Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Cacá Diegues, um monumento do cinema brasileiro

Cacá Diegues no set de filmagens de 'Deus Ainda é Brasileiro' | Foto: Gabriel Moreira/Divulgação

A inauguração de uma estátua em homenagem póstuma ao realizador, no Alto da Boa Vista, neste sábado, celebra um legado que levou nosso povo ao cinema... e ao Altíssimo

Fez um ano que o país chorou a morte de Carlos Diegues (1930-2025). Já é hora de verter o pranto em tributo... um tributo capaz de desafiar o tempo, como seus longas-metragens eram craques em desafiar, com a inauguração de um monumento com suas feições. Ele será erguido na Estrada da Gávea Pequena, na altura do número 1338, no Alto da Boa Vista. A estátua será inaugurada às 17h deste sábado, seguida de uma exibição do documentário "Para Vigo Me Voy", de Karen Harley e Lírio Ferreira, que celebra o legado do artesão autoral alagoano. Vai ter um tantão de gente lá, para provar que o Cacá era um país.

O Brasil em peso cabia em seu "Trem Para As Estrelas" (1987) e na sua Caravana Rolidei, de "Bye Bye Brasil" (1980). Esses dois títulos foram exibidos por ele no Festival de Cannes, em competição pela Palma de Ouro, em sintonia com seu empenho de mostrar ao mundo que a maior riqueza de uma nação é seu povo. Nele, ninguém é um só.

Intérprete das feridas narcísicas do país em seu trabalho dominical como cronista em O Globo e em sua inestimável filmografia, o cineasta alagoano atravessou seis décadas a estudar as solidões que nos cercam.

Até o Todo-Poderoso, em seu "Deus É Brasileiro" (sucesso de público de 2003, com 1,3 milhão de pagantes), é uma entidade solitária, que vaga pela Terra em busca de sentido. A palavra "solitária" era o adjetivo que melhor descrevia a alma da personagem de Jeanne Moreau em seu "Joanna Francesa", de 1973, pois a companhia de consorte algum apaziguava o vazio de seu desterro. A Xica da Silva de Cacá era assim também. Mesmo com uma corte à sua volta, a protagonista do mais bem-sucedido blockbuster do diretor - com 3,5 milhões de ingressos vendidos, coroado com os Candangos de Melhor Filme e Melhor Direção em Brasília - carrega em seus gestos libertários a sombra da exclusão.

Mesma sombra se configura como inimiga dos heróis retratados por Cacá em "Ganga Zumba" (1963) e "Quilombo" (1984), títulos com os quais o diretor - um homem branco - desafiou a política de segregação pela cor da pele vigente na dinâmica do racismo institucional brasileiro.

Ele foi pioneiro nesse gesto, abrindo espaço para que pessoas pretas de todo o país se vissem representados como guerreiros reativos e, não, subalternos. Mas a solidão está sempre ali, no reflexo do fato de sermos o único território latino nas Américas a ser colonizado sob a língua portuguesa, e não pelo espanhol disseminado entre nuestros hermanos de continente.

Imortalizado também na literatura, como integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cacá esteve sempre atento ao não pertencimento e à desconexão, não por sentimentalismos em relação ao vazio, ao sofrimento, mas, sim, por uma preocupação sociológica com o desamparo que nos ameaça, sempre. "As pessoas que deixam as cidades onde nasceram para ganhar mundo passam a vida carregando esses lugares consigo, um pouco como eu sempre levei Alagoas comigo, onde quer que estive. Ela me ajuda a entender quem eu sou. Faço filmes para entender que povo a gente é", disse Cacá, ao Correio da Manhã, em Maceió, no set de "Deus Ainda É Brasileiro", seu canto de cisne, que está em finalização.

Ele definia a produção - que foi rodada em 2022, em meio à Copa do Mundo, mas entra agora em seus finalmentes - com a expressão "uma comédia cívica". Na trama, o Deus encarnado por Antonio Fagundes volta ao Nordeste com o intuito de acabar com tudo no planeta, insatisfeito com os rumos da Humanidade. Descrevendo o enredo assim, o personagem central parece ser o Altíssimo, mas, na prática, o pavimento da narrativa são as mulheres que ensinam ao Senhor o que é resiliência na Terra.

"No auge do governo Bolsonaro, nos dias de pandemia, só conseguia pensar que uma comédia poderia nos ajudar e fui pelo caminho do riso, pois ele nos ajuda a pensar", disse Cacá ao Correio da Manhã, nas filmagens. "Não se trata de uma comédia pura e simples, no sentido de fazer rir despropositadamente. Eu diria que este filme é uma comédia humanista, uma crónica do que está diante de nossos olhos e, ao mesmo tempo, que nos faz rir, nos indicando caminhos mais adequados nesse momento difícil da humanidade".

Longa vida aí no Infinito, Cacá.