Ganhador do Prêmio do Júri de Cannes, indicado a dois Oscars, 'Sirât' se consagra como cult, apesar das falas polêmicas do diretor Oliver Laxe, que renova a filmografia espanhola
Embora já não disfrute do afeto nacional em sua plenitude, depois de ironizar em entrevista a forma passional que a população brasileira tem de torcer, o galego Oliver Laxe tem chances de virar o jogo duplamente, em prol da Espanha, na corrida pelo Oscar de 2026 com "Sirât", uma experiência narrativa com fôlego para imortalizar seu nome no imaginário cinéfilo global. Título de abertura da última Mostra de São Paulo, coroado com o Prêmio do Júri em Cannes, o longa estreia neste fim de semana em salas de exibição do Brasil concorrendo à estatueta de Melhor Filme Internacional (contra o nosso "O Agente Secreto") e Melhor Som na festa da Academia de Hollywood, agendada para 15 de março.
Orçada em 6,5 milhões de euros, essa jornada pelo deserto regada a música eletrônica e desespero tem 32 láureas em seu currículo e um faturamento em bilheteria estimado em US$ 10 milhões. Virou cult logo que bateu na tela da Croisette e arrebata fãs por onde é projetado, mesmo quando Laxe fere suscetibilidades. "Como dizia Pasolini: o público se alimenta da liberdade dos outros. Sou livre, pois consigo me conectar à minha essência e sei que o fracasso me faz crescer, o que talvez não signifique um grau pleno de autonomia para os padrões de uma sociedade agrilhoada ao medo, ao ego e à ambição. No Marrocos, onde construí parte do meu cinema, ouve-se muito: 'Viemos de Deus e voltamos a Deus'. Filmo atento a esse princípio. Minha prática artística é espiritual", disse Laxe ao Correio da Manhã no Festival de Marrakech, onde sua produção teve passagem fora de concurso. "A dignidade me norteia, pois espero morrer dignamente em meu ofício".
Desde sua primeira exibição mundial, no dia 15 de maio, nas telas de Cannes, tendo os irmãos Agustín e Pedro Almodóvar entre seus produtores, "Sirât" ganhou status de "filme obrigatório" por apostar num casamento de transcendência (na mais pura metafísica) e invenção formal ao falar de perdas e reconfigurações. É político em sua radiografia da falta de pertencimento entre as populações da Europa que não se rendem a regras históricas do capitalismo. Tratado como um dos favoritos à Palma de Ouro de 2025 desde sua projeção inicial, deixou a Croisette sob a bajulação da crítica e correu por eventos de respeito como o Festival de San Sebastián. Passou por lá feito um trator, com a força que ganhou depois de ter sido escolhido pela Espanha como seu representante oficial na corrida por uma vaga na briga pelo Oscar. É parte de uma leva de títulos espanhóis de profundo impacto, como "Romaria", de Carla Simón; "Minha Amiga Eva", do campeão de bilheteria Cesc Gay; e "Surda", de Eva Libertad, que brilhou na Berlinale.
Ao fim de Cannes, uma enquete organizada pelo jornalista Christian Blauvelt, para a revista "IndieWire", com 48 críticos estrangeiros, elegeu-o como "O" melhor de Cannes, incluindo "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, em quinto lugar em seu pódio. Laxe também foi citado na votação de Melhor Roteiro. Depois de ter interrompido um ciclo de longas filmados em terras marroquinas ("Mimosas"; "Todos Vós Sodes Capitáns") para filmar "O Que Arde" (Prêmio do Júri na mostra Un Certain Regard de 2019) na sua Galícia natal, Laxe retornou aos desertos do norte da África para um périplo que começa numa micareta de música bate-estaca e passa por um chão de minas explosivas, numa triagem de violências históricas. Insiste, contudo, que sua mirada não é de desesperança, mas, sim, de aliança. "Parece que temos um horizonte duro, mas ele, no fundo, é protetor, o que exclui a solidão, sempre estamos acompanhados. O filme mostra que quando o indivíduo se fratura ele se instaura num lugar do coletivo", disse o realizador ao Correio da Manhã em Cannes.
Capaz de ser radical e melífluo ao mesmo tempo, numa realização ousada, "Sirât" é batizado em referência a um percurso de fé: "Esse nome se refere ao caminho que liga o Inferno ao Céu, como se fosse um espaço de transformação", disse Laxe na coletiva de Cannes.
Tudo começa com uma rave no Marrocos, num espaço desértico de rocha e areia. Amalgamada à fotografia de Mauro Herce, a engenharia de som consegue transportar o público para aquela paisagem numa fricção sinestésica. Na trama de "Sirât", um pai (Sergi López) e o filho chegam a uma rave perdida nas montanhas do sul do Marrocos. Eles estão à procura de Mar - filha e irmã - que está desaparecida há vários meses numa dessas festas intermináveis. Imersos na melodia tum-tum-tum e numa liberdade crua que lhes é estranha, distribuem incansavelmente a foto dela à espera que alguém a reconheça. A esperança vai-se esvaindo. Eles perseveram, apesar disso, e seguem um grupo de ravers para uma última festa nas montanhas. À medida que se aprofundam na imensidão escaldante, a jornada leva-os a confrontar limites.
"Aprendi com as culturas árabes que viver é recordar... é relembrar nossa condição divina e, ao mesmo tempo, esquecê-la. Por isso, 'Sirât' fala da perda", explica Laxe. "Ser humano é perder desde o primeiro dia: saúde, tempo, pessoas. Fizemos o filme conectados com essa dor. Não digo isso de forma dramática: é uma necessidade para encontrar equilíbrio".