Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Atalho para a Itália

Supernatural | Foto: Nanouk

Enquanto Cannes não divulga as atrações de esperada 79ª edição, a Bergamo Film Meeting encampa a tarefa de agitar a indústria dos festivais, com títulos inéditos e esquadra autoral

Terminada a 76ª Berlinale, encerrada no dia 22, com a entrega do Urso de Ouro à produção metade turca, metade alemã "Yellow Letters", os horizontes da indústria dos grandes festivais internacionais passam a vislumbrar Cannes, na Côté d'Azur, como seu próximo Olimpo, a abrir atividades no dia 12 de maio. Antes, entretanto, alguns eventos de relevo tamanho M hão de mobilizar a Europa, Américas e a África, com competições de longas estreantes e a celebração de vozes autorais veteranas.

A Ásia ataca nessa frente só no segundo semestre e o Novíssimo Mundo, via Austrália, entra em cena ali por junho, com eventos em Sydney. A vitrine europeia da vez, agendada de 7 a 15 de março, é a Bergamo Film Meeting, na Itália. Suas diretoras artísticas, Annamaria Materazzini e Fiammetta Girola, amalgamam novidades de diferentes cantos do Velho Continente para agitar o balanço anual das descobertas que brotam da Eslovênia, da Grécia, da França, da Península Ibérica, de terras germânicas. A BFM, como é chamada, é um misto de mostra competitiva e fórum de debates que nasceu em 1983, em solo italiano, para celebrar passado, presente e futuro da produção audiovisual e propor um balanço das tendências culturais do presente. Xamanismo é uma delas, em foco no primeiro dos longas a ser exibido: o espanhol "Supernatural", de Ventura Duralll, sobre um curandeiro que tem um filho médico. Logo na sequência, será projetado um dos títulos da disputa oficial: o belga "L'Étrangère", de Gaya Jiji.

Muitas retrospectivas compõem a safra da BFM e uma das mais esperadas deste ano envolve a projeção do festejado "Franz Antes De Kafka" (concorrente da Concha de Ouro do Festival de San Sebastián de 2025), da polonesa Agnieszka Holland. Pérolas da obra dessa septuagenária artista serão projetadas, como "O Jardim Secreto" (1993) e "O Segredo de Beethoven" (2006), mas a grande expectativa de sua homenagem cerca sua narrativa experimental sobre Kafka (1883-1924), com o bailarino Idan Weiss no papel central. O roteiro acompanha a marca que o autor de "A Metamorfose" deixou no mundo, desde seu nascimento na Praga do século XIX até sua morte na Viena pós-Primeira Guerra Mundial.

"Quando adolescente, eu era mais intelectualizada do que sou hoje e li Kafka quando tinha uns 14, mas eu percebo que ele vem e volta, mostrando-se mais atual do que nunca em meio às trevas que se espalham pelo mundo hoje", afirmou Agnieszka ao Correio da Manhã, em San Sebastián. "Quem tem dor não pensa em política, mas a política pensa naqueles que fazem doer, inevitavelmente".

Macaque in the trees
Silent Friend | Foto: Divulgação

Outros dois realizadores de pátrias distintas que terão suas obras revisitadas na BFM serão a húngara Ildikò Enyedi (na esteira do lançamento de seu novo trabalho, "A Amiga Silenciosa", que ganhou o Prêmio da Crítica no Festival de Veneza) e o holandês Alex van Warmerdam, conhecido no Brasil por "Borgman" (que concorreu à Palma de Ouro de 2013). No campo do resgate de mestres que já se foram, Anna maria e Fiammetta prepararam um "muito obrigado" a um dos maiores campeões de bilheteria da França: Louis Germain de Funès de Galarza (1914-1983). Ele foi comediante de lotar salas de exibição. Apesar de parte considerável da crítica ter menosprezado a sua estética de chanchada, o astro de "As Loucas Aventuras do Rabbi Jacob" (1973) e "O Trouxa" (1965) marcou seu nome na História à força de milhões de ingressos vendidos. Só um de seus trabalhos mais famosos, "A Grande Escapada" (1966), vendeu 17,2 milhões de tíquetes. Filho de imigrantes espanhóis, De Funès formou-se inicialmente em teatro e música: entusiasta do jazz, trabalhou extensivamente como pianista em bares parisienses durante os anos da guerra. Sua educação musical influenciou profundamente seu estilo de fazer rir, que nunca deixou a crítica de costumes de lado.

Ao analisar o que se faz hoje no ambiente autoral do cinema, a BFM armou ainda um programa invejável de animações, com filmes como "Contradiction of Emptiness", de Irina Rubina (Alemanha) e "Les Bottes De La Nuit", de Pierre-Luc Granjon (França). O evento vai até o dia 15 de março.

 

Filmes da competição oficial

Festival de Bergamo logo | Foto: Divulgação

"Maricel", de Elias Demetriou (Chipre/ Grécia)

"Porte Bagage", de Abdelkarim El-Fassi (Holanda)

"Subsuelo", de Fernando Franco (Espanha/ Uruguai)

"Hidden People", de Miha Hocevar (Eslovênia)

"L'Étrangère", de Gaya Jiji (Bélgica)

"Les Braises", de Thomas Kruithof (França)

"The Frog and the Water", de Thomas Stuber (Alemanha)