Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Os pênaltis da Berlinale

Saccharine | Foto: Narelle Portanier/Divulgação

Encerrada no domingo, com vitórias para a Turquia e para o Brasil, a maratona cinéfila alemã sai de campo emplacando gols em prol da autoralidade

Daqui até 12 de maio, a rotina cinéfila planetária vai girar em torno do Festival de Cannes, que dá o pontapé para a sua 79ª edição no dia 12 de maio. Estima-se que Christopher Nolan há de lançar seu esperado "A Odisseia" por lá, mas ainda é cedo para saber. O terreno ficou livre para a Croisette atiçar hipóteses e especulações com o encerramento da 76ª Berlinale, no domingo, a reboque da conquista do Urso de Ouro pela produção teuto-tuca "Yellow Letters", do diretor Ilker Çatak. Muitos bons filmes se notabilizaram por lá, incluindo uma Sessão da Tarde à moda cearense chamada "Feito Pipa", de Allan Deberton, que venceu o Urso de Cristal. Na reta final, o evento alemão reforçou sua relevância ao consagrar uma série de achados que entraram em curso em suas últimas sessões. Confira o que brotou da lavoura germânica.

Macaque in the trees
If Pigeons Turned to Gold | Foto: Divulgação

IF PIGEONS TURNED TO GOLD, de Pepa Lubojacki (República Tcheca): Eis o ganhador da láurea de Melhor Documentário da Berlinale. Ao longo de um período de cinco anos, sua diretora documenta a vida de quatro membros de sua família, principalmente seu irmão David, que sofre de dependência em relação ao álcool e vive sem abrigo. Usando uma colagem pessoal, semelhante a um diário, Lubojacki tenta revelar as raízes da infelicidade intergeracional que se manifesta repetidamente em graves problemas de dependência.

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Saccharine | Foto: Narelle Portanier/Divulgação

SACCHARINE, de Natalie Erika James (Austrália): No empenho de impressionar uma colega de academia, uma jovem residente de Medicina (Midori Francis) resolve provar de uma pílula para deter a fome que emagrece pessoas obesas. Ela só não faz ideia de que o comprimido guarda cinzas de gente morte. Ao ingeri-lo, ela passa a ser quizilado pelo fantasma de uma mulher que precisa comer, sem parar, para ter alguma paz. Esse apetite desmedido leva este body horror à fronteira onde o pecado da gula se encontrar com a morte.

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The Day She Returns | Foto: Jeonwansa

THE DAY SHE RETURNS ("Geunyeoga doraon nal"), de Hong Sangsoo (Coreia do Sul): Depois de se casar, a protagonista desta dramédia desiste da carreira de atriz. Então, após se divorciar, volta a atuar e estrela um filme independente. Agora, o filme está prestes a ser lançado e ela está a dar entrevistas para promovê-lo. Tendo chegado à meia-idade, ela expõe seu rosto ao mundo cheia de orgulho. Sangsoo mostra como ela dá três entrevistas em intervalos de 30 minutos e tenta responder a cada pergunta da melhor maneira possível. Na tarde do dia enquadrado pelo realizador, o coach da estrela pede a ela para reencenar as entrevistas que deu anteriormente. Sempre que chega às partes cruciais, por alguma razão, ela não consegue lembrar-se de nada, pois está cansada e quer ir para casa, ao encontro de sua filha. Fatores sentimentais instáveis também pesam em suas escolhas.

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Four Minus Three | Foto: Nikolett Kustos/Alamode Film

FOUR MINUS THREE ("Vier Minus Drei"), de Adrian Goiginger (Áustria): Taí um banho de vitalidade do cinema germânico, com foco na reestruturação de vidas chamuscadas pelo luto, o que foi um dos assuntos mais recorrentes do Festival de Berlim. Em sua doída trama, um casal de palhaços vive uma vida feliz até que um deles morre. Barbara (Valerie Pachner), que fica viva, tem de aprender a lidar com o fantasma da solidão.

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Cosmonauts | Foto: Divulgação

COSMONAUTS, de Leo Cernic (Eslovênia): Uma animação que consegue ser existencialista até quando descamba para um veio mais caliente. Seu cenário é um cruzeiro intergaláctico onde solitários vão tentar a sorte no amor, o que a imensidão das estrelas não facilita nem um pouco. A arrebatadora direção de arte joga com cores terrígenas para compor um mosaico sinestésico sobre quereres que não se completam.

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Al Cook The Loneliest Man | Foto: Vento Film

ALL COOK, THE LONELIEST MAN IN TOWN, de Tizza Covi e Rainer Frimmel (Áustria): É inexplicável como a competição oficial de Berlim deixou de premiar esta mistura de ficção, documentário, estudo sobre gentrificação e canto sobre a importância analgésica da música. Não estranhe se o austríaco de 81 anos Alois Koch, ou melhor Al Cook, começar a tocar nas rádios europeias e a bombar no SpotIfy ao fim do 76º Festival de Berlim, pois esse longa fez dele um astro... um novo Charles Chaplin. Vemos uma espécie de "Luzes da Cidade" pós-moderno, que narra a cruzada pela vida desse Carlitos do Blues. Ela faz da guitarra sua parceira mais fiel, numa rotina de shows que tiveram as plateias escasseadas dos anos 1990 até hoje.

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O Batedor de Carteiras | Foto: Jon Pack/Divulgação

O BATEDOR DE CARTEIRAS ("The Only Living Pickpocket in New York"), de Noah Segan (EUA): John Turturro atua num estado de graça neste thriller. O Barton Fink dos anos 1990 vive um ladrão profissional que "mete" a mochila de um bad boy (Will Price), sem saber que se trata de um mafioso. Entre os pertences que o gatuno "bateu", há um chip que conduz seu portador a segredos (leia-se $) do crime organizado. Dali pra diante, caímos numa mistura do Scorsese de "After Hours" (1985) com os Irmãos Safdie de "Joias Brutas" (2019) que se desenha como um conto moral sobre o quão dura pode ser a vida da malandragem e também como uma carta de amor pra Nova York. Giancarlo Esposito, Steve Buscemi, Karina Arroyave e uma impecável Jamie Lee Curtis integram o elenco deste poema crepuscular.