Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Love story empacada por impasses

Os músicos vividos por Josh O'Connor e Paul Mescal em 'A História do Som' padecem de benquerer | Foto: Mubi

Indicado à Palma de Ouro de Cannes, 'A História do Som' renova os votos de nossos cinemas com dramas românticos pautados por interditos, à luz do par Paul Mescal e Josh O'Connor

Vai ter gente se esgoelando em pranto depois de conferir os beijos trocados pelos personagens de Josh O'Connor e Paul Mescal em "A História do Som" ("The History of Sound"), que estreia em circuito comercial nesta quinta-feira (26). Há uma expectativa tamanho GG pelo novo filme do sul-africano Oliver Hermanus, que arrancou uma interpretação devastadora de Bill Nighy em "Viver" (2022). O apelo não se dá só pelo prestígio do diretor.

É uma tradição da cinefilia nacional abraçar as narrativas de amor sofrido - mais até do que as telas do Rio. Entre nós, longas como "Um Homem, Uma Mulher, Uma Noite" (1979); "Em Algum Lugar Do Passado" (1980); e "P.S.: Eu Te Amo" (2008) ficaram meses a fio em cartaz. Espera-se que o doído romance de Hermanus tenha destino similar e amplie o público pagante de nossos exibidores.

Indicado à Palma de Ouro de Cannes, "A História do Som" se filia a uma tradição inglesa da love story empacada por impasses da moral e da História (leia-se "guerras"), numa genealogia que vai de David Lean ("Desencanto") a James Ivory ("Vestígios do Dia"). Ao longo de suas 2h07', acompanhamos os rumos truncados de dois estudiosos de música obcecados por uma canção folclórica, num jogral pelo Tempo que vai de 1920 até 1980. Chris Cooper, ator luminoso, dá uma ajuda e tanto no eixo final, ao dividir um personagem com um Paul Mescal inspirado.

Baseado em conto homônimo de Ben Shattuck, que assina o roteiro, "A História do Som" é o inventário das cicatrizes de uma paixão abatida pelo preconceito e pela incapacidade de aceitação de seus pares. As teclas de um piano são o ímã com que David (Josh O'Connor) magnetiza Lionel (Mescal) ao esbarrar com ele, em 1917, no Conservatório de Música de Boston, ao fim da I Guerra Mundial. A paixão é instantânea, cevada pelo ardor de ambos pela triagem do cancioneiro popular e por um tesão imparável. Um é filho do Velho Mundo. O outro é americano e da zona rural. As origens distintas geram choque. A pobreza, também. Essas contradições levam os dois a um distanciamento (de corpos, nunca de almas) e a narrativa (austera do início ao fim) guia-se por Lionel.

Ele é a linha mais harmónica, de hábitos ordeiros, diferente da verve indómita de David. Vemos o seu caminhar até a velhice, quando Mescal dá lugar a Cooper. Até lá perfuma-se a memória com cheiros de "O Segredo de Brokeback Mountain" (Leão de Ouro de 2005).

 

Mais uma dose de Josh

'Depois do Fogo' ('Rebuilding') se impõe pela destreza do realizador Max Walker-Silverman e do olhar sofrido de Josh O'Connor | Foto: Divulgação

Coprotagonista de "A História do Som", Josh O'Connor anda vivendo uma fase de aceitação das mais ardorosas pelo cinema, tendo brilhado em pepitas de quilates variados, do precioso "Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out" ao entojado "The Mastermind". Até Spielberg rendeu-se a ele e escalouo ator para seu aguardado "Dia D". Nesta quinta, além do longa de Oliver Hermanus, ele mobiliza nossas telonas com "Depois do Fogo" ("Rebuilding"), do realizador Max Walker-Silverman, antes chamado de "Reconstrução".

Passado num cenário rural, no Colorado natal de seu diretor, esse drama ergue suas vigas a partir de O'Connor. De palavreado ralo e raro, mas de múltiplas expressões que espelham um permanente tumulto interno (e até vergonha), o personagem dele, Dusty, é um cowboy que carrega um fardo de perda.

Seu rancho foi destruído por um incêndio devastador e tudo o que os seus parentes construíram e adquiriram foi reduzido a cinzas. Enviado para uma zona de trailers improvisado num acampamento da FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências), esse tímido anti-herói encontra uma nova comunidade para recomeçar e reconstruir a sua vida e sua história, tentando manter ligação com a filha, ainda criança, que vive com à ex-mulher na região.

Uma trilha sonora de rasgar o peito, pautada pela guitarra acústica de Jake Xerxes Fussell e James Elkington, ampara a angústia que esse filme filtra, num exercício comovente de transcendência. (R. F.)