Único consenso da premiação deste domingo parece ser Jessie Buckley por sua atuação em 'Hamnet'. Com quatro indicações, 'O Agente Secreto' quer fazer história em Hollywood
Pelas normas de toda boa cartilha de storytelling dos Estados Unidos, a surpresa é um efeito essencial a qualquer narrativa que se pretenda popular, portanto, o suspense que ronda a potencial vitória de "O Agente Secreto", nas quatro categorias a que foi indicado no Oscar 2026, é parte de uma liturgia essencial para atenção do público (mundial) aos filmes em competição. Favoritismo, do tipo que se escreve com "F" maiúsculo, parece existir só um na cerimônia, a ser realizada neste domingo, em Los Angeles, pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a vitória de Jessie Buckley na categoria Melhor Atriz, por "Hamnet". De resto, tudo pode virar e muito anúncio pode surpreender na festa que vai mobilizar o Dolby Theatre, em LA, a partir das 15h (20h aqui) deste 15 de março, sob o comando de Conan O'Brien.
Cada acontecimento será transmitido no Brasil pela TNT e pela HBO Max, com prévias a partir das 18h30 - além da Globo, que só vai sintonizar na festa às 21h. O Estação NET Rio vai projetar o Oscar em cinco de suas salas, ciente de que vão acontecer resultados inusitados. Com uma guerra rolando solta no Irã, desde o bombardeio daquela nação deflagrado por Donald Trump, e uma série de simbolismos políticos em pauta, viradas a granel são esperadas, com direito a uma possível consagração hollywoodiana do baiano Wagner Moura.
Não foi sorte de principiante a vitória do Brasil no Oscar do ano passado, com "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, pois, uma vez, nosso país está no páreo pelo troféu mais cobiçado da cultura pop. Visto por 2,5 milhões de pagantes no circuito nacional, "O Agente Secreto", do diretor Kleber Mendonça Filho concorre na raias de Melhor Filme, Filme Internacional, Ator (Wagner) e (a recém-criada) Escalação de Elenco (representado por Gabriel Domingues). Para espichar a alegria nacional, o paulista Adolpho Veloso briga pela láurea de Melhor Direção de Fotografia por "Sonhos de Trem" ("Train Dreams"), à força de seu trabalho de iluminação estonteante na saga de solidão e resistência passada a margem de trilhos e dormentes.
Alguns dos concorrentes chegam "pesadões", cheio de nomeações, embora nenhum oestente tantas quanto "Pecadores" ("Sinners"), terror antirracista rodado por Ryan Coogler. É recordista de nomeações: 16 ao todo. Tal número nunca foi alcançado antes. É um marco antirracista, que narra a luta de dois irmãos gêmeos (vividos por Michael B. Jordan) contra vampiros na América da Kux Klux Klan. B. Jordan se impõe como o rival n° 1 de Wagner, depois de ter vencido o prêmio do Sindicato dos Atores de Hollywood, que é a massa votante de maior número entre todas as associações laborais dos EUA a integrar a Academia.
Numa afirmação dos profissionais radicados nos EUA, essa instituição sindical deixou atores de outras nacionalidades que não as anglo-saxônicas de fora de sua premiação, o que descartou a presença do eterno Capitão Nascimento, há muito tempo ligado a ideologias inclusivas avessas às de seu personagem até então mais famoso, lá de "Tropa de Elite" (Urso de Ouro de 2008). De maio de 2025 para cá, desde que "O Agente Secreto" concorreu à Palma de Ouro de Cannes e saiu do festival mais prestigioso do planeta com quatro prêmios (incluindo Melhor Direção e Interpretação Masculina), Marcelo (aka Armando Solimões) virou seu papel de mais destaque - e de mais consagração. Hoje na Netflix, a cruzada desse sujeito, ambientada no Recife de 1977, para retomar o convívio com o filho, após um afastamento forçado por pressões dignas de lhe custar a vida, embatucou o Brasil... e encantou o mundo.
"Estou muito feliz de ver esse reconhecimento, com meus coprodutores. Tenho muito orgulho, e Kleber também, de lembrar que esse filme é fruto de políticas públicas, de investimento na cultura do país e também da coprodução", celebra, em depoimento ao Correio da Manhã, a francesa Emilie Lesclaux, parceira de trabalho e vida de Mendonça Filho, e produtora do longa.
