Com cult na MUBI e projeto de remake com Wagner Moura, Kiarostami ganha retrospectiva na Bergamo Film Meeting, em meio a bombardeios no Irã que ele ajudou a revelar ao mundo
Em um dos capítulos mais sangrentos da história do Irã começou a escrito em pólvora no dia 28 de fevereiro de 2026, depois de os Estados Unidos e de Israel lançarem ataques aéreos contra aquela nação, devastada ainda por um bombardeio em Teerã que matou seu líder político, Ali Khamenei, ampliando o conflito para uma guerra regional. Em meio à contagem de mortos e feridos em solo iraniano, um dos artistas mais importantes da luta para que a cultura daquele povo ganhasse as telas do mundo, o cineasta Abbas Kiarostami (1940-2016), começa a ganhar uma série de tributos em meio à efeméride de dez anos de sua partida. Falar dele é clamar por paz.
Por isso, entrou esta semana na grade da MUBI, o longa-metragem responsável por abrir os olhos do planisfério cinéfilo para o tanto de invenção e de poesia que Kiarostami tinha para oferecer: "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" ("Khane-ye doust kodjast?"). A vitória do troféu Leopardo de Bronze no Festival de Locarno de 1989 fez com que a crítica internacional olhasse para sua forma (neo)neorrealista de narrar, despertando curiosidade em festivais como Veneza e Cannes, de onde ele saiu com a Palma de Ouro, em 1997, com "Gosto de Cereja". Esse título, coroado com a honraria máxima da Croisette, será refilmado pelo argentino Lisandro Alonso com o baiano Wagner Moura, hoje indicado ao Oscar por "O Agente Secreto", de protagonista.
Paralelamente à sua entrada no www.mubi.com, "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" integra a seleção de 12 títulos que compõem a seção Homenagem a Kiarostami que vem sendo feita desde sábado, na Itália, pela Bergamo Film Meeting (BFM). O site do festival italiano justifica a honraria ao dizer: "mestre do cinema contemporâneo e força motriz por trás do renascimento do cinema iraniano entre as décadas de 1980 e 2000, o realizador persa redefiniu a relação entre realidade, ficção e percepção".
Nesta quarta-feira, a Bergamo Film Meeting promove uma conversa com o produtor Ahmad Kiarostami, filho de Abbas, na Sala Galmozzi da Biblioteca Caversazzi. Foi no último sábado que o público dessa maratona cinéfila conferiu "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?". Nele, o guri Ahmad (Babek Ahmedpoor), ao fazer seu dever de casa, percebe que pegou o caderno de seu melhor amigo por engano. Sabendo que seu professor exige que as tarefas sejam feitas na brochura de cada um, o menino escapa de sua mãe e parte em busca do colega. O caminho abre uma série de descobertas (sociais, antropológicas a afetivas) para ele - e para a plateia.
Existe um preceito filosófico essencial aos estudos de identidade nacional, iluminado pelo historiador francês Michel de Certeau (1925-1986), nas páginas de "A Invenção do Cotidiano" (1980), que embasa esse tributo da Bergamo Film Meeting. Ele é chamado "popularidade" e demonstra ser uma ferramenta de análise valiosa em meio ao simbolismo de Kiarostami para um Irã hoje inflamado e bombardeado. A dor da perda prematura do realizador de "O Vento Nos Levará" (1999) e "Close-Up" (1990) impulsiona a revisão crítica urgente das imagens que ele criou. A ideia do Irã como um perímetro populacional - como realidade autônoma - nas telas se deve muito a Kiarostami, destaque entre o esquadrão de artistas que inventaram a "iranidade" no audiovisual. Este crédito deve se estender também a Mohsen Makhmalbaf (via "Salve o Cinema") e a Jafar Panahi, indicado ao Oscar por "Foi Apenas Um Acidente", que ganhou a Palma de Ouro de 2025, em maio.
Em sua passagem pelo Brasil, na Mostra de São Paulo de 2004, Kiarostami dizia que qualquer "iranidade" nele deveria ser tratada como ser fosse uma relativização: "Existe um cansaço no olhar em torno de uma certa noção de 'simplicidade' que engessa a arte cinematográfica em tramas e no ideal de entretenimento", disse Kiarostami, ao Correio da Manhã, ao concorrer em Cannes com "Cópia Fiel", em 2010. "Sanar esse cansaço, contudo, gera um gasto de tempo de apreensão, de dedicação, de ruminação, como um ir e vir a uma mesma imagem, como se faz com um quadro de Kandinsky para fruir o que existe naquela geometria. Por isso, penso os filmes como um puzzle no qual o ajuntamento das peças nem sempre vai resultar num encaixe com harmonia, ou mesmo num encaixe possível. O espectador pode fazer o arranjo que quiser, pois não é matemática, não é uma equação na qual o valor de X pode ser descoberto com somas ou multiplicações irredutíveis e invariáveis. Não quero uma arte que se explique, ou tão pouco procure uma arte que julgue e aponte quem é o mau e quem é o bom", disse o diretor, que estreou com o curta-metragem "O Pão e o Beco" (1970).
Seu legado é apinhado de rizomas, o devastador "Um Alguém Apaixonado" (2012), um jogo de armar, um modo de (re)pensar o querer. O tempo passou e Kiarostami ficou eterno.