Vencedor do Festival do Rio, 'Pequenas Criaturas' se firma, antes da estreia, numa invejável travessia por maratonas cinéfila, com elogios colhidos em festival sueco e em Tiradentes
Falta um tempinho ainda até "Pequenas Criaturas", o vencedor do troféu Redentor de Melhor Filme do Festival do Rio 2025, estrear: só 30 de abril. No entanto, o gostinho de "vale a pena ver de novo" deixado por esse delicado inventário de cicatrizes dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, em sua consagradora passagem pela Première Brasil, em outubro, hoje mobiliza diferentes maratonas cinéfilas ao redor do planeta.
Na Mostra de Tiradentes, no último dia 25, em meio a uma sessão na praça da cidade mineira, não havia quem não se encantasse pelo desempenho de Carolina Dieckmann à frente de uma figura, Helena, de quem a vida resolveu tirar tudo... ainda que em penosas prestações. Um alívio (talvez) amoroso lhe chega na figura de Caco Ciocler, numa atuação daquelas de se aplaudir de pé. Fora isso, tem Fernando Eiras, o titã habitual do cinema de Júlio Bressane... e de palcos cariocas, reafirmando sua alta voltagem dramática, assim como Letícia Sabatella, que abrilhanta nossas telonas bem menos do que a gente precisa.
Essa trupe em estado de graça, enquadrada meticulosamente pelo diretor de fotografia Pablo Baião, fez com que Anne amolecesse corações em latitudes escandinavas, bem longe das Gerais, no festival de Gotemburgo, na Suécia. Concorreu lá numa seção que leva o nome daquele que foi o mestre supremo da realização: Ingmar Bergman.
"Acho que a Brasília do filme se mostra universal no que ela é cenário de uma história universal - uma história de afetos e encontros de personagens solitários com sede de conexão", adianta Anne, contextualizando, neste papo com o Correio da Manhã, a cidade que lhe serve de arena para uma trama ambientada em 1986.
A direção de arte de Claudia Andrade, premiada no Festival do Rio, pavimenta a beleza (mas também a solidão) da capital do país revisitada nessa produção da Bananeira Filmes, de Vânia Cattani. Cercada de compromissos com telenovelas da Globo, Carolina Dieckmann, que entra em circuito hoje com "(Des)Controle", comove olhares por onde passa com a sofreguidão de Helena. Logo após redemocratização, depois do movimento Diretas Já!, no desfecho do regime militar, ela chega em Brasília com o marido e dois filhos. Mal os caixotes encostam no chão, ele parte. Ela fica. Tem que cuidar de uma casa ainda por abrir, com uma rotina que não escolheu, com uma quase metrópole estranha que não lhe oferece colo, só espaço. No meio desse vazio, surgem encontros que parecem desvios, mas são rotas de sobrevivência.
"Brasília mudou muito nesses 40 anos, então o desafio foi buscar locações e enquadramentos que fossem fiéis à época e às sensações que o filme buscava recriar", explica a diretora, que rodou curtas como "Desejo" (2005) e séries como "As Canalhas" (2015) e "Desnude" (2018), além do longa "Transe" (2022), feito a quatro mãos por Carolina Jabor. "A sorte é que Brasília é uma cidade tombada, patrimônio cultural, o que ajuda. Mas a cidade cresceu muito nesses anos, assim como a vegetação que antes era de árvores pequenas, secas e retorcidas, cerrado mesmo, e hoje a cidade é cheia de árvores frondosas. Foi um grande trabalho de subtração e enquadramento".
Dois jovens atores brilham em "Pequenas Criaturas", em papéis de salpicados pelo senso de descoberta: Théo Medon e Lorenzo Mello. Theo vive André, um adolescente que tenta decifrar as regras não escritas das quadras e das super quadras. Ele é perseguido, apaixona-se, faz uma amizade improvável, acha uma arma, sonha com uma mobilete. Aos poucos, percebe que a confusão em seu entorno se estende para sua casa. Já o pequeno Dudu (Lorenzo), aos 7 anos, vive a Brasília que cabe no bolso. Tampinhas de refrigerante e palitos de picolé premiados enfeitam sua imaginação. Em meio a brincadeiras possíveis, atrai a atenção de um vizinho enigmático (papel de um vulcânico Eiras).
Em Tiradentes, correu pela cidade, na noite em que "Pequenas Criaturas" passou, um elogio daqueles de se guardar no lado esquerdo do peito: "Que filme de amor!".
"Adorei essa frase entreouvida na Mostra de Tiradentes. É exatamente isso", retruca Anne. "É sobre amor, amizade, conexão, afetos… tudo que todo mundo precisa tanto. A cena final do filme dá aos personagens uma experiência comum, essa conexão concreta, algo incrível, inacreditável, que só eles terão vivido, juntos. Uma experiência que os une de forma definitiva, porque quem vai acreditar?".