Poucas vezes o Festival de Berlim flertou tão corajosamente com a cultura pop quanto em sua edição de 2017, quando sua programação foi encerrada à força de “Logan”, produção indicada ao Oscar de Melhor roteiro original, com foco numa reinterpretação crepuscular de Wolverine. O filme, hoje alocado na Disney + e acessível em diferentes plataformas na Alemanha, ganha um novo vulto neste momento em que a Panini Comics anuncia um novo compilado da saga do mutante encarnado na telona por Hugh Jackman. “Marvel Essenciais: O Retorno de Wolverine” combina o talento dos artistas gráficos Charles Soule e Steve McNiven numa trama que explora uma fase outonal do herói, diferente do filme supracitado, mas complementar a ele. Aliás, a compilação das HQs que inspiraram o longa dirigido por James Mangold não sai da lista das HQs mais vendidos online dos EUA, de acordo com o site oficial da Marvel, que editou esse material em 2010. Em meio ao Festival de Berlim, lojas de quadrinhos tipo Modern Graphics ampliaram seu estoque de revisitinhas e almanaques marvetes, de olho no público estrangeiro de passagem pela capital alemã. O álbum "Preto, Branco e Vermelho", com o carcaju Logan em três cores, é outra iguaria quadrinística em destaque nas livrarias em solo germânico.
No filme de Mangold, hoje em streaming, há um tempero à la “Stranger Things” na fuga de Logan (Jackman, dublado aqui por Isaaac Bardavid) para proteger a menina Laura Kinney (Dafne Keen) da tropa dos Carniceiros chefiados por Donald Pierce (Boyd Holbrook, da série “Narcos”). Neste filmaço sem cena após os créditos, reina a metalinguagem, usada por Mangold ao mostrar gibis na tela várias vezes, como um registro mítico de um herói que se esforçou para não deixar laços atrás de si. Mas estes laços, na trama, foram criados à força de seus feitos.
Enquanto os rumos hollywoodianos do personagem não são definidos, é possível acompanhar as aventuras do supergrupo de mutantes que acolheu Wolverine nas bancas brasileiros em álbuns da Panini como “A Saga dos X-Men”, já à venda.
O Festival de Berlim de 2026 encerra suas atividades neste domingo. Uma das atrações de tom nerd de sua premiação é “Sleep No More” (“Monster Pabrik Rambut”), do cineasta conhecido apenas como Edwin, da Indonésia. O diretor de “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash” (Leopardo de Ouro de 2021, no Festival de Locarno) oferece arrepios enquanto discute a opressão laboral neste estudo sobre rendimento fabril e sobre os efeitos nefastos da mais-valia — no sentido marxista — na vida de quem sua por um salário mensal. O suor mistura-se com sangue e com uma entidade espectral. Edwin corta carnes e quebra ossos sob um pavimento melodramático estruturado na relação entre as irmãs Putri (Rachel Amanda) e Ida (Lutesha), exploradas numa fábrica de manequins onde procuram sustento. A chefia impõe turnos excessivos, privilegiando a produtividade em detrimento do descanso. Putri acredita que a mãe, também operária, se suicidou por causa dessa exploração. Ida sustenta que a progenitora foi possuída por uma entidade que surge quando o corpo enfraquece pela exaustão.