Temos, enfim, o “filme delicinha” da Berlinale 2026 e ele tem coração e produtor brasileiros: a mistura de “Frances Ha” com “Medianeras” (mas de um jeitão paulistano) chamado “Isabel”. A gente olha para sua protagonista, a VJ-atriz-diretora Marina Person, em velocidade de Coelho Ricochete em cena, e pensa em Diane Keaton. Pensa naquela Diane dos tempos de “Presente de Grego” (1987) na “Tela Quente”, já cansada das guerras que sua Annie Hall encarava virando noites. A Diane que “baixa” em Person é uma craque em vinhos, interessada sobretudo nas vinícolas nacionais, que sonha em ser referência no assunto e... mais adiante... almeja abrir um bar para chamar de seu. É uma comédia (um tanto) rascante, com momentos de fofura, que acabou indo para a mostra Panorama da maratona berlinense não só por explorar (bem) uma geografia de Essepê menos cosmopolita e por atracar no píer das narrativas de “heroísmo do rendimento” - mas com uma heroína etílica, vez por outra borracha.
O termo entre aspas acima se refere a uma corrente histórica dramatúrgica que nasce no século XIX (em especial com o livro “Germinal”, de Émile Zola) e dá conta de jornadas onde a acumulação de divisas na luta pela sobrevivência pavimenta as andanças das personagens centrais. Vetores históricos a aproximaram do marxismo, o que faz dela um prato cheio para artesões políticos do quilate de Ken Loach, Mike Leigh e Costa-Gavras. Encaixe a Anna Muylaert de “Que Horas Ela Volta?” (2015) nessa ciranda. Sua gira não é sempre a de Gabe Klinger, o diretor de “Isabel”. Contido, em sua atual produção, as angústias sentimentais da figura vivida por La Person contam bem menos do que sua cruzada laboral entre uvas e rolhas. E há um perfume de luta de classes na batalha de sua Isabel contra o patrão, o chef Tommaso (Marat Descartes, sempre titânico).
Paulista com passagens estudantis e profissionais pelo exterior, Klinger tem no currículo uma joiazinha chamada “Porto – Uma História de Amor” (2016), na qual prenunciou uma centelha autoral ao contrastar a (tão anunciada... e temida) liquidez afetiva do Presente com um debate sobre o que é perene. O porre (saboroso) que “Isabel” dá na gente passa por essa mesma verve. No fundo, a Isabel vivida por Person está de saco cheio do que é passageiro, das alianças que são fugazes, das promessas que não se concretizam, das garrafas de Prosecco que não resistem a quedas, de patrões cujos projetos culinários mudaram.
Flora Dias, à frente da direção de fotografia, empresta a Klinger um colorido dionisíaco para compor bem com os eflúvios bacantes que borbulham pelo espírito cronista do roteiro, escrito pelo diretor com Person. Tem uma SP com cara de Irajá, mais suburbana, de casinhas coloridas em que uma vizinhança chatonilda reclama da instalação de botecos. Nesse espaço, Isabel zanza entre o chamego do DJ francês Fred (Gregory Chastang) e a amizade pétrea do futuro sommelier Nico (Caio Horowicz, um achado inestimável que Marina fez ao dirigir “Califórnia”, há onze anos). Nesse caminho entra um investidor americano chegado num Velho Barreiro (papel de John Ortiz); a entidade materna meio tensa, encarnada por Clarisse Abujamra; uma crise familiar que leva Fred à França; e os boletos do mês. No meio disso tudo, tem uma Person cirurgicamente precisa, a brincar de Diane Keaton com uma seriedade que nos contagia.
O que brota disso, numa produção sob os auspícios de Rodrigo Teixeira (de “Ainda Estou Aqui”) é aquele tipo filme leve, pro sábado à noite no Estação ou no Kinoplex, pra ver de mão dada e beber um Reserva (comendo o gorgonzola do supermercado Mundial) na volta pro lar. um filme 'pinga ni mim' sem moralismo Minion algum. É ainda um filme para se pensar nas escolhas, nas ambições, nos ensejos... e entender o que vai e o que fica. Nico, na composição leal de Horowicz, é fundamental para essa discussão... ou seja... para entender o que é permanente e o que é fugidio.
Outro efeito colateral (do bom) que “Isabel” causa é uma nostalgia do tempo em que Marat Descartes (um dos maiores atores do país) emplacava um (bom) filme atrás do outro. Que volte a ser assim.
A 76ª Berlinale entra em sua reta final ainda sem um favoritismo anunciado, embora os longas de DNA turco “Yellow Letters”, de Ilker Catak, e “Salvation”, de Emin Alper, apresentam força acima da média, assim como a atuação da alemã Sandra Hüller em “Rose”. Karim Aïnouz fez bonito no certame com a sátira sexy “Rosebush Pruning”, que conta com a fotografia cálida de Hélène Louvart e uma atuação marota de Tracy Letts. A premiação será anunciada neste sábado, sendo que ainda há um restolho de programação no domingo.