Primeiro longa dirigido pela campeã de bilheteria que foi a Viúva Negra da Marvel, 'A Incrível Eleanor' renova o prestígio da nonagenária June Squibb, em atuação tocante
Ativa nos palcos (sobretudo os da Broadway) desde o início da década de 1950, June Squibb custou a ganhar o respeito do cinema e só em 2013 teve a chance de virar estrela na indústria do audiovisual, após a passagem de "Nebraska", de Alexander Payne, pelo Festival de Cannes. Chegou a ser indicada ao Oscar de Melhor Coadjuvante, em 2014, por seu desempenho, mas quem mais brilhou naquele sucesso foi seu parceiro de cena Bruce Dern. Precisou esperar uma década até ganhar sua primeira protagonista das telonas, em "Thelma", que foi ignorado pelo circuito nacional. Foi necessário a intervenção da Viúva Negra da Marvel, Scarlett Johansson, para June ganhar um novo papel que fizesse jus à grandiosidade de seu talento: "A Incrível Eleanor" ("Eleanor The Great"), que estreia nesta quinta no Brasil, cercado de elogios, em especial à sua atriz principal, hoje com 96 anos.
A mostra Un Certain Regard de Cannes foi a sua primeira vitrine. O filme alcançou uma chance de disputar aos prêmios do evento francês por marcar a estreia de Scarlett como cineasta. "Como a grande atriz que é, Scarlett me deu a chance de fazer um filme desafiador, que fala do desafio que é envelhecer na solidão", explica June ao Correio da Manhã em entrevista mediada pela Golden Globe Foundation, via Zoom.
Sua trama parte de uma experiência de luto. Após a morte de Bessie, sua melhor amiga e colega de quarto por doze anos, Eleanor Morgenstein (papel de June) deixa a Flórida, aos 94 anos, e se muda para Nova York para morar com sua filha Lisa e seu neto Max. Sentindo-se deixada de lado pela família atarefada, ela acaba sendo conduzida ao Centro Comunitário Judaico local, embora sem grande conexão com a Torá. Por um mal-entendido, Eleanor acaba num grupo de apoio para sobreviventes do Holocausto.
Em vez de corrigir o erro e falar a verdade, ela assume a história angustiante de Bessie, que sobreviveu aos campos de concentração de Hitler, como se fosse sua. Passa a compartilhar a dor dos expurgos nazistas numa forma de honrar a memória da amiga, preencher o vazio de sua rotina e encontrar um senso de pertencimento. Sua história inventada chama a atenção de Nina Davis (Erin Kellyman), uma estudante de jornalismo que perdeu a mãe recentemente. As duas formam uma amizade improvável e genuína, e Nina acaba incorporando o "testemunho de sobrevivente" de Eleanor num projeto da faculdade. O pai de Nina, um apresentador de TV famoso (e vivo) interpretado por Chiwetel Ejiofor, começa a desconfiar da aproximação de sua cria com aquela senhora, ao farejar ali uma estratégia para a sublimação da perda que pode ser perigosa.
"Nunca paro de fazer Broadway, mas é importante a experiência de uma narrativa cinemática transformadora", diz June, ao analisar o roteiro escrito por Tory Kamen, filmado por Scarlett. "O tema da mentira transforma aquela narrativa num exercício de drama realista ao contextualizar a amizade pelo prisma do perdão. O dilema que vai redefinir os caminhos das duas mulheres, de gerações diferentes, que se aproximam, é a necessidade de saber perdoar. Desculpar é um gesto que necessita de entendimento para ser praticado. Scarlett trilha esse caminho em seu filme: o exercício de entender o outro, ainda que esse outro seja uma pessoa mais velha".
Aos 41 anos, Scarlett cuidou do lançamento de "A Incrível Eleanor" enquanto cuidava da maratona de divulgação de "Jurassic World: Recomeço", uma das maiores bilheterias de 2025, com US$ 869 milhões de bilheteria. Estima-se que Cannes verá seu novo longa, "Paper Tiger", de James Gray, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira (de "Ainda Estou Aqui"). Ela vai estar ainda na nova versão de "O Exorcista" (1973).