O cinema brasileiro saiu de mãos vazias da cerimônia do Bafta realizada no domingo (22), em Londres. "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, candidato brasileiro ao prêmio de melhor filme em língua não inglesa, perdeu o troféu para "Valor Sentimental", drama familiar norueguês dirigido por Joachim Trier. O prêmio é considerado o mais importante do cinema britânico e reúne votação de cerca de 8,3 mil membros da Academia Britânica de Cinema e Televisão.
Além de "O Agente Secreto" e do vencedor norueguês, disputavam a categoria "Sirât", da Espanha, "Foi Apenas um Acidente", filme iraniano representando a França, e "A Voz de Hind Rajab", da Tunísia. A derrota na categoria principal encerrou as esperanças brasileiras na noite, já que nenhum outro representante do país conseguiu levar um troféu. Mendonça Filho concorria ainda ao prêmio de melhor roteiro original, mas perdeu para Ryan Coogler pelo trabalho em "Pecadores".
O paulistano Adolpho Veloso, fotógrafo de "Sonhos de Trem" e um dos mais premiados da temporada na categoria, também saiu sem o Bafta, que foi para Michael Bauman pelo trabalho em "Uma Batalha Após a Outra". A documentarista Petra Costa, indicada com "Apocalipse nos Trópicos", perdeu para os tchecos Pavel Talankin e David Borenstein, responsáveis por "Mr. Nobody Against Putin".
A relação do Brasil com o Bafta é marcada por momentos históricos e decepções pontuais. Em 1999, "Central do Brasil", de Walter Salles, levou o prêmio de melhor filme estrangeiro, mas não repetiu o feito no Oscar, perdendo para o italiano "A Vida É Bela". Salles voltaria a vencer a categoria em 2004 com "Diários de Motocicleta". Um ano antes, "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, havia conquistado o Bafta de melhor edição pelo trabalho do montador Daniel Rezende. Outras produções brasileiras que integraram a história da premiação incluem "Abril Despedaçado" (2002) e "Trash — A Esperança Vem do Lixo" (2015). Curiosamente, "Orfeu Negro", produção francesa de Marcel Camus ambientada no Brasil, disputou a categoria em 1961, mas perdeu para "Se Meu Apartamento Falasse", de Billy Wilder.
Na edição deste ano, o prêmio britânico confirmou a força de "Valor Sentimental" numa temporada marcada por grandes disputas internacionais. Historicamente, o Bafta funciona como termômetro para o Oscar, embora as escolhas raramente coincidam — apenas uma fração dos votantes britânicos também integra a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana. Nos últimos dez anos, somente "Oppenheimer" (2024) e "Nomadland" (2021) conquistaram os principais prêmios nas duas cerimônias. No ano passado, "Conclave" venceu o Bafta, enquanto "Anora" levou o Oscar de melhor filme. No campo do cinema internacional, "Emilia Pérez" havia derrotado "Ainda Estou Aqui" no Bafta, enquanto a produção brasileira de Walter Salles acabou fazendo história ao conquistar o primeiro Oscar do Brasil na categoria.