Faltando nove dias para a cerimônia de entrega do Oscar 2026, “O Agente Secreto” se prepara para estrear na maior plataforma da indústria mundial de streaming, a Netflix, atraindo novos olhares à força de suas quatro indicações aos prêmios da Academia de Hollywood. Neste sábado (dia 7 de março), ele poderá ser visto no grande N. Crocante na busca para arejar o paladar nacional na degustação de cartilhas de gênero, o thriller de Kleber Mendonça Filho é um eletrizante painel das pirraças que assolaram o Brasil nos anos 1970 (entre generais e burocracia), a partir da jornada de um cientista (Wagner Moura, colossal) para sobreviver. De novembro para cá, essa premissa contagiou brasileiros, que ajudaram a produção da Cinemascópio a contabilizar 2,5 milhões de ingressos vendidos. A conquista do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e de Melhor Ator, para Wagner, só faz crescer o interesse pelas bossas de seu diretor na realização.
“Kleber Mendonça Filho tem uma visão criativa muito única e corajosa. Em ‘O Agente Secreto’, ele cria um entretenimento sofisticado que provoca reflexão com maestria, levando sua Recife para o mundo com enorme personalidade. É exatamente o tipo de história que a Netflix tem orgulho de apoiar e levar para ainda mais pessoas”, afirma Elisabetta Zenatti, vice-presidente de conteúdo da plataforma no Brasil, em comunicado à imprensa, que aguarda os rumos do Oscar.
Na premiação mais pop do planeta, “O Agente Secreto” concorre (com favoritismo) ao troféu de Melhor Filme Internacional. Concorre ainda na categoria recém-criada Melhor Elenco, fora brigar pelos prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator, onde Wagner é uma opção forte.
Falando-se de streaming, quatro curtas-metragens de Kleber estão na grade da MUBI: “Vinil Verde” (2004); “Eletrodoméstica” (2005); “Noite de Sexta, Manhã de Sábado” (2007); e “Recife Frio” (2009). Neles estão todos os elementos que aquecem “O Agente Secreto”, mais eletrizante longa do realizador, um artista visual de Pernambuco que militou na crítica e na reportagem nos anos 1990 e 2000, a partir de uma prosa irônica, mas sempre cinéfila. A cinefilia desenha o diálogo que cada pílula supracitada, hoje na www.mubi.com, trava com gêneros dramatúrgicos, da crônica social em painel à la Robert Altman ao documentário falso (mockumentary) com ares de “filme-catástrofe”. Há em todos a tal ironia de sua escrita de resenhista e há obsessões temáticas recorrentes: o abandono de espaços urbanos à sombra da gentrificação; falhas de comunicabilidade no eixo familiar; e intolerâncias de classes, muitas vezes algemadas ao racismo. A soma desses assuntos pavimenta o trabalho em metragem longa que deu a KMF o troféu de Melhor Direção em Cannes, onde ganhou o Prêmio da Crítica também, além de uma láurea da Associação Exibidora de Filmes de Arte e Ensaio, candidatando-se a uma consagração planetária - merecida. É um trabalho de invenção pura.
Numa sequência de franco afeto, Seu Alexandre, projecionista de vasta experiência, pergunta ao genro há muito sumido, interpretado pelo colosso chamado Wagner Moura, “depois que a minha filha, a Fátima, morreu, tu raparigaste muito, não é? Raparigou ou não raparigou?”. Ali, a dificuldade de troca sincera entre integrantes de uma família - já apontada no seminal “O Som Ao Redor”, o primeiro longa de Kleber - se faz pontuar. Há uma pontuação gradual dos ranços classistas que ele denuncia na maneira como um empresário de caráter microcoscópico, o executivo Ghirotti (Luciano Chirolli), uma espécie de Justo Veríssimo, trata os assassinos de aluguel Bobbi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Vilela, sublime em cena).
