2015, sobretudo depois do fenômeno mundial do filme "Recife Frio" (2009), dirigido por KMF, a CinemaScópio virou uma das principais produtoras audiovisuais de seu estado, PE, produzindo ou coproduzindo filmes de Leonardo Sette, Juliano Dornelles, Leonardo Lacca.

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'Sem Coração' concorreu nos Horizontes de Veneza, em 2023 | Foto: CinemaScópio

Em 2023, Nara Normande e Tião levaram a companhia de Emilie e Kleber à mostra Orizzonti de Veneza, onde estrearam "Sem Coração". No ano seguinte, a diretora Nele Wohlatz, nascida na Alemanha, rodou em Pernambuco, com produção dos criadores de "O Agente Secreto", o tocante "Dormir De Olhos Abertos", coroado com o Prêmio da Crítica na Berlinale.

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'Dormir de Olhos Abertos' integra um time de asiáticos em trânsito pelo mundo filmado por Nele Wohlatz | Foto: CinemaScópio

Além de fazer filmes, a CinemaScópio é responsável pela realização da maratona cinéfila Janela Internacional de Cinema do Recife, que se tornou um dos festivais de cinema mais importantes do país desde sua criação em 2008. Assegurou projeção no país das obras de artesões autorais como o bielorrusso Sergei Loznitsa, realizador do recente "Dois Procuradores".