De 12 a 21 de fevereiro, a vida do alemão Jens Koch limitou-se a retratos. Como alguns têm um nível de excelência para estar em qualquer galeria de arte, estima-se que o verbo "limitar", quando aplicado à jornada de trabalho dele na Berlinale, ganha novos sentidos... libertadores e lúdicos. É função dele fotografar cada artista que passa pela competição do evento germânico, além de dar conta do júri, das estrelas de algumas das mostras paralelas daquele maratona cinéfila e das personalidades laureadas com troféus simbólicos, o que foi o caso da oscarizada atriz malaia Michelle Yeoh, premiada com o Urso de Ouro Honorário.
Retratista em tempo integral, Jens não trata seus fotografados como modelos e, sim, como pessoas. "Não sei se este é o melhor momento do mundo para perguntar a alguém se ele gosta de gente, mas, eu gosto... ainda. Acho", diz o artista visual, que visitou o Brasil em abril de 2025.
Ao relembrar as dezenas de fotos que já exibiu nas paredes do Berlinale Palast, ao longo das últimas duas semanas, como uma galeria de atualização constante em meio a um dos maiores festival do mundo, Jens esbanja entusiasmo ao contar os bastidores dos cliques que fez com famosos como Neil Patrick Harris ou Isabelle Huppert.
"Este ano foi especial poder fotografar Sandra Hüller (maior atriz da Alemanha na atualidade). O desafio aqui é sempre oferecer a estrelas como ela uma zona de conforto e um clima de respeito. Aí o retrato acontece", diz o fotógrafo.
Há seis anos, quando a gestão do diretor artístico Dieter Kosslick sobre a Berlinale chegou ao fim, após uma estrada longa (de 2001 a 2019), uma nova curadoria, formada por Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian, instalou-se na maratona cinéfila germânica. Levaram Koch para a equipe, apoiados no prestígio que ele já ostentava ao lidar com obturadores e fotômetros. A ideia era ter alguém que registrasse, dia a dia, as expressões de artistas em briga por prêmios, de realizadores e protagonistas das produções hors-concours e de estrelas homenageadas. A partir dessa demanda, ele foi desfilando talento a partir de 2020, extraindo poses lendárias de Karim Aïnouz, Amanda Seyfried, Pamela Anderson, Bill Pullman e outras figuras adoradas por cinéfilos. Cada enquadramento dele era (e é) mais inventivo do que outro. Não por acaso, logo que a linha curatorial de Berlim mudou, com a chegada de uma nova programadora, Tricia Tuttle, ele ficou. Daí vieram retratos exuberantes como o plácido 3x4 de Wim Wenders, o presidente do júri do Urso de Ouro desta edição, ou da ganhadora de Oscar Chloé Zhao.
"A variedade de pessoas é grande e há uma intenção de que o retrato se encaixe com a persona retratada ou com o filme que ela representa, mas esse trabalho é uma loteria, pois nem sempre sei o estado de espírito em que a estrela a ser fotografada vai chegar para a sessão de retratos", contou Koch ao Correio fa Manhã. "Cada foto é um desafio nesse aspecto, pois o meu maior desejo é que a pessoa se sinta bem. Alguns chegam excitados, pois têm uma conferência de imprensa para dar a seguir. Estes eu tenho que acalmar, na conversa, na escuta. Já quem tem ligação com Hollywood chega menos tenso, pois está mais acostumado com o processo midiático de fotos. As divas já sabem o que não querem".
Em seu histórico de trabalho, consta uma história de fazer inveja às narrativas que brigam pelo Urso de Ouro: em 2010, Koch e um colega jornalista, Marcus Hellwig, passaram quatro meses presos no Irã, sob ameaça de uma pena maior, por terem entrado naquele país com o visto de turista e não o de repórter, para fazerem uma entrevista que não desceu bem na garganta das autoridades iranianas. O calvário foi longo, mas eles acabaram sendo soltos.
Hoje Koch usa a palavra "pesadelo" para definir o que passou, sem entrar em detalhes. Prefere falar das estrelas da Berlinale.
"É bom quando um astro não se leva a sério", diz Jens. "O meu maior ganho estético com esse trabalho é manter vivo o interesse pela arte do retrato".