Uma cartografia das atrações imperdíveis para um mês que abrange do Dia Internacional da Mulher ao Oscar, pavimentando o mercado para os grandes lançamentos do ano
Mobilizado com a cerimônia do Oscar, a ser realizada no próximo dia 15, o mês de março abre seu calendário com um eclipse lunar, agendado para esta quarta-feira (4). O mês está apinhado de eventos, com destaque para o shows do AC/DC (4) e Jason Mraz (10), o Lollapalooza-SP (20 a 22) e a conferência South Summit Brasil (25 a 27), em Porto Alegre. No domingo (8), celebra-se o Dia Internacional da Mulher, instigando debates contra o sexismo. No dia 18, o Copacabana Palace empresta sua suntuosidade ao Golden Globe Tribute Awards, homenagem do famoso prêmio hollywoodiano ao audiovisual brasileiro. No fecho destes 31 dias, em 29/3, rola uma festa religiosa de peso para os católicos: o Domingo de Ramos, espécie de esquenta para a Páscoa.
No meio de tanto compromisso e efeméride, o cinema - já quite com seus compromissos com a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas hollywoodiana - entra numa fase crucial para seu planejamento anual. É no mês três que se apontam os potenciais sucessos e possíveis veios estéticos que pavimentarão a saúde financeira do mercado distribuidor e exibidor no primeiro semestre, antes de começar a temporada de blockbusters do Verão americano. É uma época de ouro para produções de médio porte, para animações e para experimentos autorais de risco.
É esse o caso do thriller de horror "A Noiva!" ("The Bride"), releitura que a atriz e cineasta Maggie Gyllenhaal fez do mito de Frankenstein, com Jessie Buckley no papel título e Christian Bale como o monstro. Estreia nesta quinta.
Nesta quinta (5), a Disney busca um espaço para si com "Cara de Um, Focinho do Outro" ("Hoppers"), animando multiplexes. A protagonista, Mabel, é uma jovem que ama e protege a natureza. Para impedir que um bosque que abriga os animais seja destruído, ela transfere sua mente para um castor robótico realista. Infiltrada no mundo selvagem, Mabel une forças aos bichos em prol da ecologia.
Se você não dá a menor pelota para o Mickey Mouse e odeia tramas animadas, não esquenta: na quinta tem o thriller psicológico com pinta de horror "Mother's Baby", de Johanna Moder, vindo da Áustria. A saga da regente (papel de Marie Leuenberger) que sofre um piripaque após ter neném, arranhando o limite do assombro, traz Claes Bang no papel de um cientista sinistro.
No dia 12, outra animação de fôlego estreia entre nós: "A Pequena Amélie" ("Amélie et la Métaphysique des Tubes"), um desenho franco-belga de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han. Passou pelos festivais de Cannes e de San Sebastián cercando-se de loas e se posicionou bem entre os oscarizáveis. Nesses eventos europeus, a adaptação do livro infantojuvenil de Amélie Nothomb sobre miscigenações cultuais - e as magias que cercam os intercâmbios entre povos - tornou-se um ímã de aplauso.
Também no dia 12, o cinema brasileiro vai se fazer notar (e brilhar) com "Hora do Recreio", de Lucia Murat, laureado com um a menção honrosa na Berlinale de 2025. A diretora de "Quase 2 Irmãos" (2004) retrata a reação de uma série de alunas/es/os a uma pesquisa com professores da rede pública. As turmas ali documentadas discutem temas como evasão escolar, racismo, tráfico de drogas, bala perdida, feminicídio e gravidez precoce, além de performarem uma peça de teatro baseada no livro "Clara dos Anjos". Por meio dessa dramatização, realizada por atores dos grupos Nós do Morro, do Vidigal; Grupo de Teatro Vozes, do Cantagalo; e Instituto Arteiros, da Cidade de Deus, alunas e alunos em cena comparam as interpretações às suas vivências.
