Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Kill Bill: lá vem A Noiva... De novo nas telonas na próxima quinta-feira

KILL BILL, cartaz do filme | Foto: Divulgação

Realizador mais influente no audiovisual contemporâneo desde os anos 1990, Quentin Tarantino aprova 'Kill Bill - The Whole Bloody Affair', versão que une os dois volumes do díptico que espirra sangue e chega aos cinemas nesta quinta-feira (5).

Da pandemia até hoje, Quentin Tarantino não lançou nada inédito em circuito, abandonou o projeto "The Movie Critic" e cometeu indelicadezas a rodo (esculhambou a obra de François Truffaut e falou mal do ator Paul Dano), emplacando sucesso só nas livrarias, ao publicar sua coletânea de ensaios "Especulações Cinematográficas" (Ed. Intrínseca). Mesmo sem decidir qual será seu décimo e último filme (pois quer parar sua filmografia no número dez), ele pôs o seu legado revolucionário em ficção ao autorizar "Kill Bill - The Whole Bloody Affair", a versão reunida, recauchutada e mais sangrenta do díptico que rodou com Uma Thurman no início dos anos 2000.

O que o circuito exibidor brasileiro vai conferir a partir desta quinta é a simbiose dos Volumes 1 (de 2003) e 2 (de 2004), apresentada exatamente como sua dramaturgia foi idealizada, incluindo uma nova sequência de animação nunca antes vista.

Macaque in the trees
O gângster Bill (David Carradine) e sua amada vingadora (Uma Thurman) | Foto: Miramax

Dublada no Brasil por Miriam Ficher, Uma Thurman estrela esse épico de artes marciais como A Noiva, uma criminosa dada como morta após seu ex-chefe e amante, Bill (David Carradine, em papel idealizado por Warren Beatty), emboscar casamento, atirar em sua cabeça e roubar o seu bebê... uma menina. Para se vingar, ela precisa caçar quatro membros da tropa de assassinos de Bill antes de confrontar seu amor de ontem. Cruzam seu caminho os anjos da Morte Elle Driver (Daryl Hannah), O-Ren Ishii (Lucy Liu), Vernita Green (Vivida A. Fox) e Budd (Michael Madsen). Cada figura dessas tem seu quinhão de perigo.

O Volume 1 de "Kill Bill" custou US$ 30 milhões e faturou US$ 180 milhões. O Volume 2 teve um custo similar ao primeiro e arrecadou cerca de US$ 152 milhões. Os dois redefiniram a forma de se rodar sequências de pancadaria na telona e abriram debates calorosos sobre a representação feminina. Um acidente sofrido por Uma nas filmagens, sem que Tarantino se dispusesse a parar de rodar para ajudá-la, pesou negativamente contra a imagem do diretor.

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O jovem Tarantino no set, com Julie Dreyfuss | Foto: Lionsgate

Ele contemporizou suas polêmicas ao ser chamado para ministrar uma aula na Quinzena de Cineastas de Cannes. Ali, teve a chance de expor seus demônios, consagrando-se uma vez mais no evento que deu a Palma de Ouro a seu "Pulp Fiction", em 1994.

Quando concorreu na Croisette com o por vezes esquecido "À Prova de Morte" (2007), um dos segmentos do projeto "Grindhouse" (exibido em dobradinha com "Planeta Terror", de Robert Rodriguez), Tarantino foi visitar a Quinzena. A ideia dele era acompanhar a projeção da cópia restaurada do outrora maldito "Parceiros na Noite" (1980), de William Friedkin. Ria de se acabar na poltrona, ao ver a versão estereotipada que o longa (com fama de maldito) trazia da cartilha dos longas de psicopata.

Foi em Cannes que ele fez sua fama, em 1992, ao sediar uma exibição fora de concurso de seu "Cães de Aluguel". Ele concorreu novamente à Palma dourada com "Bastardos Inglórios", em 2009, comemorando a láurea de Melhor Ator, dada a Christoph Waltz, e voltou ao páreo em 2019, com "Era Uma Vez... em Hollywood". Antes, em 2004, ele exibiu "Kill Bill: Volume II" lá, em meio a seus compromissos como presidente do júri.

Por um soldo de US$ 200 semanais, Tarantino passou o ano de 1985 batendo ponto na Video Archives, uma locadora de Manhattan Beach, Califórnia, onde fez amigos, reais e imaginários, devorando o acervo local, sobretudo o faroeste "Rio Bravo" (aqui "Onde começa o Inferno"), de 1959.

É do velho VHS que vem a depuração de sua cultura cinematográfica, reforçada com o DVD, que chega ao convívio dos cinéfilos num momento em que ele já é um diretor de respeito, com "Jackie Brown" (1997) em seu currículo. Mas o universo das fitas rebobinadas do Video Home System foi essencial para ele. A partir do início da década de 1980 quando a tecnologia informática permitiu o advento dos retângulos analógicos do VHS, toda a memória fílmica produzida no mundo, até aquele momento, encontrou um escoamento (e um veio de preservação) biblioteconômico, que nos permitiu acesso a cópias, por exemplo, de uma comédia de Harold Lloyd (1893-1971) feita em 1919.

O VHS alfabetizou uma nova linhagem de cinéfilos e reeducou o olhar dos mais velhos, criando, em ambos, uma percepção de que a realidade - do Presente e do Passado, sobretudo - é mediatizada, ou seja, existe o passado real, concreto, e existe o passado que o cinema nos ensinou. Nossa ideia da Chicago dos gângsters não é a Chicago dos documentos, calcada em fatos: nossa Chicago é a de Brian De Palma em "Os Intocáveis". Ou seja… verdade dá lugar a simulacros. E simulacros produzem simulações da vida, ou seja, uma meta-vida, onde imagem não é só um corredor que nos leva a experiências sensíveis: imagem é a experiência em si. "Kill Bill - The Whole Bloody Affair, sob essa lógica, é a sagração da primavera de Tarantino. É o lugar onde seu universo de malandros renovou sua potência... num banho de sangue.