Por: Rodrigo Fonseca

'O Batedor de Carteiras': obra-prima na Berlinale

Nova York ganha tons crepusculares no thriller "O Batedor de Carteiras", com John Turturro | Foto: Jon Pack

Não há tempo a perder em “O Batedor de Carteiras” (“The Only Living Pickpocket in New York”), ao longo de 88 mesmerizantes minutos, em parte pelo fato de Nova York ser uma cidade irrefreável. Num piscar de olhos, tudo pode ser posto a perder na vida do ladrão de casaca Harry, um papel que faz John Tuturro flutuar na excelência. No entanto, fazer pequenas coisas... como tomar um Toddyinho numa barraquinha de esquina ou visitar a filha há muito sonegada... ciente de cada coisa dessas tem seu tamanho... é algo que lhe sai do radar. Como a cidade está impregnada nele, em seus bairros de PIBs distintos, em suas lojinhas de penhor, em sua malha metroviária, fazer-se invisível e passar a perna nos outros são habilidades que NY amplificou nele. Mas... ser malandro não é moleza. A conta que ele há de pagar por ter sido uma ave de rapina ao longo de 40 anos está para chegar. Todo o carnaval... dizem... tem seu fim e o dele, em Berlim, chega na forma de uma obra-prima.


O maior presente desta Berlinale à cinefilia passou fora de concurso, mas já deixa saudades. “O Batedor de Carteiras” nasceu sob a direção iluminada do ator Noah Segan (do primeiro “Entre Facas e Segredos”. Sob a batuta rígida dele, numa marola de tensão, o Barton Fink dos anos 1990 vive um mão-leve que “mete” a mochila de um bad boy (Will Price), sem saber que o rapaz é um mafioso sangue-ruim. Entre os pertences que o gatuno “bateu”, há um chip que conduz seu portador a segredos (leia-se $) do crime organizado. Dali pra diante, caímos numa mistura do Martin Scorsese de “Depois de Horas” (1985) com os Irmãos Safdie de “Joias Brutas” (2019), e ela se desenha qual um conto moral sobre o quão dura pode ser a lida da malandragem. É, também, uma carta de amor pra Nova York, fotografada na luz outonal de Sam Levy.


Giancarlo Esposito, Steve Buscemi, Karina Arroyave e uma impecável Jamie Lee Curtis integram o elenco desse poema crepuscular sobre coisas que têm prazo de validade e coisas que ficam... para sempre. Taí um filme policial que há de ficar. 

A Berlinale segue até o próximo dia 22.