Por: Affonso Nunes

O cinema de combate de Sarah Maldoror

Sarah Maldoror dedicou sua filmografia às lutas anticolonilistas no continente africano | Foto: BJ Nikolaisen/Divulgação

Mostra no CCBB Rio resgata obra da cineasta francesa que documentou as lutas anticoloniais africanas e deu voz às mulheres revolucionárias

O público carioca terá a oportunidade inédita de conhecer em profundidade a filmografia de Sarah Maldoror (1929-2020), uma das mais importantes cineastas do cinema anticolonial do século 20. A mostra que leva seu nome e sua principal bandeira estética abre no CCBB Rio nesta quinta-feira (19), com a exibição da versão restaurada de "Sambizanga" (1972), obra-prima sobre a resistência angolana contra o regime colonial português. A sessão, marcada para as 17h30, contará com a presença de Henda Ducados, filha caçula da diretora e ensaísta do jornal feminista Another Gaze, além da pesquisadora e professora Janaína Oliveira.

Nascida na França e profundamente ligada aos movimentos de libertação africanos, Sarah Maldoror construiu uma carreira singular ao colocar sua câmera a serviço das lutas pela independência de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Mais do que registrar eventos políticos, a cineasta desenvolveu uma poética própria que equilibrava rigor ideológico com refinamento estético, transformando histórias de combate em narrativas profundamente humanas. Ao longo de sua trajetória, realizou mais de quarenta filmes entre ficções e documentários, curtas e longas-metragens, sempre com atenção especial ao protagonismo feminino nos processos revolucionários.

"Sambizanga", que abre a mostra, é exemplar dessa abordagem. Premiado no Festival de Berlim e preservado pela Cineteca di Bologna e pela World Cinema Foundation sob incentivo de Martin Scorsese, o longa acompanha Domingos, militante de um movimento de libertação angolano que é preso injustamente pela polícia secreta portuguesa. Torturado até a morte sem trair seus companheiros, ele deixa sua esposa Maria em uma busca desesperada por prisões de Luanda, sem saber que o marido já está morto. O filme transforma essa narrativa pessoal em retrato amplo da violência colonial e da resistência popular, consolidando Maldoror como referência para gerações de realizadores ao redor do mundo.

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'Sambizanga' (1972) retrata a resistência angolana contra a polícia secreta portuguesa na luta pela independência da colônia. | Foto: Suzanne Lipinska/Divulgação

A programação do CCBB Rio reúne 24 títulos, sendo 14 da própria Maldoror e outros 10 de cineastas com quem dialogou direta ou indiretamente. Entre estes estão "A Batalha de Argel" (1966), de Gillo Pontecorvo, no qual trabalhou como assistente, e obras de Chris Marker como "Sem Sol" (1983) e o episódio sete da série "A Herança da Coruja" (1989), que contêm imagens filmadas por ela. A seleção percorre desde seus curtas documentais sobre carnaval em Cabo Verde e Guiné-Bissau até retratos de intelectuais negros fundamentais como Aimé Césaire, Léon Damas e René Depestre, figuras centrais do movimento da Negritude.

A curadoria de Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon propõe ainda conexões entre o cinema de Maldoror e realizadoras negras latino-americanas. A cineasta baiana Safira Moreira participa da mostra com "Cais" (2025), seu primeiro longa-metragem, e dirige no dia 1º de março uma leitura dramática de "As Garotinhas e a Morte", roteiro jamais filmado de Maldoror. A programação inclui também curtas da cubana Sara Gómez, "Ôrí" (1989) de Raquel Gerber sobre o movimento negro brasileiro, e "Alma no Olho" (1973) de Zózimo Bulbul, estabelecendo um mapa de afinidades estéticas e políticas entre África, Caribe e América Latina.

