Apesar de se classificar como um diálogo (no tempo) com “De Punhos Cerrados” (1965), cult de Marco Bellocchio, o filme que pode dar ao cearense Karim Aïnouz o Urso de Ouro da 76ª edição do Festival de Berlim, chamado “Rosebush Pruning”, conversa mais (e melhor) com um outro italiano, Pier Paolo Pasolini (1922-1975) e seu “Teorema” (1968). Esse marco dos anos 1960 periga ser uma das mais corajosas imersões no lodaçal que a “sagrada” família burguesa virou na sociedade capitalista. Nele, o errado é o certo e o certo, o errado, a um ponto que tal dicotomia vira uma salada mista. Sem explicitar uma fúria similar à de Pasolini (nem à de Bellocchio) ao discutir a acumulação de capital, numa opulenta vila sob o sol da Catalunha, o diretor de “Madame Satã” (2002) abre com um pé na porta um labirinto promíscuo de incesto e de traição, a fim de tirar um 3x4 de valores que só funcionam para alimentar discursos fascistas. O empenho em destroçar a hipocrisia da alta classe média – e, além dela, a hipocrisia de uma instituição que fez do amor um dever – leva Aïnouz a confeccionar um espetáculo cálido, sexy como era o seu “Motel Destino” (indicado à Palma de Ouro de 2024), sem medo de tomar curvas inesperadas e levar a plateia a soluções dramatúrgicas das mais inusitadas – e selvagens (neste caso, literalmente, a julgar pela aparição de lobos).
Tem um exército estelar em cena: Callum Turner, Riley Keough, (um estupendo) Jamie Bell, Lukas Gage, Elena Anaya, uma Elle Fanning em estado de graça, Pamela Anderson com ares de diva e o dramaturgo do momento nos EUA, Tracy Letts. Sua produtora de casting, Nina Gold, fez um trabalho impecável nesse puzzle de talentos. A estrela maior, contudo, é Hélène Louvart, francesa que virou o braço direito e o olho esquerdo de Karim, ao assumir, de “A Vida Invisível (Prix Un Certain Regard de Cannes, em 2019) até hoje, o posto de diretora de fotografia habitual do artesão autoral do Ceará. A luz dionisíaca de Hélène vitamina o trinômio que da elegância a uma crônica satírica (mas triste) na Espanha: a direção de arte/ design de produção de Rodrigo Martirena; os figurinos de Bina Daigeler (sobretudo os trajes de Pamela) e a maquiagem de Barbara Kreuzer.
Na instância espanhola onde “Rosebush Pruning” mantém a roseira de seu título estrangeiro, a americana Anna (Riley Keough) e seus irmãos Jack (Bell), Ed (Callum) e Robert (Lukas Gage) se entregam ao isolamento e ao tédio proporcionado pela fortuna que têm, driblando os mandos e os desmandos do pai cego (Letts), sob o luto da perda da mãe (Pamela). Quando Jack, o único não parasita desse clã, anuncia que vai morar com a namorada, a musicista Martha (Elle), os laços de sangue são rompidos e Ed, que vem de um flerte com um homem mais velho, começa a descobrir a verdade sobre aquele lar. As mentiras geracionais começam a se desvendar e uma nova forma de predatismo se ensaia.
Aferrado a seu objeto mais precioso (o desejo), Karim se articula com vigor numa dinâmica de desenraizamento e pertença, produzindo um estudo delicado de personagem, que tenta compreender os resquícios de uma América apodrecida por trás de cada vértice desse poliedro moral. Tem elementos do thriller em “Rosebush Pruning”, como tinham “Má Educação” (2004), de Pedro Almodóvar, e “Um Mergulho No Passado” (2015), de Luca Guadagnino. Aliás, ambos compõem a genealogia onde hoje se instaura o cineasta brasileiro que já dirigiu ficção “pra fora” antes, ao filmar “O Jogo da Rainha” (“Firebrand”), em 2023.
Aliás, essa pepita à inglesa, com cara de “Game of Thrones”, é o primeiro tomo de uma trilogia de Karim sobre a toxidade masculina e seu declínio. Dela fazem parte “Motel Destino”, com Fábio Assunção em estado de graça, e “Rosebush Pruning”, em especial pelo personagem de Letts.
Há muitas coisas premiáveis nesse Karim pancadão que o júri da Berlinale, presidido por Wim Wenders, pode levar em consideração, a começar pela destreza da direção. Do que já se viu até agora, “Dao”, do franco-senegalês Alain Gomis, é o que existe de mais próximo de um Urso de Ouro berlinense, em seu estudo sobre a diáspora africana numa narrativa indefinível e (até certo ponto Indecifrável) entre documentário, ficção e gira de santo. O evento segue até o dia 22 de fevereiro, mas a premiação sai no próximo sábado, dia 21.