O cearense Allan Deberton passou a ser tratado como "promessa" depois que seu "Pacarrete" levou um balde de Kikitos para Fortaleza no Festival de Gramado de 2019, atraindo olhares como o do ator Lázaro Ramos, que se interessou em filmar com o cineasta. O interesse se concretizou na forma de "Feito Pipa", uma "Sessão da Tarde" padrão delícia (mas recheada de debates de cunho social e existencial), que leva o realizador a mudar de status. Tratado como "promissor", ele agora virou "certeza". A consagração, em âmbito internacional, veio com a conquista do troféu Urso de Cristal na 76ª Berlinale, no último dia 21. Foi uma vitória histórica para o país, neste ano em que 13 títulos com o Brasil no DNA passaram pela capital alemã.
"Feito Pipa" é um tocante exercício autoral. A busca por aceitação faz de Deberton um diretor autor. O que há para ser aceito fica na conta do personagem de Lázaro, que resgata, enfim, uma plenária europeia à altura da que o aplaudiu em "Madame Satã" (2002), agora num papel coadjuvante, que o astro baiano levanta com majestosidade. Gugu (Yuri Gomes), de 11 anos, é o personagem central, numa trama que dribla a homofobia e o terror do Alzheimer e faz gol na trave da inclusão.
Na trilha para adolescer, Gugu, moleque bom de bola como poucos, cresceu sem mãe, sob a cumplicidade da avó, Dilma (Teca Pereira, num quindim de atuação), que não tá nem aí para o fato de o guri se identificar com a cultura queer. Ama-o seja lá sob que bandeira ele estiver. Já o pai do guri, Batista (vivido por Lazinho), encasqueta com os modos do filho, quando precisa tomar conta dele, ao notar que a guardiã da criança está com sinais de demência.
Deberton cria um "Don Quixote" mirim, ciente de que seu Cavaleiro da Alegre Figura sonha com um Nordeste de tolerâncias. Na entrevista a seguir, ele enfrenta os moinhos de vento do preconceito e celebra a força audiovisual de seu estado.
De que maneira o Urso de Cristal pode pavimentar um novo trilho para a sua obra e para o Ceará nas telas?
Allan Deberton - Receber o Urso de Cristal é um marco imenso para a minha trajetória, mas eu o sinto também como um gesto simbólico para o cinema feito no Ceará. Ele ajuda a abrir escuta para outros projetos, outros realizadores, outras narrativas do Nordeste e do Brasil adentro. Espero que isso fortaleça a percepção de que o cinema brasileiro é realmente muito rico. Quanto mais chances de ele ser descoberto e ser assistido, melhor. Vivemos um momento de festa, mas o trilho já vinha sendo pavimentado por muita gente. No Ceará, há faculdades de cinema, pois tem uma política cultural atuante. Há conexões possíveis e parcerias que fazem a diferença! No nosso caso, por exemplo, somamos força de produção com a Biônica Filmes, após uma provocação linda do Projeto Paradiso. O Brasil precisa se conectar com ele mesmo!
Qual foi o maior aprendizado que Berlim já te trouxe nessa onda de sucesso internacional?
Com "Pacarrete", por exemplo, escutei muita gente do mercado dizer que o filme era "regional demais", apesar de repercutir nos festivais e atrair o público. Não dei muita bola. Escuto por aí que as coisas têm mudado: quanto mais local e verdadeiro um filme é, mais ele pode emocionar. Isso pode parecer uma frase pronta, mas eu vivi isso de forma muito concreta agora. O outro aprendizado é entender que o cinema brasileiro está sendo olhado com muita atenção. Existe curiosidade real sobre as nossas paisagens, nossos afetos, nossas contradições. E isso pede da gente ainda mais rigor, mais coragem e mais confiança na nossa própria linguagem.
De onde você vem no Ceará, onde estabeleceu seu núcleo de produção e que cenário de criação se encontra lá?
Eu nasci em Russas, no interior, onde filmei meu primeiro curta ("Doce de Coco") e também meu primeiro longa ("Pacarrete"). Sou formado em Cinema na Universidade Federal Fluminense, quando ainda não tinha faculdade de cinema no Ceará. Por sorte, hoje, no Ceará, tem diversos cursos de nível superior na área. Tem cursos rápidos ótimos, como o do Porto Iracema e Vila das Artes. Moro em Fortaleza há diversos anos e é onde minha produtora tem sede.
O que o termo queer, usado para definir "Feito Pipa", carrega de mais inclusivo e de mais libertador?
O objetivo era falar menos de rótulo e mais de possibilidade. É sobre permitir que uma criança exista com liberdade, sem ser corrigida o tempo inteiro pelo olhar do mundo. O filme não quer explicar o Gugu, mas acompanhar o jeito natural dele, sua imaginação e sensibilidade. O problema é de quem não o compreende. O que há de mais inclusivo nisso é justamente a recusa em simplificar os estereótipos. É tudo tão complexo.
Como o teu Gugu, o Yuri Gomes, foi descoberto?
O Yuri foi uma descoberta muito bonita. A gente buscava um menino que tivesse verdade, presença e uma força interna muito particular, alguém capaz de carregar delicadeza e intensidade do personagem, ao mesmo tempo. Dentre umas 700 crianças, ele apareceu, vindo de Salvador. O Gugu precisava existir antes de "interpretar". Luciana Vieira (diretora de elenco) e Andréa Pires foram parte fundamental para ajudá-lo com esta tarefa.
Em que pé está "A Adoção", com quem é e quando estreia?
"A Adoção" é meu próximo longa e ainda está sendo rodado. Conta uma história inspirada em sentimentos reais, muitos deles de uma experiência própria com o tema. A previsão é finalizar este ano para estrear em 2027. No elenco: Vinícios de Oliveira, Hermila Guedes, Thainá Duarte, Tânia Maria, Aline Marta Maia, Fátima Macedo e Claudio Jaborandy.