Leva de thrillers pilotados por profissionais do perigo, como 'Missão Refúgio', de Ric Roman Waugh, renovam a representação da pancadaria feita por ferrabrases como Jason Statham
Apesar da patrulha de que é vítima, à luz de aparelhos ideológicos da correção política, o nicho chamado "cinema de ação" encontrou um balão de oxigênio capaz de restaurar seu fôlego pro século 21, à luz da chegada de dublês à direção. Chad Stahelski é o mais notório deles, por ter sido o responsável pela mais brilhante franquia do gênero em anos a fio: a saga "John Wick" (2014-2023), que, no ano passado, inspirou um derivado, "Bailarina". Vindo também de loucas aventuras em bastidores de blockbusters e filmes B, David Leitch conseguiu uma vitória de padrões históricos para os dublês-realizadores ao ser escalado para abrir o Festival de Locarno, na Suíça, em 2022, com "Trem-Bala", estrelado por Brad Pitt.
Além dele e de Stahelski, tem outros nomes nessa seara, ainda não tão cacifados, mas já bem-vindos em Hollywood nos departamentos de produções de orçamento mediano, mas de ampla ambição estética quando o assunto é plastificar o trinômio "tiro, porrada e bomba". Ric Roman Waugh é um deles, aliás, um dos melhores, não só no desenho de sequências de perseguição ousadas como no esforço de injetar humanidade nas tramas.
A proximidade com o perigo de sua carreira anterior, dando verossimilhança a sequências de risco vividas por Van Damme e Dolph Lundgren em "Soldado Universal" (1992), assegurou a ele apreço pela representação da fragilidade e da falibilidade dos heróis. Há até uma marca autoral em sua obra como cineasta, iniciada em 2001 com "Na Sombra do Crime", com Cuba Gooding Jr.: falar do desamparo. Esse é o tema do frenético "Missão Refúgio" ("Shelter"), que estreia nesta quinta no Rio, ampliando uma receita hoje estimada em US$ 42 milhões em sua bilheteria. No papel central, vem o ferrabrás da vez do cinemão: Jason Statham, dublado aqui por Armando Tiraboschi.
Sob o impacto de uma narrativa febril, que valoriza afetos na mesma medida em que arranca nosso fôlego, o circuito exibidor encontra componentes sentimentais diluídos em adrenalina nos planos de Waugh. Realizador de joias como o thriller "Sem Perdão" (2017), com Nikolaj Coster-Waldau, e o .doc "That Which I Love Destroys Me" (2015), ele executou, como dublê, missões de alta periculosidade (chamadas em Hollywood de stunts) em "Eles vivem" (1988) e "O Vingador do Futuro" (1990).
"Quero ir além do voyeurismo que transformou o cinema de ação em espetáculos de sadismo, de modo a investiga o humanismo. Ter sido dublê faz com que eu entenda de maneira íntima o risco que um astro de ação traduz nas telas e tento valorizar essa periculosidade sem me ater a ela", disse o diretor em entrevista ao Correio da Manhã, realizada em meio a compromissos como a franquia "Invasão ao Serviço Secreto", lá em 2019.
Esse discurso se mantém quando se avalia o que ele filma hoje. "O que move uma narrativa de tiro e luta é o som. Os efeitos sonoros dimensionam o medo, a tensão", diz Roman Waugh.
Embora tenha uma parceria longeva com Gerard Butler, com quem rodou joias como "Missão de Sobrevivência" ("Kandahar", 2023), Roman Waugh teve um outro vigilante profissional em "Missão Refúgio". Monarca do "Domingo Maior" da TV Globo, herdeiro (sem laços sanguíneos) de Stallone no comando da franquia "Os Mercenários" e fetiche do diretor Guy Ritchie, Jason Statham totaliza cerca de 1,1 bilhão de euros com a receita das aulas de pancadaria (em forma de filme) que ministra desde "Carga Explosiva" (2002). Armando Tiraboschi é sua voz oficial na dublagem nacional. O talento GG do dublador faz Statham soar como um ator shakespeariano.
"Existem muitos cineastas com verve autoral com quem eu gostaria de trabalhar, mas, por vezes, na indústria, somos vistos a partir de certos prismas, ainda que, no prisma que estou, eu tente humanizar os personagens, explorando a solidão que existe neles", disse Statham ao Correio da Manhã, quando lotava os cofres hollywoodianos de dólares com "Infiltrado" ("Wrath of Man", 2021), que arrebatou as telas em meio à pandemia e pode ser visto hoje na plataforma Prime Video.
Em "Missão Refúgio", o astro de "Megatubarão" (2018) vive Michael Mason, um assassino treinado pelo governo, lotado no grupo de elite Black Kites, que é assombrado por traumas do passado. Para se afastar do combate, opta por viver em completo isolamento em uma ilha remota da Escócia, longe de qualquer contato com o mundo, acompanhado apenas de seu cão. Todas as semanas, Mason recebe mantimentos de Jessie (Bodhi Rae Breathnach), uma jovem que chora a perda da mãe e que fica cada vez mais frustrada com o isolamento de seu cliente. Um dia, Jesse fica presa na ilha após uma tempestade. Mason cuida dela e vai ao continente comprar roupas, acidentalmente atraindo a atenção do seu antigo superior, Manafort (Bill Nighy, que envia uma equipe para eliminá-lo. No entanto, ele mata os homens e foge com Jessie para uma quinta escocesa, iniciando um jogo de gato e rato em prol de sua sobrevivência sob a mira do matador Workman (Bryan Vigier).
"Tento entregar ao público um herói mortal, não um deus, para que a identificação se dê pelo prisma da vulnerabilidade", disse Waugh, quanto filmava seu maior sucesso "Destruição Final: O Último Refúgio" (2020).