Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O 'Agente Secreto' de Portugal

Em 'Projecto Global', a agitação de ativistas mobiliza Portugal numa luta pela liberdade | Foto: O Som e a Fúria, Tarantula

Eletrizante recriação da Lisboa pós-Revolução dos Cravos, o thriller 'Projecto Global', de Ivo M. Ferreira, renova a força do cinema lusitano em competição nas telas de Roterdã

Rosa acredita num outro Portugal, bem distinto daquele em que mulheres como ela vivem, nas raias dos anos 1980, cerca de seis anos depois de aquele país ter passado pela Revolução dos Cravos e tirado o retrato do velho António de Oliveira Salazar (1889-1970) das paredes das repartições públicas. Interpretada silenciosa e magistralmente por Jani Zhao, a personagem de ascendência asiática que nos conduz por veredas distintas (ora é dor, ora é júbilo, mas sempre é tensão) do épico "Projecto Global", percebe o quanto a euforia revolucionária da Lisboa de outrora... de bem pouco tempo atrás... deu lugar à desilusão. Fábricas fecham, trabalhadores erguem barricadas e a política é a voz dominante em todas as gargantas.

À medida que a pátria banhada pelo Atlântico e embalada pelo fado se embrenha em agitações sociais, um grupo armado de extrema-esquerda, chamado FP25, entalha seu nome no carvalho da História. É dele que fala o longa-metragem de Ivo M. Ferreira, responsável por um redesenho febril da força cinemática do audiovisual português. O Festival de Roterdã, realizado na Holanda, é seu berço, em sessões na mostra Big Screen Competition, antecedendo sua estreia em circuito na Península Ibérica, agendada para 23 de abril.

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Ivo.M. Ferreira, cineasta português | Foto: Pedro Cardeira/Divulgação

"Eu fiz, antes de tudo, uma ficção... uma ficção livre de qualquer invenção pedagógica, sem incorrer em fantoches morais, que se inspira em várias pérolas colhidas num trabalho de pesquisa e em horas passadas com a malta (turma) da polícia e com ex-operacionais", conta Ivo ao Correio da Manhã, num papo via Zoom em Roterdã, lembrando ter ouvido do pai que Salazar foi "um grande atraso de vida" para sua nação.

"O único saudosismo nessa recriação do passado é a energia da época, com sua pulsão libertária. Havia por ali um certo impulso que dava lugar ao erro, à hesitação, e tudo o que eu não poderia fazer era incorrer numa super estilização. Não poderia ser cinemão. Tivemos meios para filmar, mas não tínhamos uma grua. Não podia ser burguês".

Em sua trama, Rosa se junta a um grupo de jovens desiludidos com o Portugal pós-Revolução. Integrados numa organização avessa às leis vigentes à época, eles partilham ideais políticos e um quotidiano que os aproxima cada vez mais, mas o idealismo colide de frente com o país em mudança e com uma vasta operação policial que os tem como alvo. De certa forma, o painel histórico pintado por Ivo (capaz de evocar, à moda lusa, marcos da Nova Hollywood, como "A Trama", de Alan J. Pakula, e "Operação França", de William Friedkin) se conjuga bem como os feitos do pernambucano Kleber Mendonça Filho no concorrente brasileiro a quatro Oscars "O Agente Secreto" - também em exibição em Roterdã, mas em mostra paralela. Uma mesma atriz, a sempre impecável Isábel Zuaa, está em ambos os filmes.

"A espinha dorsal do meu filme é a ambivalência moral e a dúvida. Mas, apesar delas, o arco da trama está construído sobre a relação entre aquelas pessoas, pois o que fica de um processo desses não é a política, são as amizades", diz Ivo, que concorreu ao Urso de Ouro das Berlinale, em 2016, com "Cartas da Guerra".

No ardor de "Projecto Global", as vidas de figuras como Rosa são feitas de assaltos a bancos, bombas, prisão, amores e mortes. Encurralados, os integrantes daquela facção têm a fuga como única escolha. Esse destino rende, em tela grande (ou ecrã, como falam na Terrinha) um espetáculo fílmico fulgurante, de tirar o fôlego mesmo nas sequências de falatórios, onde cada palavra é uma dinamite a explodir segredos letais. No elenco, Além de Zhao, destaca-se o desempenho do também diretor Gonçalo Waddington e de Isac Graça, além do fino trabalho de direção de fotografia de Vasco Viana.

"Todos os dias, ao fim da filmagem, quando chegávamos ao hotel, Vasco ia ao copião, a fim de corrigir a cor, ciente de que, nas filmagens, obedecíamos às pulsões da câmara, deixando os atores irem... livres", diz Ivo. "Existe um frenesi nas personagens que se espelha no convívio ético e moral entre elas".

Roterdã segue até o próximo domingo, tendo a ficção científica brasileira "Yellow Cake", de Tiago Melo, na arrebatar corações na competição chamada Tiger, sobretudo pelo desempenho de Tânia Maria, a dona Sebastiana de "O Agente Secreto". Seu diretor fez antes "Azougue Nazaré" (2018). Ambientada em Picuí, situada em uma região conhecida por ter "Terras Raras", na Paraíba, essa sci-fi explora um dos lados mais perigosos da mineração (o risco de contágio por radiação). Mineiros como tântalo, nióbio e (sobretudo) urânio estão no foco da saga de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear envolvida em um projeto secreto para erradicar o Aedes aegypti utilizando a riqueza mineral da região. Agentes dos EUA, mosquitos famintos e conflitos políticos estão no leito desse rio de brasilidade cristalina, onde Tânia vive uma moradora que celebra os poderes analgésicos de um cigarrinho.

Um dos achados do evento holandês é o thriller de DNA francês "Mi Amor", de Guillaume Nicloux. Nele, a DJ Romy (Pom Klementieff, a Mantis de "Guardiões da Galáxia") está de férias nas Ilhas Canárias, animada pelas discotecas locais, deixando para trás uma situação familiar um tanto feroz por resolver. Pouco tempo depois da sua chegada, a amiga que a segue no passeio, desaparece sem deixar rasto e o paraíso desmorona-se. Sozinha, paranoica e roubada de seus pertences, Romy começa sua busca, até esbarrar com um estranho (Benoît Magimel) ligado a um parque onde se resgatam animais exóticos. Igualmente tensa é a situação do divo teatral Robert Zucchini, personagem esculpido pelo ator Fabrice Luchini em "Victor Comme Tout Le Monde", de Pascal Bonitzer, ao encarar uma onda de "cancelamento" contra autores seculares da Europa em meio a um confronto com ativistas - e com a filha para a qual nunca reservou a atenção necessária. Luchini mobiliza as plateias da Holanda com sua ironia habitual.