O já assinalado interesse do diretor por um Recife que descasca e desbote diante do descuido do governo com a arquitetura local - e com o povo que nela habita - é perceptível na andança de Marcelo (nome inicial do personagem de Wagner) no centro da cidade e em sua incursão num carnaval que ferve a frevo, no Brasil de 1977. E o Brasil de Ernesto Geisel (1907-1996)
Não se fala nele, nem se fala explicitamente na palavra “ditadura”, mas o retrato do milico está nas paredes por onde Marcelo desfila com esse falso nome, com uma identidade falsa, disfarçando-se para se “proteger do Brasil”, qual explica a operativa de uma célula de resistência vivida por uma Maria Fernanda Cândido em mood Monica Vitti. Sua fala expõe as chagas do regime vigente à época. Um regime de farda verde oliva que fabricava desaparecimentos para se livrar de seus desafetos.
Provocativo ao longo de toda a extensão de seus 158 minutos, “O Agente Secreto” revive o jugo ditatorial que oprimiu este país a partir de 1964 (até 1985, com espasmos de retomada após o Golpe de 2016 e a eleição de Jair Bolonaro) sob a ótica da paranoia decorrente do controle da nação pelas Forças Armadas. Existe um timbre paranoico por trás de cada sequência, numa operação de imprimir tons persecutórios num âmbito sinestésico.
Ao operar nessa toada, “O Agente Secreto” se soma ao precioso “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, que nos deu o Oscar, e aplaca uma carência histórica do cinema brasileiro em relação a filmes de ficção que narrem as brutalidades estatais cometidas nos 21 anos em que oficiais militares tomaram o governo e suspenderam a democracia. Os argentinos viveram situação similar, igualmente sangrenta, e a exorcizaram, no cinema, com “A História Oficial”, de 1985, e “Argentina, 1985”, de 2022, com direito a outros sucessos no caminho. O Brasil reagiu cinematograficamente ao avanço dos comandantes fardados no ato do golpe com “O Desafio” (1965), de Paulo Cézar Saraceni (1933-2012). Uma nova reação de peso brotaria das telas em 1982, com direito a uma indicação ao Urso de Ouro de Berlim e 1,3 milhão de ingressos vendidos em circuito: “Pra Frente, Brasil”, de Roberto Farias (1932-2018). Cerca de 15 anos depois, Bruno Barreto tomou as telas de assalto com “O Que É Isso, Companheiro?”, que também concorreu na Berlinale, falando do sequestro do embaixador americano (vivido por Alan Arkin) como rechaço à governança militar. Fora isso, desde os anos 1980, a realizadora Lucia Murat fez dos Anos de Chumbo o assunto de seus dramas, incluindo “Quase 2 Irmãos” (2005) e o recente “O Mensageiro” (2023), e já citado (e elogiado) Wagner Moura arriscou-se (muito bem) na realização relembrando o período em “Marighella” (2019).
No documentário, “Cabra Marcada Para Morrer”, de Eduardo Coutinho (1933-2014), que é um farol para KMF, e toda a obra de Silvio Da-Rin (“Hécules 56”) expuseram toda a violência da ditadura em um dos maiores territórios da América do Sul. Apesar desse sortimento, faltava uma catarse... sobretudo de retumbância popular, que fosse capaz de reverberar pelo mundo.
Walter goleou essa nossa angústia. KMF vem agora arrematar a partida, num sinal de que o risco de agentes militares se arvorarem a tomar o Brasil de novo pode sempre rondar os ares da pátria. Ele o faz em forma de um espetáculo cheio de alusões ao cinemão político americano dos anos 1970. Tanto que o miolo de “O Agente Secreto” é recheado com tomadas de perseguição que evocam a caça de Gene Jackman a Fernando Rey em “Operação França” (1971). Evoca-se “Três Dias Do Condor” (1975) no uso de um arquivo como cenário. Tais referências temperam o filme de KMF, mas sua brasilidade é a especiaria central, assegurada pela atuação em estado de graça de Wagner, que ganhou o Prêmio de Melhor Ator em Cannes por sua maneira de alquebrar-se, remontar-se e “desmorrer”.
Seu personagem, de variados nomes, é um dos elementos seminais da “Chico City” que Kleber Mendonça Filho cria, longa após longa, um pouco como Chico Anysio fez a dele (1931-2012): qual um puzzle do Nordeste, com seus cangaceiros, seus coronéis, seus dragões da maldade e seus santos guerreiros. Que filme notável ele fez em “O Agente Secreto”! Que a Netflix se empapuce dele, que fez da potiguar Tânia Maria uma estrela transcontinental no papel de Dona Sebastiana.