Uma das atrizes de maior prestígio do teatro e do cinema brasileiro no século XXI, famosa pela trajetória nacional da peça “Vaga Carne”, a também dramaturga Grace Passô se consolida num novo front, o da realização, ao se encher de elogios, no posto de cineasta auspiciosa, por seu trabalho no filme de maior impacto da mostra paralela Perspectives, da Berlinale, em sua edição de número 76: “Nosso Segredo”. Não há boca em solo alemão que não elogie o drama de trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) esculpido entre luto, lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal) a partir de reescrita de “Amores Surdos”, um texto teatral de autoria da própria Grace. A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura um aspecto crepuscular a uma história que mistura finitude, recomeço e perenidade
Uma família negra tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.
“O ‘para sempre’ para mim são memórias, são afetos comungados, são nossos ancestrais... os mestres que prepararam o meu mundo para o que virá. A ideia de ‘para sempre’ tem a ver com afeto. A morte é a vida... é ‘O’ assunto da vida”, diz a atriz, laureada com dois troféus Redentor de Melhor Atriz no Festival do Rio, por “Praça Paris” (2017) e “O Dia Que Te Conheci” (2023).
Produzido pelo cineasta Ricardo Alves Jr. em coprodução com Rachel Daisy Ellis, Julia Alves e Globo Filmes, “Nosso Segredo” teve uma sessão de estreia abarrotada na Berlinale, com uma leva de espectadores a comentar, na subida dos críticos, a sofisticada engenharia de som de Gustavo Fioravante. O longa foi filmado em Belo Horizonte e o elenco conta com Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert, Juan Queiroz e participações especiais de Mateus Aleluia, Tássia Reis, Gláucia Vandeveld e Nanego Lira. Na trama, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do realismo.
“A minha herança tem a ver o legado negro, ciente de que a História do Brasil é uma história de muitos fins... e de muitos recomeços”, disse Grace ao Correio da Manhã. “As vidas negras no nosso país são a maior prova de que o afeto e a admiração entre os integrantes de uma família é o que faz as pessoas resistirem e seguirem em frente”.
Na competição principal, “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, mantém seu séquito de fãs, sem se impor como unanimidade, apoiado na força visual da fotografia de Hélène Louvart e no dinamismo do realizador cearense para conduzir uma sátira à família burguesa maculada pelo incesto e pela traição. Neste domingo, um imponente concorrente de solo turco se fez admirar no evento: “Salvation”, de Emin Alper, sobre uma disputa territorial que envolve clãs que se hostilizam desde a Idade Média. É um estudo delicado sobre ranços fundamentalistas e sobre superstições na administração de um povoado camponês.
A Berlinale segue até o dia 22 de fevereiro, sendo que a premiação será anunciada neste sábado.