Catapultado mundialmente para a fama via Berlinale, nos anos 1980, o cinema chinês leva seu tentáculo mais recente, a animação, para o evento germânico com 'Light Pillar'
Quando o balanço da saúde financeira do cinema mundial em 2025 foi fechado, a China saiu na dianteira... econômica e histórica... ao se tornar a primeira nação não anglo-saxônica a cravar um filme na marca do bilhão (de dólares, em faturamento), ou melhor, de US$ 2,2 milhões: a animação "Nezha: O Renascimento da Alma". Cercada de misticismo e ancestralidade asiática, a trama animada por Jiao Zi, já lançada no Brasil é a continuação de um filme de 2019. No enredo, as almas de Nezha e Aobing se salvaram de uma catástrofe, mas seus corpos estão condenados a serem despedaçados, a menos que se apropriem de um objeto sagrado, a lótus de sete cores. Diante desse fenômeno, não é de se estranhar que o cinema chinês adentre a Berlinale de 2026, um ano depois de sua consagração mercadológica, animando a grande do evento. "Light Pillar", representante daquela nação na mostra Perspectives (uma competição paralela à do concurso pelo Urso de Ouro), anima uma ideia possível de futuro. Seu diretor, Xu Zao, é um artista plástico que vem da pintura.
"Eu gosto de Jacques Tati, da fase mais irônica de Takeshi Kitano e de Aki Kaurismäki, ou seja, o humor é uma linha que aprecio, assim como sou um entusiasta do que pintores/as fazem. O quadrinho e a animação em geral não são o meu habitat. Porém, como tenho experiência na direção de arte, tentei expressar minhas ideias animando, com alguma ou outra referência aos desenhos do Japão e da ficção científica francesa. A janela da sci-fi é uma forma de eu abrir uma fresta nova para observar o mundo a partir da minha sociedade", diz Xu Zao.
"Light Pillar" se passa no inverno. É um inverno futurista, no qual as viagens espaciais já não são um sonho. Em seu enredo, um estúdio cinematográfico outrora próspero enfrenta a falência. O enorme complexo de filmagem, com estruturas que vão desde a Grande Esfinge de Gizé até à Cidade Proibida, está agora completamente coberto de neve e despojado da sua antiga glória. Zha, um zelador solitário, cuida deste lugar esquecido, tendo apenas como companhia um gato que costumava atuar em filmes. Sem dinheiro, o proprietário do estúdio dá a ele óculos de realidade virtual como compensação parcial. Com esse objeto, Zha é imediatamente atraído para o mundo virtual e embarca numa viagem romântica com uma jogadora que o convida para uma viagem à lua. Enquanto isso, o estúdio, que está prestes a fechar definitivamente, é temporariamente trazido de volta à vida quando uma equipe chega para gravar um longa de invasão alienígena no amplo set externo.
"Os filmes de espaço, em geral, tratam de heróis, mas eu falo de pessoas comuns", diz Xu Zao, que saberá neste sábado se o júri da Perspectives gostou de sua forma de animar.
Dede 1988, quando a Berlinale outorgou um Urso de Ouro a "Sorgo Vermelho", de Zhang Yimou, a China sempre saiu de lá coroada de láureas. Zao Tem força para vencer.