Roteirista prolífica, respeitada como cineasta a partir do êxito de “Assim Que Abro Meus Olhos” no Festival de Roterdã, em 2016, Leyla Bouzid se impõe entre as vozes autorais no páreo pelo Urso de Ouro de 2026 com uma saga sobre preconceito e aceitação na sociedade de onde vem: a Tunísia. Seu país de berço entra na competição oficial da Berlinale com uma produção de base francesa sobre homofobia e intolerância: “À Voix Basse”. A atuação sempre inspirada de um colosso feminino chamado Hiam Abbass amplia as chances de premiação desse filme de quietude, dor e mistério. Na trama, Lilia (Eya Bouteraa) regressa à Tunísia para o funeral do seu tio e reencontra-se com uma família que nada sabe sobre a sua vida em Paris, especialmente sobre a mulher que ela ama, numa relação lésbica harmônica. Determinada a confrontar os segredos de seus parentes, enquanto familiares se reúnem e velhos amigos reaparecem para recordar o passado, Lilia lembra-se da razão pela qual deixou sua pátria. Decide desvendar o mistério da “partida” repentina do seu tio.
Em entrevista com o Correio da Manhã na capital alemã, Leyla Bouzid faz uma radiografia com raio-X antropológico de sua ancestralidade.
De que maneira “À Voix Basse” se articula com o cinema feito hoje na Tunísia e de que modo ele se instaura na genealogia autoral do audiovisual daquele país?
Leyla Bouzid: Esse filme não teve dinheiro tunisiano ou de nenhum outro país árabe, o que faz dele, em medida, uma produção francesa de baixo orçamento, estimada em dois milhões de euros. Não saberia avaliar meu lugar na árvore genealógica do cinema da Tunísia, mas eu vejo que, hoje, temos muitos filmes e um é distinto do outro. Quando eu comecei no cinema, era raro ver a Tunísia em eventos como a Berlinale. Aliás, era raro ver cinema árabe. Hoje, não se faz um festival internacional sem filmes árabes. Alcançamos um nível alto.
Que pesquisa sustenta a dramaturgia de “À Voix Basse” em relação à violência de gênero?
Leyla Bouzid: Eu sei que parte da população LGBTQIAPN+ precisa deixar a Tunísia pelo fato de as relações homossexuais serem proibidas... ainda. Mas eu não me calcei em pesquisa de tom sociológico sobre tal êxodo, pois eu me concentrei nas pessoas que ficaram.
De que maneira honra e mentira se articulam, em choque, no enredo do seu filme?
Leyla Bouzid: Temos uma personagem que mentiu sobre si por amor. Temos ainda aquilo que não foi contado... parte por tabu, parte por trauma... mas todo mundo sabe. O eixo do longa é mostrar como a verdade poder ser contada pouco a pouco para evitar que a História se repita, como tragédia.
De que maneira você personaliza o espaço da casa onde a família do filme, hoje alquebrada, reúne-se? Aquele terreno poderia ser entendido como um coprotagonista de que forma?
Leyla Bouzid: A casa é a personagem principal, estruturada cinematograficamente por meio do uso do chiaroscuro na direção de fotografia, com luz do lado de fora e sombras no interior. É um signo do obscurantismo histórico.
De que forma um país como a França permite que uma história dessa seja filmada?
Leyla Bouzid: A França é um país com uma estrutura de financiamento de filmes muito bem organizada que dá importância ao cinema de arte que eu faço.
Há um projeto novo em vista?
Leyla Bouzid: Há uma adaptação literária a caminho, sobre a qual ainda não há como falar.