Em 11 de janeiro, a (boa) sorte de "O Agente Secreto" mudou com a dupla conquista do longa-metragem de Kleber Mendonça Filho no Globo de Ouro - coroado como Melhor Ator e Melhor Longa de Língua Não Inglesa. Com cerca de US$ 17 milhões de receita pelo mundo, a produção da Cinemascópio já soma cerca de 83 prêmios e teve seu cacife ampliado depois de ganhar a capa de dezembro da revista "Cahiers du Cinéma", Bíblia da cinefilia mundial desde a década de 1950. A produção, ambientada no fim da década de 1970 (no governo Geisel), e centrada na luta pela vida de um professor e pesquisador de universidade pública (papel de Wagner) perseguido por assassinos, está no ranking de 10 Melhores Filmes do Ano do periódico francês e foi eleito "O" longa de 2025 pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ).
"Kleber e eu nos conectamos pelas vias da política, num olhar que se afina, sobre o que o Brasil passou, mas sempre quis filmar com ele, sobretudo depois de ver 'O Som ao Redor'. Se ele me chamasse para fazer Chapeuzinho Vermelho, eu fazia", disse Wagner ao Correio em Cannes.
No Oscar dos Estrangeiros, seus concorrentes são o espanhol "Sirât", de Oliver Laxe (indicado ainda à estatueta de Melhor Som e cotadíssimo para leva-la); o rolo-compressor norueguês "Valor Sentimental", de Joachim Trier, cuja bilheteria beira US$ 21 milhões; "Foi Apenas Um Acidente", do iraniano Jafar Panahi, que ganhou a Palma de Ouro deste ano e concorre pela França, sua coprodutora; e o tunisiano "A Voz de Hindi Rajab", de Kaouther Ben Hania, coroado com o Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza.
A trajetória de "O Agente Secreto" não deixa em nada a desejar à jornada vitoriosa que nosso cinema trilhou entre o segundo semestre de 2024 e março de 2025 com "Ainda Estou Aqui", de Salles. São duas narrativas distintas, embora ambas se passem parcialmente na década de 1970 e deem ao regime militar de então uma abordagem crítica - cada um tratando a época à sua maneira. "Pirraça" é o termo com que Kleber descreve aquele tempo.
"Pirraça tem um som muito particular, maior do que qualquer verbete de wikipedia pode traduzir. O uso dessa palavra, num filme que eu fiz para o povo brasileiro ver... e no cinema..., abre relação forte com a língua portuguesa, ao expor algo que persiste como comportamento humano. O Brasil tem uma inabilidade de lidar com fatos históricos Por isso, 'O Agente Secreto' é um filme sobre o que a gente esqueceu", disse Kleber ao Correio da Manhã.
Jornalista especializado em Cinema e crítico ao longo de 13 anos, entre as décadas de 1990 e 2000, Kleber tem a noção que o sonho brasileiro de fazer bonito no Oscar começou logo após a II Guerra Mundial. Em 1945, o maestro Ary Barroso (1903-1964), de Ubá (MG), foi caçar o prêmio, em nosso nome, ao dividir com Ned Washington (1901-1976) a nomeação à estatueta de Melhor Canção por "Brasil" (1944), de Joseph Santley (1889-1971), com a música "Rio de Janeiro". Ela acabou preterida. Venceu "Swinging on a Star", de "O Bom Pastor".
Não tardou, contudo, para que um longa de nossa lavra, "O Pagador de Promessas" (1962), de Anselmo Duarte (1920-2009) - aliás, nossa única Palma de Ouro em 78 edições de Festival de Cannes -, entrasse no páreo das produções de CEP estrangeiro (ou seja, não estadunidenses). Concorreu em 1963 e perdeu para "Sempre Aos Domingos", da França, de Serge Bourguignon.
Antes de Walter Salles vencer com "Ainda Estou Aqui", ele mesmo concorreu na Academia, em 1999, com "Central do Brasil", que perdeu para o italiano "A Vida É Bela. Pouco antes, ainda na segunda metade da década e 1990, a produtora carioca LC Barreto (do casal Lucy e Luiz Carlos, o Barretão) concorreu duas vezes quase consecutivas: em 1996, com "O Quatrilho", e em 1998, com "O Que É Isso Companheiro?". Em anos mais recentes, Petra Costa disputou a láurea dos documentários com "Democracia Em Vertigem", em 2020, e Alê Abreu, a de Melhor Animação, com "O Menino e o Mundo", em 2016. Não se esqueça do curta "Uma História de Futebol", sobre Pelé, que concorreu em 2001.
