Máquina (viva) de escrever livro bom, Estevão Ribeiro garante ao Correio da Manhã que vai finalizar um longa-metragem (o primeiro de sua carreira como realizador), chamado "Escreviventes", até novembro, para o aniversário de 80 anos uma de suas protagonistas: a diva da palavra Conceição Evaristo. Uma das maiores autoras da prosa latino-americana que, desde o do seminal "Água de Barrela" (2016), é certeza de alumbramento a cada novo livro. A matéria central do filme passa por um conceito, "escreviver", essencial hoje à literatura que ecoa a luta decolonial.
Até lá, entretanto, Estevão, um capixaba nascido há 46 anos no bairro do Itararé, em Vitória (ES), tem uma joia em formato pílula (cerca de 18 minutos) para mostrar ao mundo: a lindeza de curta-metragem "Salve, Rainha!", que marca sua estreia como diretor. Quilometragem no audiovisual ele já possuía, e muita, pois trabalhou nas temporadas um e dois de "Cidade de Deus - A Luta Não Para" (HBO MAX) e em "Pai é Pai" (do GNT), além de ser criador da série infantil "Vovó Tatá" (Gloobinho). Mas... filme é filme e o dele, dos bons, rodado em dupla com Fabio Carvalho, vai passar em abril no Canadá, nas telas do International Black & Diversity Film Festival, o IBDFF.
Na trama escrita por Estevão e filmada por ele e Carvalho, uma mulher trans volta à vila onde nasceu, no Espírito Santo, para visitar a irmã e se candidata ao cargo de rainha da banda de congo que pertenceu a seu finado pai. No papo a seguir, verdades ancestrais pedem passagem.
Ao ser convocado para um festival no Canadá, o curta "Salve, Rainha!", que dirigiu com Fabio Carvalho, integra-se num bonde de filmes brasileiros que levam nosso cinema pelo mundo. Das 13 produções de nosso país na Berlinale, a metade tinha artistas negras/os em foco, longe de estereótipos dos problemas de violência e tráfico. De que modo o teu curta amplia essa mudança?
Estevão Ribeiro - "Salve, Rainha!" é um filme sobre voltar para casa, mesmo que essa casa ainda não pareça um lar. Quando se fala de pessoas negras, é difícil se encaixar nos lugares, é difícil encontrar lugares seguros para se ser quem é. O filme tem afeto, de acolhimento, mas também vem com muitas mágoas e desafios que, sim, jogarão luz sobre algumas violências, como a transfobia, mas essa não é a questão principal do filme, e, sim, o acerto com o passado e o respeito à ancestralidade.
De que maneira as questões de identidade trans se articulam às ancestralidades negras e às lutas de resistência cultural no teu "Salve, Rainha!"?
Eu nasci no Espírito Santo, de onde saí há 18 anos e a história se passa lá: num lugar incrível, mas com uma forte inclinação para a Direita. Então, ser um homem negro lá, apesar de ser maioria, é também ser um corpo estranho. Ainda mais nos lugares a que acessei ainda no começo dos anos 2000: redações de jornal, estúdios gráficos e a universidade pública. Quando pensei na história de alguém voltando para casa, reencontrando familiares e reatando os laços com a cultura local, pensei nesse corpo (que é visto como) estranho, ainda em 2026: uma mulher trans negra em uma família ligada às bandas de congo, uma manifestação cultural e religiosa. Há uma identidade local a ser requerida. É como eu me sinto, cada vez que visito os municípios de Vitória e Serra, onde morei até os 28 anos. Resgatar uma identidade que me foi negada e apagada enquanto vivi por lá. Esse afastamento do Estado, na vinda para Niterói, fez com que eu olhasse o lugar de fora e extraísse de lá o melhor. Este filme é minha declaração de amor ao meu Estado, à sua cultura, que eu tento levar para onde for.
Você tem histórico de editor e de escritor. De que maneira a vivência dos livros pontua a tua forma de lidar com o mercado cinematográfico?
Tanto na literatura quando no cinema tudo começa na escrita, né? Geralmente o escritor/roteirista é o primeiro a investir, a trabalhar sem receber, é o apostador zero, o dono do sonho que pode vir a ser compartilhado para o mundo. Essa história, em particular, era um conto e virou uma proposta de especial de TV. Depois, essa proposta foi adaptada e virou uma história mais longa, que integra meu livro de contos chamado "Salve, Rainha! e outras histórias", lançado pela Editora Malê no ano passado. "Salve, Rainha!" deu sorte, porque quando isso dá ruim, é mais um arquivo de 135kb em um computador. Mas quando dá certo, você movimenta 100 mil a cinco, dez milhões de reais numa cadeia produtiva. Na literatura, você paga o salário do cara que vende papel, de quem vende a tinta, do gráfico, do empacotador e o caminhoneiro, da gasolina... No cinema, você mobiliza profissionais de A a Z para contar uma história que começou com uma provocação, uma emoção, bancada por atrizes como Valéria Barcellos e Suely Bispo. Ver minhas palavras na boca e no olhar dessas atrizes me tirou o ar diversas vezes. Isso me inspira a continuar sendo o apostador número 1 dos meus sonhos.
O que vamos encontrar em "Escreviventes" e que outros títulos você prepara hoje?
"Escreviventes" é um longa documental que começamos a filmar ano passado sobre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. No longa, convidamos essas mulheres que vão fazer 80 e 60 anos, em 2026, para falar sobre suas vivências como escritoras, com comentários de pessoas maravilhosas, como Flávia Oliveira, Itamar Vieira Jr., Renato Noguera, Teresa Cárdenas, Ana Maria Gonçalves, Eloá e Tia Nunu (pai e tia-avó de Eliana). A linguagem continua a mesma, apesar do curta ser ficção e este, um documentário: uma celebração da família - seja sanguínea ou estendida - evocando nossas ferramentas de perpetuação da ancestralidade: a oralidade de a dança. Assim, escrevivemos.