Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Criticamente espantoso

Recordista absoluto de indicações ao Oscar, 'Pecadores' é dstaque na Mostra da ACCRJ | Foto: Divulgação

O terror galga espaço nunca antes conquistado nas premiações do cinema com as indicações ao Oscar a 'Pecadores' e 'A Hora do Mal', que serão debatidos na mostra da ACCRJ na Caixa

Duas produções nas raias do terror estão concorrendo ao Oscar 2026, ampliando o prestígio de um filão muitas vezes esnobado nas premiações, mas essencial à contextualização política do Mal (o mítico, o místico e o concreto) ao nosso redor: "Pecadores" ("Sinners") e "A Hora do Mal" ("Weapons"). Ambos integram na mostra Melhores do Ano, organizada na Caixa Cultural pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), com base em sua própria enquete dos longas-metragens de maior vigor estético de 2025.

"Ao utilizar o medo como um dispositivo de representação da intolerância, o terror opera como uma ferramenta utilíssima para debater a perda da empatia na sociedade contemporânea. O que nos assombra é ver esse dispositivo tão bem trabalhado, numa fronteira entre o pop e o filosófico", explica a jornalista, escritora e crítica Ana Carolina Garcia, atual presidente da ACCRJ. "O terror não se atém a fazer a plateia levar sustos, buscando conduzi-la à reflexão por meio da discussão sociológica".

Macaque in the trees
Amy Madigan brilha em 'A Hora do Mal' | Foto: New Line

Nesta quarta-feira, na Caixa Cultural, a crítica Luciana Costa vai decifrar os enigmas estilísticos que fizeram de "A Hora do Mal" uma máquina de fazer dinheiro. Custou US$ 38 milhões e faturou cerca de US$ 270 milhões, emplacando uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Coadjuvante para Amy Madigan. O longa passa às 16h30 e o debate rola na sequência. Zachary Michael Cregger assina a realização, apostando radicalmente na tensão e na suspensão das nossas certezas. A linha de ação politizada que o roteiro — de sua autoria — traz é uma alusão, profundamente metafórica, à onda de crimes contra jovens em escolas. Ao contrário do que o título em inglês ("Weapons", ou seja, 'Armas") sugere, o diretor não mostra estudantes armados a disparar contra colegas. Apesar disso, sente-se a atmosfera paranoica de ambientes invadidos pelo risco de que a brutalidade reduza drasticamente o índice populacional do alunado. Até a personagem da tia má, a bruxa má Sra. Gladys, aparecer, numa interpretação colossal de Amy, a plateia agarra-se à cadeira e rói as unhas até à raiz.

Recordista absoluto de indicações ao Oscar, nomeado em 16 categorias (um feito histórico na indústria), "Pecadores" foi... de longe... o melhor filme do primeiro semestre de 2025. faturamento beirou US$ 364 milhões. Sua projeção na Caixa está marcada para o dia 10, às 16h30, também com Luciana Costa.

Com a alta de seu cacife nos preparativos da cerimônia da Academia (agendada para 15 de março), o longa volta a pipocar por telonas de todo o mundo, consagrando-se como exemplar do filão terror antirracista, o mesmo que nos deu "Corra!" (2017). Seu realizador, Ryan Coogler, bateu a barreira do bilhão, em 2018, com "Pantera Negra", e vem agora tratar de vampiros e da Ku Klux Klan. Ambas as forças das trevas vão atazanar os juízos de dois empresários do ramo da Caninha da Roça que dão ao blues lugar de honra em seus negócios.

Tais negociantes, irmãos gêmeos, têm o ator Michael B. Jordan, da franquia "Creed" (2015-2023), como intérpretes, numa atuação em (duplo) estado de graça. Os manos Moore, Elijah Smoke e Elias Stack, dão a B. Jordan deixa para se firmar como um dos astros mais populares de nosso tempo. Sua trama, avessa ao colonialismo, põe sugadores de sangue num bar de beira de estrada, no Mississippi pós I Guerra, na qual múltiplas ancestralidades egressas da África se manifestam.