Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Charlotte Glynn: 'Deixo a emoção se expressar pelo plano, na imagem'

cineasta Charlotte Glynn | Foto: Kory Mello/Bio Pix


Único filme dos Estados Unidos na competição principal de Roterdã, a Tiger, onde a produção americana raramente entra para concorrer, "The Gymnast", de Charlotte Glynn, trouxe um colorido invernal, mas afetuoso, a um painel multinacional de miradas sobre exclusão, lutas políticas e resiliências sentimentais. Estreante em longas-metragens de ficção, com curtas de prestígio como "Jewish Girls Are Easy" (2014) no currículo, sua diretora rodou, há cerca de 16 anos, um documentário de tom personalíssimo, "Rachel Is", que já demarca sua visão intimista. Sua produção mais recente, que a leva ao prestigiado festival holandês, tem uma paulistana, a montadora Lia Kulakauskas, assinando a edição.

Em "The Gymnast", ambientado no início dos anos 1990, a jovem atleta Monica (Britney Wheeler) tem a ambição de disputar os Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta. É lá que ela quer estar, a representar os EUA na ginástica. Mas um acidente repentino torna improvável, na melhor das hipóteses, o seu futuro como atleta de elite. Seu mundo desaba, juntamente com o de seu pai, que fez tudo para apoiar a carreira de sua filha. Os dois têm de se reinventar.

O páreo de Charlotte em Roterdã é pesado, a julgar pela inventividade de seu concorrente brasileiro, a sci-fi "Yellow Cake", de Tiago Melo. Concorrem ainda com ela "La belle année", de Angelica Ruffier (Suécia); "A Fading Man", de Welf Reinhart (Alemanha); "A Messy Tribute to Motherly Love", de Dan Geesin (Países Baixos); (o luminoso) "My Semba", de Hugo Salvaterra (Angola); "Nangong Cheng", de Shao Pan (China); "O Profeta", de Ique Langa (Moçambique), que carrega certo favoritismo; "Roid", de Mejbaur Rahman Sumon (Bangladesh); "Supporting Role", de Ana Urushadze (Geórgia); "Unerasable!", de Socrates Saint-Wulfstan Drakos (Bélgica); "Variations on a Theme", de Jason Jacobs e Devon Delmar (África do Sul).

Na entrevista a seguir, via Zoom, a cineasta conversa com o Correio da Manhã sobre suas escolhas no set e sobre espaços urbanos marcados pela erosão econômica.

Para um filme pontuado pelo intimismo, como "The Gymnast", sua engenharia de som tem uma potência criativa singular. Como foi lidar com ruídos e silêncios daquele mundo doído?

Charlotte Glynn - Havia um trem passando todo o tempo pelas locações nas quais trabalhamos. Ele me dava, de alguma forma, a medida do som ambiente. Fora isso, existe um ginásio de esportes, com pessoas se movendo todo o tempo. Assim sendo, eu não quis uma trilha que guiasse as cenas. Deixo a emoção se expressar pelo plano, na imagem.

De que maneira Pittsburgh é uma espécie de terceira protagonista num filme de filha e pai?

Em Pittsburgh, eu encontrei um espaço onde os rios formam uma fronteira entre as vizinhanças. É uma cidade que, ao longo dos anos 1990, perdeu a extração do ferro, que a sustentava, e teve de buscar uma outra identidade. Neste caso, assumir uma cidade assim como personagem é uma forma de discutir de que forma uma geografia pode segregar.

Nesse contexto, de que maneira a solidão entra como elemento dramatúrgico?

Esse é um sentimento universal, que pode ser sentido de formas diferentes. Estamos sempre em busca de alguém que possa nos entender. Monica e seu pai são pessoas sós. No entanto, na busca por conexão emotiva com outros personagens, é como se eles formassem um time. Gosto dos filmes de esporte também por essa perspectiva deles: time.

Qual foi o maior desafio na recriação dos anos 1990?

Este é um filme de pouco dinheiro, de equipe pequena. Não tínhamos como gastar na recriação dos espaços, nem nos uniformes das ginastas. Por sorte, esses trajes das atletas não mudaram muito. Tivemos que correr atrás de um ginásio que se parecesse com um salão da década de 1990, onde pudéssemos concentrar a ação.

O trabalho de iluminação da sua diretora de fotografia, Kayla Hoff, impressiona sobretudo pela forma de caracterizar uma Pittsburgh do passado e explorar angústias das personagens. Como foi a construção dessa luz do filme?

Kayla é uma profissional rápida, numa equipe enxuta, que trabalhou o roteiro comigo, buscando o entendimento do nível de realismo que ambicionávamos. É uma trama que precisa se conectar com a realidade, mas com o cuidado de não exigir muito de sua protagonista, que é uma iniciante. Nossa montadora, Lia Kulakauskas, é brasileira e trouxe também um olhar particular para o filme.