Num clima de parabéns, mas também de muito obrigado pelo que Ethan Hawke fez pela Berlinale ao longo dos últimos 30 anos, o festival alemão vai celebrar a indicação do ator americano ao Oscar com uma projeção não esperada do filme que pode lhe premiar em Hollywood: “Blue Moon: Música e Solidão”. A sessão será nesta terça-feira, às 18h15, no Delphi Lux Theatre, num gesto de gratidão. Foi Berlim que revelou essa pérola, na competição do ano passado. No Brasil, ela não teve espaço em telona, indo parar na Amazon, na sua Prime Video.
Nesta segunda, a Berlinale aplaudiu Hawke no faroeste “The Weight”, sobre um presidiário em busca de ouro perdido, na América dos anos 1930. Faz pouco, ele brilhou por lá, e pela Europa afora, em “O Telefone Preto 2”, que faturou US$ 131 milhões. É uma receita de peso para um astro que frequenta as narrativas indie, sobretudo as de seu amigo e parceiro Richard Linklater, com o mesmo empenho que se lança em thrillers B e candidatos a blockbuster.
“Richard Linklater e eu envelhecemos sem ter que provar nada, pois somos os mesmos artistas lá dos anos 1990, só que mais velhos”, disse Hawke ao Correio da Manhã, num papo mediado pela Golden Globe Foundation.
Transportado para o Velho Oeste nos sets de “Estranha Forma de Vida”, um western LGBTQIA+ de Pedro Almodóvar, atualmente na grade da MUBI, o artista soma cem produções em seu currículo como ator, desde sua estreia, em 1985, no longa “Viagem ao Mundo dos Sonhos”. Foram “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989) e, em seguida, “Caninos Branco” (1991) que demonstraram seu vigor cênico. Mais adiante, a parceria com Linklater, na trilogia “Antes do Amanhecer” (Melhor Direção na Berlinale de 1995), atestou a aversão dele pelo rótulo de galã e seu interesse por ousadia, em múltiplas vias. Fez teatro dos bons desde então, vide sua participação em “The Coast of Utopia”, de Tom Stoppard, na Broadway, em 2006.
"O teatro está sempre comigo", afirma Ethan, que disse “Sim!” pra Marvel e encarnou a Maldade na minissérie “Cavaleiro da Lua”, enfrentando Oscar Isaac, em episódios que hoje estão na grade do Disney +.
Dirigiu dez títulos entre curtas, clipes, documentários e o ótimo longa “Blaze”, premiado em Sundance 2018. Nesse meio tempo, indicado a quatro Oscars, como coadjuvante e roteirista, estrelou títulos de grifes autorais como Alfonso Cuarón (“Grandes Esperanças”), Rebecca Miller (“Maggie Tem Um Plano”), Hirokazku Koreeda (“A Verdade”) e Abel Ferrara (“Zeros e Uns”). Antoine Fuqua (de “O Dia Treinamento”). Linklater sempre têm um papel pra ele. Em fevereiro passado, dos dois arrebataram Berlim com “Blue Moon”. Não bastasse isso, Ethan escreveu livro (“Código de um Cavaleiro”) e HQ (“Indeh – Uma História das Guerras Apache”).
Nessa miscelânea de projetos, Hawke canalizou toda sua força cênica em “Blue Moon”. Numa nova sinergia, Linklater e o astro revisitam a saga do letrista Lorenz Hart (1895-1943), que enfrenta corajosamente o futuro à medida que sua vida (profissional e privada) desanda em goladas contínuas em destilados de alto teor alcoólico. Tudo se passa no bar Sardi’s, durante a festa de abertura do novo espetáculo (o fenômeno “Oklahoma!”) de seu ex-parceiro Richard Rodgers (1902-1979), interpretado por Andrew Scott (de “Ripley”), que foi premiado na Berlinale por sua atuação nesta caudalosa produção. Na noite de 31 de março de 1943, narrada no roteiro, Lorenz (Hawke, notável) vai escancarar todos os seus demônios.
“É um resgate do tempo em que a Broadway era o centro dos EUA”, diz Hawke.
A Berlinale chega ao fim no dia 22 de fevereiro.