Por: Rodrigo Fonseca

Vida Pós ‘Anora’ para Sean Baker

'Sandiwara' será exibido pela Berlinale no dia 13 de fevereiro | Foto: @SelfPortrait

 Um ano depois de se consagrar em Hollywood com quatro Oscars, diretor lança um curta no Festival de Berlim, ‘Sandiwara’, estrelado por Michelle Yeoh, a homenageada do evento


Agendada para sexta-feira, às 11h45 (no horário da Alemanha), no ZooPalast, a projeção do curta-metragem “Sandiwara” na 76ª Berlinale está prevista para ser a sessão mais concorrida da maratona cinéfila germânica em seus primeiros dias, por unir dois ganhadores de Oscar que simbolizam (de um lado) independência criativa e (do outro) longevidade na indústria. Sean Baker, realizador americano coroado com quatro estatuetas da Academia de Hollywood, em 2025, por “Anora”, dirige a atriz malaia Michelle Yeoh, oscarizada em 2023 por “Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo”, nesse experimento de onze minutos. Sua estreia em telas alemãs se justifica pelo fato de Michelle ter sido escolhida para receber o Urso de Ouro Honorário deste ano, em reconhecimento a suas quatro décadas de carreira. Ver o Baker inédito instiga todo e qualquer cinéfilo, mesmo que seja uma narrativa de duração mignon.

Em “Sandiwara”, Michelle emplaca o que promete ser uma atuação transformadora em meio à vibrante paisagem urbana de Penang, na Malásia. Sua trama celebra a herança culinária da Ásia e festeja o espírito indômito do cinema indie, do qual o diretor é um estandarte vivo.

“O cinema que eu faço trata de pessoas marginalizadas, que estão nas franjas da sociedade, vetadas da busca pelo chamado ‘sonho americano’. A esperança delas gera idealismo”, disse Baker em entrevista ao Correio da Manhã, em meio à vitória de “Anora”, que foi incluído na mostra Os Melhores Filmes do Ano da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), em cartaz na Caixa Cultural.

Este ano, a Berlinale terá como presidente do júri o diretor alemão Wim Wenders. Em 2025, a entrega do Urso de Ouro foi deliberada por um coletivo encabeçado pelo americano Todd Haynes, cineasta aclamado por longas de baixo orçamento (“Velvet Goldmine”, “Carol”), e ele rasgou elogios a Berline, numa resposta ao Correio da Manhã:

“Sean Baker começou a fazer seus filmes rodando com celular, numa prova de que nós, do cinema independente, abrimos novas avenidas para expressarmos nossa voz”, disse Haynes.

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O cineasta americano Sean Baker | Foto: @Priscilla Mars


Atestado audiovisual da saúde criativa de uma seara autônoma aos grandes estúdios, “Anora” lançou sua candidatura ao Oscar assim que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2024, em maio, coroando a autoralidade de seu realizador, Baker. A produção de US$ 6 milhões faturou cerca de dez vezes o que custou. O selo de qualidade autoral que Baker carrega há uma década, desde o sucesso de “Tangerina” (2015), vem não apenas de sua estética nevrálgica, de planos-sequência trepidantes, mas de sua recorrente imersão no dia a dia dos profissionais do sexo. Abordou a prostituição em “Projeto Flórida” (uma sensação da Quinzena de Cineastas de Cannes em 2017). Falou de um astro pornô em busca de emprego em “Red Rocket” (2021). Agora, seu novo longa, indicado ao Oscar em seis categorias (inclusive a de Melhor Filme), faz de uma stripper de 23 anos, Anora Mikheeva (ou Ani para os íntimos... e clientes), sua personagem central. A atuação de Mikey Madison torna Ani uma figura tridimensional nos afetos, nas carências e na coragem de peitar machos escrotos.

“Durante a imersão que fiz no contexto social de trabalho a que Ani pertence, não ouvia relatos extraordinários sobre lascívia ou violência, mas sim desabafos de gente que tinha de correr para casa para estender a roupa no varal. É o tipo de depoimento que humaniza, que gera identificação”, disse Baker ao Correio.

Este ano, o cearense Karim Aïnouz concorre em Berlim com uma produção estrangeira: Rosebush Pruning”. Ele teve um time estelar em seu elenco: Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning. Espécie de releitura do cult “De Punhos Cerrados” (1965), de Marco Bellocchio, o novo Karim acompanha os conflitos de uma família que luta contra doenças genéticas no coração de uma propriedade rural.

Beth de Araújo, americana de São Francisco, filha de um brasileiro (de quem herdou nacionalidade), vai brigar por troféus com o diretor de “Madame Satã” (2002) com “Josephine”, no qual uma menina de oito anos (Mason Reeves) fica mexida internamente após testemunhar um crime no Golden Gate Park. Channing Tatum é o astro de maior prestígio em cena no longa, que há dez dias, venceu o Festival de Sundance.

Entre os 13 títulos da competição paralela Perspectivas, dedicada a estreantes, e também divulgada na terça, o Brasil cavou espaço para si à força da atriz e dramaturga mineira Grace Passô (da peça “Vaga Carne”), que dirige “Nosso Segredo”, narrando os conflitos de uma família às voltas com a perda do patriarca. A estrela das Gerais fez o cult “Temporada” (2018).
Além de “Nosso Segredo” e dos longas de Beth e de Karim, nove outras produções brasileiras, dos mais diferentes cantos do país, já estão confirmadas para a 76ª Berlinale, sem contar os anúncios desta terça-feira. Na seção Generation, entraram “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “Quatro Meninas”, de Karen Suzane; “Feito Pipa”, de Alan Deberton; e a animação “Papaya”, de Priscilla Kellen. No Fórum Expanded, Denilson Baniwa e Felipe M. Bragança levam “Floresta do Fim do Mundo” a telas germânicas. No Fórum, tem “I Built a Rocket Imagining Your Arrival”, de Janaína Marques. Já no Panorama, comparecerão “Se Eu Fosse Vivo... Vivia”, de André Novais Oliveira; “Isabel”, de Gabe Klinger; e a coprodução paraguaia “Narcisco”, de Marcelo Martinessi. O longa de abertura da Berlinale será “No Good Men”, da realizadora afegã Shahrbanoo Sadat, centrado nos conflitos de uma operadora de câmera de Cabul.