Por: Rodrigo Fonseca

Gus Van Sant em radicalismo máximo na MUBI

"Paranoid Park" ganhou a láurea especial dos 60 anos de Cannes com seu retrato de tons existencialistas sobre o vazio da juventude americana | Foto: © Evan E. Richards

Esperava-se que Gus Van Sant pudesse concorrer ao Oscar com “63 Horas de Pânico” (“Dead Man’s Wire”), que brilhou em Veneza e abriu o 22° Festival de Marrakech. Essa sorte, o artesão autoral por trás de “Elefante” (Palma de Ouro de 2003) não teve. Apesar disso, conseguiu mandar o longa-metragem para Roterdã, que abraçou esse thriller em sessões na semana que passou. Gus saiu com prestígio de lá e segue debruçado sobre outros projetos, num momento em que a plataforma digital MUBI resgata um título considerado o mais radical de sua obra: “Paranoid Park”, lançado há 19 anos.


Ao completar 60 anos de existência, em 2007, o Festival de Cannes resolveu instaurar uma láurea nova, o Prêmio da Sexagésima Edição, para demarcar a efeméride e para marcar, no imaginário da cinefilia um filme que melhor representasse a inquietação que existia no audiovisual no início do século, escolhendo prum posto tão nobre uma experiência narrativa desafiadora pra todo e qualquer padrão de sua fonte – o cinema americano – e de seu diretor, Gus Van Sant. O eleito pelo júri presidido pelo cineasta britânico Stephen Frears foi “Paranoid Park”. Naquele ano, a Palma de Ouro foi confiada à Romênia (pela primeira vez na história do evento) e entregue ao realizador Cristian Mungiu, por “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”.

Para Gus, que andava no apogeu de sua fase mais inquieta, aberta com “Elefante” (2003) e confirmada com “Last Days” (2005), a história de um adolescente skatista que pode – embora não tenha certeza disso – ter matado um vigia, por acidente, repensou várias bases morais dos EUA da primeira metade da década de 2000. Sua carreira comercial foi diminuta, apesar de seu vigor narrativo, e o próprio realizador entrou num precipício criativo nos anos seguintes. Mas, agora, no próximo dia 17, o filmaço que recontextualizou o vazio existencial de uma geração que viria ser chamada de millenial, ganha uma sobrevida, ao entrar para a grade da MUBI, uma plataforma de curadoria humanizada na cena digital dos streamings.

“Esta é uma história sobre pugarção e o que a gente aprende em uma experiência de dor”, disse Van Sant ao “Correio da Manhã” à época da passagem pela Croisette, em concurso.

Macaque in the trees
Gus Green Van Sant Jr. embarcou numa fase experimental entre 2002 e 2008, que lhe valeu a Palma de Ouro por "Elefante", em 2003 | Foto: Berlinale.de

Fotografado pelo australiano radicado na China Christopher Doyle (parceiro de Wong Kar-Wai em vários cults), “Paranoid Park” é um exemplar do chamado Cinema de Terceiro Campo. O verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feitas pelo professor José Carvalho, considerado o mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio e em São Paulo na Oficina Roteiraria. Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes, Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que filmes têm diferentes propostas estéticas na relação política com o Real. O Primeiro Campos quer apenas seguir uma jornada. O Segundo se atém a abrir um debate social ou comportamental ou psicanalítico. O Terceiro quer esgarçar as fronteiras da forma, discutindo uma ideia de identidade performática de seus personagens. Seus protagonistas não são, eles estão.

“Interagir com o mundo é a parte essencial da construção de um plano. Quando estou preparando um filme, preciso conhecer bem as locações porque é necessário respeitar a ética da Natureza”, disse Doyle ao Correio. “Não importa se eu filmo no Vietnã, no Brasil ou na Argentina, eu preciso conhecer o local com a compreensão de que a luz é um carinho, a luz é sensualidade, a luz é o poder. E a luz vem do espaço. No caso de Gus Van Sant, esse espaço é a juventude, é a experiência da liberdade adolescente”.

Este drama metafisico, à época de seu lançamento, confirmou uma guinada filosófica na rota do cineasta, rompendo com o passado mais folhetinesco em que se encontrava quando fez “O Gênio Indomável” (1997) e “Encontrando Forrester” (2000). Trata-se de um exercício radical de linguagem, que levou adiante até “Inquietos” (2012).

“Quando eu fiz meu primeiro longa, ‘Mala noche’, em 1986, gastei tudo o que ganhei dirigindo publicidade e tirando fotografias para bancar o meu sonho de filmar com liberdade. Era uma história de amor gay, em P&B, feita por um anônimo. Deu certo: virei cineasta, fiz carreira, mas nunca criei ilusões em relação ao afeto popular. Há filmes que agradam, outros, não. Mas o que importa é poder dar o seu recado a partir deles, com o máximo de empenho e verdade”, disse Van Sant, ao fazer um balanço de sua filmografia, em busca do propósito humanista que o guia. “Fiquei muito tempo olhando para a juventude. ‘Elefante’ nasceu do meu interesse pela adolescência. Agora é hora de falar das angústias dos adultos”.

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Lançado em Veneza, em setembro, e projetado em festivais em Marrakech e Roterdã, "63 Horas de Pânico" segue inédito em circuito brasileiro | Foto: © Stefania Rosini SMPSP

Ainda inédito no Brasil, seu “63 Horas de Pânico” se baseia em fatos reais ocorridos em 1977, em Indiana, nos EUA. O caso: um homem chamado Anthony George Kiritsis (interpretado por sueco Bill Skarsgård) entrou na corretora de valores com a qual tinha um imbróglio relativo a uma hipoteca milionária e fez um dos proprietários da empresa, Richard Hall (vivido por Dacre Montgomery), de refém. Ele manteve uma espingarda de cano cerrado apontada ao pescoço do rapaz, prendendo a arma ao pescoço da vítima com um arame. Por culpa daquele fio metálico, a polícia não teve como reagir, pois o mínimo movimento em falso estouraria a cabeça de Hall. A situação pirou a imprensa no fim da década de 1970, que documentou o caso ostensivamente – com toques de sensacionalismo. O radialista vivido por Colman Domingo é uma das testemunhas do caos.