Por: Rodrigo Fonseca

Um ano sem Cacá Diegues

O artesão autoral de Alagoas em cena do documentário "Para Vigo Me Voy!" | Foto: Divulgação

Recheado de produções nacionais nas mais variadas latitudes (são 13, sem contar dois filmes estrangeiros dirigidos por vozes autorais brasileiras na briga pelo Urso de Ouro), a Berlinale dá seguimento à sua 76ª edição num momento em que nosso país lamenta um ano da passagem de Carlos Diegues (1940-2025), o Cacá. Sua morte foi anunciada no segundo dia do Festival de Berlim do ano passado. Prometido para estrear até o Natal, apontado para outubro passado em algumas fontes e para o último dezembro noutras, o último longa-metragem dele, “Deus Ainda É Brasileiro”, segue inédito. Também não estreou ainda o documentário em sua honra, “Para Vigo Me Voy!”, apresentado na seção Classics do Festival de Cannes, em maio, e exibido em Gramado, em agosto. O gesto de reverência mais próximo que Cacá vai receber será uma homenagem da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) em sua mostra Melhores do Ano, na Caixa Cultural. O tributo, que se estende também ao documentarista Silvio Tendler (1950-2025), será no dia 21. “Utopia e Barbárie” (2009), de Tendler, passa às 14h30, e “Chuvas de Verão” (1977), do artesão autoral das Alagoas, passa às 17h. Ao fim da projeção, Célio Silva e Ricardo Cota debatem a obra dos homenageados.


Há vários recortes do legado de Cacá em “Para Vigo Me Voy!”, do documentário de Karen Harley e Lírio Ferreira, incluindo uma entrevista inflamável realizada no lançamento de “Quilombo”, na França, em meados dos anos 1980. Há imagens dos sucessos que fizeram dele um artesão das narrativas cinematográficas, imortalizado com sua inclusão na Academia Brasileira de Letras (ABL), justificada por sua devoção à escrita, em crônicas.

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Cacá Deiegues nos sets de "Deus Ainda É Brasileiro", em Alagoas | Foto: Gabriel Moreira


Na lógica de Cacá, o ponto focal de um filme sempre é vetorizado pela vivência e pela urgência do seu povo. O “Deus Ainda É Brasileiro”, que rodou em Alagoas, em 2022, traduz na edição o “perspectivismo de ação” sobre o qual o realizador escreveu muitas vezes na sua coluna no jornal O Globo. Ou seja, o personagem central parece, para alguns, ser o Altíssimo (vivido pelo ator Antonio Fagundes), e, para outros, as mulheres que lhe ensinam o que é resiliência na Terra. Cabe à plateia se agarrar à SUA verdade. Por isso, num reflexo desse instinto (ou saber) do Senhor, o delicado documentário “Para Vigo Me Voy!” abrace muitos Cacás e nos deixe livre para acompanhar aquele que escolhermos.

Em meio à Retomada, “Deus É Brasileiro” vendeu 1,6 milhão de ingressos em 2003 e voltou a incluir Cacá entre os fazedores de blockbuster deste país, posto que ocupou em 1976, quando “Xica da Silva” levou 3.183.582 pagantes às salas de exibição, e em 1980, quando “Bye Bye Brasil” vendeu 1.488.812 entradas, amparado numa indicação à Palma de Ouro de Cannes. Berlim exibiu seu “Dias Melhores Verão”, em 1990, e há de lamentar sua partida até seu desfecho, no dia 22 de fevereiro.


Em sua abertura, nesta quinta, o que o evento alemão viu de melhor foi o longa de abertura, o afegão “No Good Men”, que debate o sexismo dos talibãs. A competição pelo Urso de Ouro, com 22 concorrentes, começa na sexta, à moda turca, com “Yellow Letters”, de Ilker Çatak.