É uma travessia longa que demonstra o quanto o Brasil lutou para fazer parte do processo de modificação da Academia, hoje mais aberto às diversidades do que nunca, mesmo sem deixar de lado a prata da casa, como é o caso de "Uma Batalha Após A Outra" ("One Battle After Another"), de Paul Thomas Anderson, que fez a festa no Globo de Ouro, há dois meses, e deve dar a seu realizador o Oscar de Direção. Seu cineasta, um californiano de 55 anos, consagrado antes por "Magnólia" (Urso de Ouro de 2000) e "Sangue Negro" (2007), é o nome mais forte para vencer ainda a estatueta de Roteiro Adaptado. Teyana Taylor, que brilha radiantemente no papel da revolucionária Perfidia Beverly Hills, é dada como ganhadora nata do Oscar de Atriz Coadjuvante Sua arrecadação, US$ 206 milhões, impressiona. É a trama mais irônica com Trump de todo o Oscar. Fala de uma organização rebelde que é desmantelada pelas Forças Armadas dos EUA, depois que uma de suas mais operativas mais corajosas, Perfidia, some, o que gera uma caça a seu ex-namorado (Leonardo DiCaprio) e à filha deles, Willa (Chase Infiniti), perseguidos pelo militar estrambótico Lockjaw (Sean Peen, em interpretação colossal).
Dos nove títulos que disputam com "O Agente Secreto", o Oscar mais cobiçado, o de Melhor Filme - "Bugonia", "F1", "Frankenstein", "Hamnet", "Marty Supreme", "Uma Batalha Após A Outra", "Valor Sentimental", "Pecadores" e "Sonhos de Trem" -, o mais lucrativo foi o épico automobilístico com Brad Pitt, designado pela sigla de Fórmula Um. Faturou US$ 631 milhões. Concorrerá ainda aos prêmios de Melhor Som, Efeitos Visuais e Montagem. O longa americano que mais lucrou em venda de ingressos em 2025, tendo arrecadado US$ 1,8 bilhão, chama-se "Zootopia 2" e só foi indicado a um Oscar: o de Melhor Animação. Estima-se que o sul-coreano "Guerreiras do K-Pop" vá derrota-lo.
Dos concorrentes de Kleber na frente dos filmes internacionais, de língua não inglesa, "Valor Sentimental" pode premiar (merecidamente) o sueco Stellan Skarsgaard fazendo dele o Melhor Coadjuvante - se Sean Penn deixar. Trata-se de uma história de amor triangular que envolve cinema, teatro e família. Um prestigiado documentarista escandinavo que um dia foi uma espécie de Bergman (vivido por Stellan) procura sua filha, uma atriz teatral de tarimba (Renate Reinsve), com o projeto de uma ficção. O tal filme recria o suicídio de sua mãe, avó da jovem.
Na competição de Cannes, esse estudo sobre culpa, remorso e perdão de Joachim Trier ganhou o Grande Prêmio do Júri, a láurea de maior peso logo depois da Palma dourada. Stellan, de origem sueca, foi ovacionado ao ganhar o Globo de Ouro de coadjuvante por sua colossal composição de uma figura paterna fraturada. Foi aplaudido em especial pela luta contra a perda de memória, decorrente de um AVC. Seu histórico na TV e no cinema dos Estados Unidos é antigo, de "Mama Mia" (2008) à série "Andor", passando pela franquia "Thor" (2011-2013). Fora isso Trier vem fazendo sucesso em solo americano com "Mais Forte Que Bombas" (2015) e "A Pior Pessoa do Mundo" (2021), que fez de Renate uma estrela no âmbito dramático.
No entanto, o golaço de Kleber no evento da Golden Globe Foundation e em inúmeras outras premiações, põe o Brasil num papel estratégico. O bicampeonato é um horizonte possível... e esperado, sendo que Adolpho Veloso é uma ascendente aposta para o Oscar de Fotografia. Agora é só torcer.