Por: Rodrigo Fonseca

Saideira para 'Despedida em Las Vegas' em Berlim

Baseado no calvário real de um escritor, "Despedida em Las Vegas" lucrou cerca de 12 vezes o seu custo de produção, estimado em US$ 4 milhões | Foto: © Initial Films

Prestes a estrela a série “Spider-Noir”, agendada para 27 de maio na Prime Video, e previsto para lotar salas de projeção, ao lado de Christian Bale, em “Madden”, de David O. Russell, o ator Nicolas Cage tem recebido boas notícias da 76ª Berlinale. A primeira delas é a que o projeto “Gambino”, que marca sua nova parceria com John Woo (seu diretor em “A Outra Face” e em “Códigos de Guerra”) vai sair do papel. Já a segunda veio coroada por uma sessão das mais comoventes de “Despedida Em Las Vegas” (1995), em solo alemão. Há 30 anos, essa produção pilotada por Mike Figgis deu a Cage o Oscar e fez dele um dos astros de maior prestígio da Hollywood das décadas de 1990 e 2000. Três décadas depois de sua vitória na cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, esse drama etílico voltará a correr telas. Figgis esteve na projeção em solo germânico desse exercício autoralíssimo que, orçado em cerca de US$ 4 milhões, faturou cerca de US$ 50 milhões.


No roteiro, o argumentista Ben Sanderson é um alcoólatra incurável. A sua mulher deixou-o, os seus amigos evitam-no e o seu chefe despede-o com uma indemnização. Ben deixa Hollywood para trás. Ele planeia beber até morrer – em Las Vegas, onde os bares nunca fecham. Nas ruas iluminadas por néons, ele conhece a prostituta Sera (Elisabeth Sue). Ela também é uma alma solitária; seu cafetão abusa dela e humilha-a. Ben deixa o seu hotel decadente e vai morar com ela. Eles fazem um acordo: ela não o impedirá de beber e ele nunca criticará a sua profissão. As coisas correm bem por um tempo. Então, Sera começa a se apaixonar por Ben. Isso significa responsabilidades... coisa que a cachaça não suporta.

Berlim tomou um sacode com esta crónica de um suicídio planejado. “Leaving Las Vegas” (seu título original), intensamente impassível e sem sentimentalismo, é baseado na autobiografia de John O’Bien (1960-1994). A trilha sonora jazzística de Figgis, no canto melodioso de Sting, suavizam sua dureza. O negativo da câmera Super 16 serviu de base para a restauração em 4K.

Cage brilhou faz pouco no thriller “The Surfer”, que esteve no Brasil na Mostra de São Paulo de 2024. Nessa produção lançada no festival de Cannes, há dois anos, nada cria mais angústia do que uma sequência de brutalidade envolvendo um copo de café, quando seu protagonista tenta dar um golinho na bebida quente após uma excursão por um inferno cercado de ondas. Sob a direção tensa de Lorcan Finnegan, esse suspense matou as saudades da Croisette daquele Cage cheio de som e de fúria que tomou o cinema de assalto na década de 1990, em longas como “Coração Selvagem” (Palma de Ouro de 1990).
Paralelamente a “The Surfer”, Cage renovou sua popularidade ao estrelar “Longlegs – Vínculo Mortal”, que se transformou no maior êxito recente de sua carreira, com quase US$ 110 milhões em sua arrecadação.

Comparado a “O Silêncio dos Inocentes” (1991), essa produção de Osgood Perkins, hoje na Amazon Prime, escala o ator de 62 anos no papel de um serial killer assombroso, apelidado por si mesmo de Longlegs, que é caçado pela agente do FBI Lee Harker (vivida por Maika Monroe). O desempenho de Cage arrancou elogios em uníssono da crítica internacional. O regresso dele aos holofotes do circuitão americano e à cena dos festivais (com “The Surfer”) fez com que um cult recente da carreira do ator, considerado por parte da crítica seu melhor trabalho nos anos 2010, fosse redescoberto pelas plataformas de streaming: “Mandy – Sede de Vingança” (2018).

Afogado em dívidas por conta de um acordo de separação que lhe custou milhões de dólares, Cage vinha no piloto automático há anos, somando um filme ruim atrás do outro, até “Mandy” aparecer. Embora seja B (de bruto) até o osso, com litros de sangue a espirrar pelas telas, o thriller sobrenatural de Panos Cosmatos foi ovacionado por público e crítica no 71. Festival de Cannes, onde foi exibido na mostra Quinzena de Cineastas. Espera-se que Cannes escale “Madden” para competir.


A Berlinale segue até o dia 22 de fevereiro.