Cineclube Casas Casadas exibe o .doc 'Brizola' no aniversário de seu diretor, morto em 2025, que deixa de legado, entre vários projetos, um filme sobre o MinC com a Fundação Casa de Rui Barbosa
Todo 12 de março, de 2026 em diante, há de ser uma data de saudade, num signo de ausência, na celebração do nascimento do papa do documentário histórico brasileiro, Silvio Tendler (1950-2025), que saiu de cena em setembro do ano passado, sem pedir licença à carência da gente. Uma série de ações circundam a celebração (póstuma) do aniversário do realizador de marcos como "Tancredo: A Travessia" (2011), na manutenção de seu legado. Para festejar seu dia, o Cineclube Casas Casadas, em Laranjeiras, promove esta noite, às 18h, a sessão de um de seus derradeiros trabalhos, "Brizola - Anotações Para Uma História" (2024), que estreou no Festival do Rio, há um ano e meio, mas não teve espaço em circuito comercial.
"Esse filme se enquadra dentro de uma série que chamei de 'Sonhos Interrompidos'. Uso esse termo porque o sonho do Brizola sempre foi chegar à Presidência da República. O golpe de Estado fez com que ficasse no exílio de 1964 a 1979, mas, ao voltar, ele ganha o Governo do Rio de Janeiro, em 1982, numa eleição em que tentaram garfá-lo dele. Eleito, Leonel constrói 600 Cieps, para deixar evidente seu projeto de Brasil: manter nossas crianças alfabetizadas na escola, bem alimentadas, saudáveis em prol de um país saudável", contou Tendler ao Correio da Manhã logo que iniciou as filmagens, em 2022.
Paralelamente, a Fundação Casa de Rui Barbosa anuncia a realização do documentário "MinC: Cultura e Democracia - O Fio Invisível Da Memória", cujo argumento original foi desenvolvido por Tendler. Ele participou ativamente da concepção do projeto. A direção artística é da produtora dele, a Caliban Cinema e Conteúdo, criada em 1981. O longa promete registrar, analisar e contextualizar a trajetória de batalhas do Ministério da Cultura desde sua criação, em 15 de março de 1985, até sua retomada recente, situando-o como dimensão estruturante de um projeto democrático de Estado.
"Acho que o maior legado do Silvio Tendler para a cultura brasileira é ter construído um cinema profundamente comprometido com a memória e com a democracia", diz o presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, Alexandre Santini. "O trabalho dele sempre partiu da compreensão de que contar a História do Brasil é também disputar os sentidos dessa História. Ele ajudou a formar uma tradição de cinema documental que não só registra acontecimentos, mas interpreta o país e participa ativamente do debate público. No plano pessoal, a lição mais valiosa que ele me deixou foi a importância de tratar a memória como uma responsabilidade pública. O Silvio sempre insistia que a memória não é apenas um registro do passado, mas uma ferramenta para compreender o presente e disputar o futuro. Aprendi com ele que preservar, contar e refletir sobre a História do Brasil é parte essencial da defesa da democracia".
As filmagens começaram em fevereiro, tendo Ana Rosa Tendler (filha de Silvio, que há tempos comanda a Caliban) na produção. "Esse projeto carrega diretamente o legado do meu pai. O argumento foi inteiramente desenvolvido por ele, em diálogo permanente com Alexandre Santini, a partir de muitos encontros, conversas e reflexões sobre cultura, democracia e memória institucional. Mesmo já fragilizado, ele acompanhou cada etapa com enorme dedicação", diz Ana Rosa, no release do projeto.
Em janeiro, a produtora contou ao CORREIO que tem lutado arduamente para preservar a filmografia de Tendler. "Mais do que um acervo, meu pai me deixou uma missão. Dar continuidade ao trabalho dele é honrar o homem sensível, generoso e profundamente comprometido com a memória do Brasil", diz Ana Rosa, preocupada com a preservação dos feitos em película por Tendler.
Ela vem buscando patrocinadores para digitalizar as imagens reunidas pelo documentarista de maior bilheteria do cinema de não ficção do país e, em seguida, depositar seu material em um órgão público que faça honra à sua potência artística. Muito "não" apareceu no caminho dessa corrida, mas parceiros como Santini mostram que a criatividade de Tendler é imparável. Resistir está no DNA de Ana Rosa. Sorte dela que alguns anjos da guarda têm surgido, encantados pela forma de Tendler filmar.
Ele entrou no clube do milhão numa época em que exibidores não davam bola para narrativas que não fossem ficcionais. Seu "O Mundo Mágico dos Trapalhões" (1981) somou 1.892.117 pagantes, tornando-se um caso raro de blockbuster de um segmento que (muito) raramente ultrapassa 250 mil espectadores. Hoje na Prime Vídeo da Amazon, esse longa-metragem retrata Didi, Dedé, Mussum e Zacarias em suas vidas fora das câmeras. Ainda nos anos 1980, em meio ao processo de redemocratização, Tendler lotou cines com "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980), que totalizou 800 mil espectadores, e "Jango" (1984), que contabilizou cerca de 1 milhão de entradas vendidas. Na dramaturgia de ambos, ele contrapôs o otimismo da era pré-1964 à sisudez do regime militar. Em meio à euforia comercial de seus maiores êxitos, ele fundou a produtora Caliban e marcou seu nome na docência, lecionando por anos a fio na PUC-Rio. "A verdade vai aflorar com outras tecnologias", dizia Tendler às suas turmas. "Eu venho de uma geração libertária que aprendeu a relacionar objetivamente com os materiais históricos para, a partir deles, propor uma dialética, com a certeza de que tudo o que é operado por humanos, até a inteligência artificial, carrega consigo ideologias".
Em sua última conversa com o jornal, o cineasta contou que deixou inacabado um filme sobre Pontos de Cultura, então em gestação. Segundo Ana Rosa, o longa se chama "Pontos de Partida" e está sendo finalizado pelo produtor Claudio Kahns.