Nessa mesma data, o maior ferrabrás do cinema de ação pós Sylvester Stallone, o inglês Jason Statham, senta o braço em gente má que ameaça a filha de um amigo em "Missão Refúgio" ("Shelter"), para delírio dos fãs de adrenalina. A direção é do ex-dublê Ric Roman Waugh.
No dia 19/3, nuestros hermanos argentinos trazem entre nós o longa que ganhou o Prêmio do Júri da Berlinale de 2025: "A Mensageira" ("El Mensaje"), de Iván Fund. Um toque de fantasia sobrenatural assegura encantamento a esse road movie em preto e branco. O Prêmio do Júri que recebeu em telas berlinenses comprovou o vigor de sua realização. Na direção Fund apela para a linguagem visual em P&B para criar uma narrativa de tintas fantásticas sobre uma menina com o dom de falar com animais mortos. O clima de sua vida não é de espanto, apesar do que a premissa sugere, mas, sim, de doçura. Um de seus cuidadores é interpretado pelo gênio Marcelo Subiotto, o Ricardo Darín dos anos 2020.
"A Mensageira" abre telas no mesmo dia em que Hollywood lança seu maior ímã de plateias do mês: "Devoradores de Estrelas" ("Project Hail Mary"), de Phil Lord e Christipher Miller. O nome Ryan Gosling faísca em seus créditos. No enredo, o professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda em uma espaçonave, nos confins do cosmo, sem nenhuma lembrança de quem é ou como chegou ali. À medida que sua memória retorna, ele começa a descobrir sua missão: resolver o enigma de uma substância misteriosa que está fazendo o Sol morrer. Ele precisará recorrer ao seu conhecimento científico e a ideias nada convencionais para salvar tudo na Terra da extinção. A atriz alemã Sandra Hüller (de "Anatomia de uma Queda") integra o elenco.
No dia 26, a chapa esquenta para os cinemas com a chegada do melhor filme que passeou pelo último Festival de San Sebastián, na Espanha, setembro passado: "Nuremberg", de James Vanderbilt. Em seu segundo trabalho de direção, construído nas mesmas bases políticas de seu trabalho anterior ("Conspiração e Poder", de 2015), o prolífico produtor de "Zodíaco" (2007) deu ao público de Donostia seu momento mais "cinemão" de 2025, num espetáculo à moda clássica sobre o julgamento do líder nazista Hermann Göring. A presença de um Russell Crowe afinzaço de brilhar catapulta às alturas o que poderia ser um thriller jurídico corriqueiro, com atuações inflamáveis de Richard E. Grant, Michael Shannon e Rami Malek, o Freddie Mercury de "Bohemian Rhapsody". O roteiro traz um diálogo fascinante após o outro.
Nessa mesma data, o Chile se faz notar com a produção que lhe rendeu o Prix Un Certain Regard no Festival de Cannes: "O Olhar Misterioso do Flamingo" ("La Misteriosa Mirada Del Flamenco"), de Diego Céspedes. O Festival do Rio, em outubro, acolheu Céspedes e o ator Matias Catalán, estrela n.1 dessa produção, que foi um acontecimento na Croisette. Filas gigantes se formaram nas projeções dessa reconstituição histórica da vida chilena do início dos anos 1980, numa área de mineração na qual um cabaré de mulheres trans e travestis enfrenta o boom da Aids sob a fúria da população masculina de trabalhadores.
No pacotão de lançamentos de março, dia 26, o Brasil volta a alardear seu viço cinematográfico com o aguardado thriller cômico "Velhos Bandidos". Dirigido por Claudio Torres ("Redentor"), o longa acompanha o casal Marta e Rodolfo, interpretado por Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, na execução de um ousado assalto a banco ao lado de meliantes mais moços, vividos por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta. Um investigador de faro fino (Lázaro Ramos) estará na cola dos larápios, ampliando a chance de o nosso cinema emplacar seu primeiro fenômeno de arrecadação de 2026. Março promete!