Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Hong Sangsoo à casa torna

O diretor sul-coreano Hong Sangsoo | Foto: Berlinale.de

Artesão autoral famoso por um cinema intimista e palavroso, feito com baixo orçamento, o diretor sul-coreano volta ao Festival de Berlim com uma trama centrada num jogo de cena

Desde 2020, não houve uma só Berlinale sem o sul-coreano Hong Sangsoo na programação, a colecionar prêmios de peso no evento, como a láurea de Melhor Direção entregue a ele pelas mãos do pernambucano Kleber Mendonça Filho (então jurado na Alemanha), há seis anos, por sua destreza na condução de "A Mulher Que Fugiu". A curadoria do Festival de Berlim mudou nesse tempo, passando de Carlo Chatrian para Tricia Tuttle, mas o prolífico artesão autoral da Ásia segue no radar. É o que comprova a sessão de seu trabalho inédito, "The Day She Returns" (no original, "Geunyeoga doraon nal"), na mostra Panorama, nesta Quarta-feira de Cinzas.

"Eu filmo situações do dia a dia que são simples, o que me leva a rodar com rapidez. Não preciso de efeitos especiais. Eu mesmo opero a câmera. Só preciso de alguém para captar o som para nós. Com isso, meu orçamento é pequeno. A montagem fica por minha conta também. Nem saberia precisar quanto a gente gasta por filme, mas é pouco", disse Sangsoo ao Correio da Manhã no lançamento de "O Que A Natureza Te Conta", na Berlinale de 2025.

Seu novo trabalho fala de angústias. Depois de se casar, a protagonista de "The Day She Returns" desiste da carreira de atriz. Então, após se divorciar, volta a atuar e estrela um filme independente. Agora, o filme está prestes a ser lançado e ela está a dar entrevistas para promovê-lo. Tendo chegado à meia-idade, ela expõe seu rosto ao mundo cheia de orgulho. Sangsoo mostra como ela dá três entrevistas em intervalos de 30 minutos e tenta responder a cada pergunta da melhor maneira possível. Na tarde do dia enquadrado pelo realizador, o coach da estrela pede a ela para reencenar as entrevistas que deu anteriormente. Sempre que chega às partes cruciais, por alguma razão, ela não consegue lembrar-se de nada, pois está cansada e quer ir para casa, ao encontro de sua filha. Fatores sentimentais instáveis também pesam em suas escolhas.

"Eu não penso muito em acaso, penso em instantes e no que eles podem nos revelar", disse Sangsoo ao Correio.

Nada desse incansável fazedor de longas-metragens é unânime. Ele é amado e esnobado em igual medida. Surpreende, contudo, a habilidade que Sangsoo tem de criar. Sua empresa, Jeonwonsa Film Co. Production, consegue dar conta de sua estética enxuta e de sua urgência, mantendo uma média de dois longas lançados por ano. Toda Berlinale estreia um.

 

No plim-plim de Cabul

Em The Day She Returns, uma atriz precisa encenar entrevistas que deu no passado | Foto: Jeonwansa/Divulgação

Passados quase sete dias desde que a Berlinale 76 abriu suas portas (e telas), seu longa de abertura, "No Good Men", continua a reverberar, em parte por sua imersão em aspectos pouco conhecidos da sociedade afegã e em parte pela ironia de sua realizadora... e estrela: Shahrbanoo Sadat. Revelada ao planisfério cinéfilo pela Quinzena de Cannes, em 2016, a diretora de "Wolf and Sheep" (2016) alcança o pico de sua notoriedade no papel de uma operadora de câmera de Cabul, avessa ao sexismo. A sequência em que um líder talibã se recusa a continuar numa entrevista registrada por ela, ao notar que a telejornalista está sem burca, com os cabelos à mostra, é um dos pontos em que a trama flagra o sexismo.

"Essa personagem, em parte, sou eu, uma mulher afegã. Tenho uma língua ferina como a dela", disse Shahrbanoo à Berlinale, antes de conversar com o Correio da Manhã sobre a crônica prospectiva que faz sobre a natureza transformadora da televisão. "Não tentei fazer um 'filme de agenda', de pautas. Eu só observo o mundo e falo de uma realidade que conheço". Sua trama se passa em 2021, quando a protagonista, Naru (a própria cineasta), luta pela custódia do filho, de apenas três anos, Liam, que é fã de leões, sobretudo o "The Lion King" da Disney. Depois de deixar o marido infiel, ela se convenceu de que não existem homens bons no seu país. É pega de surpresa, em suas atuais convicções, quando o jornalista mais importante da Kabul TV, Qodrat (o ótimo Anwar Hashimi), oferece a ela uma oportunidade profissional de peso. À medida que os dois percorrem a cidade, a reportar os derradeiros dias de liberdade de uma região ferida, demarcada pelos Talibãs, Naru começa a questionar suas descrenças. "O patriarcado torna as mulheres fortes", diz a cineasta.