Por: Sandro Macedo (Folhaspress)

'Pecadores' pode quebrar a maldição dos filmes de terror no Oscar

Michael B. Jordan e Miles Caton em cena do filme 'Pecadores', de Ryan Coogler, o recordista absoluto de indicações ao Oscar | Foto: Divulgação

Gênero vem sendo historicamente esnobado pelos votantes da maior premiação do cinema mundial

Com 16 indicações, "Pecadores" detonou o recorde de filme com mais indicações ao Oscar, que pertencia ao trio "A Malvada", "Titanic" e "La La Land: Cantando Estações", todos com 14. Mas se até outro dia alguém apostasse que essa marca seria quebrada por um terror, provavelmente quebraria a banca.Isso porque, historicamente, votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não são muito chegados em sustos, sangue esguichando ou cabeças girando mais do que a física permite — mesmo que sejam campeões de bilheteria.

Por isso, mesmo o recorde de indicações não faz de "Pecadores" um franco favorito ao prêmio principal, apesar dos elogios e dos louros colhidos pelo diretor Ryan Coogler.Com reconhecimento em dezenas de premiações menores, "Pecadores" coletou neste domingo (1º) suas conquistas mais importantes, vencendo na categoria de melhor elenco e de melhor ator, para Michael B. Jordan, no The Actor Awards, antigo SAG, entregue pelo sindicato de atores dos Estados Unidos.

O prêmio a duas semanas do Oscar dá um impulso à candidatura de Jordan como melhor ator, em categoria que tem Timothée Chalamet como principal aposta, por "Marty Supreme", e Wagner Moura correndo por fora, por "O Agente Secreto".Coogler é apontado também como favorito apenas entre os candidatos no quesito roteiro original — no entanto, com 13 indicações, "Uma Batalha Após a Outra", de Paul Thomas Anderson, continua como nome mais forte para melhor filme e direção."Pecadores" acompanha dois irmãos gêmeos que desafiam a pirâmide social da época para abrir um bar de blues no sul dos EUA nos anos 1930.

No entanto, na noite de abertura, eles se veem encurralados por um grupo de vampiros. A originalidade da trama, com os sanguessugas como uma alegoria do racismo estrutural, conquistou a crítica americana.O filme foi apontado também como um dos grandes ativos da Warner Bros. em tempos de venda anunciada. Com US$ 279 milhões de arrecadação, o longa foi a sétima maior bilheteria de 2025 nos EUA, à frente de superproduções como "O Quarteto Fantástico: Primeiros Passos" e "F1: O Filme".

No Oscar, bem antes de "Pecadores", muitos diretores de renome já passaram perto do troféu com títulos aterrorizantes. Talvez o representante do gênero que chegou mais próximo de levar melhor filme tenha sido "O Exorcista", de 1973.

Com dez indicações, o título levava a assinatura de William Friedkin, cujo longa anterior, "Operação França", tinha vencido cinco estatuetas, incluindo filme e direção.Apesar disso, a trama da menina possuída por um demônio ficou apenas com os prêmios de roteiro adaptado e som, perdendo a categoria principal para "Golpe de Mestre", com a dupla de galãs Paul Newman e Robert Redford.No ano de 1999, nenhum filme causou mais furor que "O Sexto Sentido", de M. Night Shyamalan, com a apavorante virada de roteiro — ou "plot twist" — da década.

O longa protagonizado por Bruce Willis teve a segunda maior bilheteria do ano nos EUA e chegou na cerimônia de 2000 com seis indicações, incluindo para o jovem Haley Joel Osment, de 11 anos, em ator coadjuvante. Saiu de mãos vazias.Outros clássicos do gênero tiveram destino semelhante. "Drácula de Bram Stoker", adaptação elogiada do premiado Francis Ford Coppola para o texto de Bram Stoker, conquistou três prêmios técnicos e não chegou a concorrer nas categorias principais.Um dos filmes mais cultuados do terror, "O Iluminado" não rendeu nenhuma indicação para Stanley Kubrick ou para qualquer outra pessoa da equipe — para alegria do autor Stephen King, que sempre disse não gostar da versão de 1980.Entre os vencedores da estatueta de melhor filme, talvez os longas que mais flertem com o terror sejam "O Silêncio dos Inocentes", um suspense de Jonathan Demme que se tornou o último longa a levar o "Big 5" — estatuetas para filme, direção, roteiro, ator, para Anthony Hopkins, e atriz, para Jodie Foster — e "Rebecca, a Mulher Inesquecível", melhor filme de 1941, dirigido pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock — que nem naquele ano levou o troféu de direção.

Neste século, "Corra!", de Jordan Peele, parecia o filme certo para quebrar o jejum e levar o Oscar, com sua mistura de terror psicológico e forte crítica social. Foi indicado em quatro categorias, incluindo melhor filme. Porém, deixou a cerimônia de 2018 apenas com a estatueta de roteiro original, e viu "A Forma da Água", fantasia sombria de Guillermo del Toro, com o prêmio principal da noite.No ano passado, o "body horror" "A Substância" ressuscitou a carreira da atriz Demi Moore, vencedora de diversos prêmios, incluindo o Globo de Ouro de atuação em comédia ou musical. No Oscar, a atriz — assim como Fernanda Torres, de "Ainda Estou Aqui" — viu a premiação de Mikey Madison, do campeão "Anora".

As cinco indicações de "A Substância", incluindo melhor filme, transformaram-se em apenas uma estatueta, de maquiagem e cabelo.Neste ano, "Pecadores" não está só. "Frankenstein", também de Del Toro, soma nove indicações, incluindo a de melhor filme, mas suas chances são remotas. Uma coisa, porém, é certa — eles devem disputar, de perto um com o outro, os prêmios em categorias técnicas.