Para Lúcia Monteiro, o encontro entre a obra de Maldoror e o público brasileiro tem potencial revelador. "Acreditamos muito no encontro dos filmes da Sarah Maldoror com o público do Rio de Janeiro. Há diversos paralelos entre as realidades africanas e afro-diaspóricas que ela filmou, na África, nas Antilhas e na Europa, e no Brasil", afirma a curadora. Essa aposta no diálogo encontra reforço no curso "Arquivos do Cinema de Mulheres", ministrado por Anita Leandro e Ana Paula Alves Ribeiro, com inscrições por ordem de chegada.

Sarah Maldoror deixou mais de quarenta realizações concluídas e outros tantos projetos inacabados, um arquivo que só agora começa a circular de forma mais ampla no circuito brasileiro. A mostra no CCBB Rio configura-se como a ocupação mais profunda de sua obra no país, oferecendo ao público a chance de compreender por que esta cineasta se tornou referência obrigatória para quem pensa cinema político sem abrir mão da sofisticação formal, e como suas preocupações com colonialismo, racismo e papel das mulheres seguem assustadoramente atuais.


SERVIÇO

O Cinema Anticolonial de Sarah Maldoror
CCBB Rio de Janeiro (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)
19/2 a 16/3

Ingressos gratuitos, com rRetirada na bilheteria ou pelo site bb.com.br/cultura

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

19/2 - 17h30 | Sessão de abertura | Sambizanga (comentada por Henda Ducados)
20/2 - 16h:  Monangambé + Alma no olho, (com participação de Henda Ducados) | 18h | Debate: Racismo e representação, com Henda Ducados (mediação de Janaína Oliveira)
21/2 - 16h30: Prefácio a fuzis para Banta | 18h - Sessão Carnaval: Fogo, uma ilha em chamas + Carnaval no Sahel + Em Bissau, o carnaval
22/2 - 15h30/:  A batalha de Argel | 18h: Uma sobremesa para Constance
23/2 - 18h: Sessão Poesia em Movimento: Louis Aragon, uma máscara em Paris + René Depestre, poeta Haitiano + Léon G. Damas 
25/2 - 16h30: Aimé Césaire, un homme une terre | 18h: E os cães se calavam + Aimé Césaire, a máscara das palavras
26/2 - 16h30: O hospital de Leningrado | 18h: Sem Sol
27/2 -  17h30: Ori
28/2 - 16h: Curtas de Sara Gómez + debate | 18h30: Sarah Assistente: Elles + O legado da coruja - Episódio 7
1/3 - 15h: Cais, sessão seguida de debate com Safira Moreira | 17h30: Leitura de roteiro inédito de Sarah Maldoror
2/3 - 17h30: Sambizanga
4/3 - 16h: Sessão Carnaval: Fogo, uma Ilha em chamas + Carnaval no Sahel + Em Bissau, o carnaval | 18h: Uma sobremesa para Constance
5/3 - 16h: Sessão: Retratos de mulheres | 18h: Sessão: Poesia em movimento
6/3 - 16h30: Aimé Césaire, un homme une terre | 18h: E os cães se calavam + Aimé Césaire, a máscara das palavras
7/3 - 16h30: O hospital de Leningrado | 18h: Curtas de Sara Gómez
8/3 - 16h: Cais | 17h30: Sambizanga
9/3 - 16h30: Prefácio a Fuzis para Banta (sessão comentada)
11/3 - 16h: Uma sobremesa para Constance | 17h30: Ori
12/3 - 16h30: Monangambé + Alma no olho | 18h: Sessão: Retratos de mulheres
13/3 - 16h30: Sarah assistente: Elles + O legado da coruja - Episódio 7 | 17h30: Sem Sol
14/3 - 17h: Cais, sessão seguida de debate com Safira Moreira
15/3 - 15h: A batalha de Argel (sessão comentada) | 18h: Curso Arquivos do cinema de mulheres (primeira parte)
16/3 - 17h30: Prefácio a Fuzis para Banta | 18h: Curso Arquivos do cinema de mulheres (segunda parte e encerramento)