Vitória de 'Anistia 79', uma narrativa contra a tortura, na Mostra de Tiradentes, reforça a batalha do cinema, em sucessos como 'O Agente Secreto', para expor traumas da ditadura
Desde sábado à noite, quando a Mostra de Tiradentes coroou "Anistia 79", da professora da UFRJ e cineasta Anita Leandro, com um par de troféus, consagrando-o como seu filme mais premiado de 2026, a democracia brasileira ganhou um reforço histórico do cinema, em um momento no qual a ditadura militar virou o tema dos filmes nacionais mais consagrados aos olhos de Hollywood. "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, que nos deu o Oscar, depois de oito décadas de espera, reconstituía a luta da advogada e ativista Eunice Paiva (1929-2018) para descobrir o que se passou com seu marido, o engenheiro e ex-deputado Rubens Beyrodt Paiva (1929-1971). Ele foi levado por agentes de Estado (um estado de farda) para depor e nunca mais voltou.
Ao vender 5,8 milhões de ingressos, em sessões lotadas, que sempre terminavam em salvas de aplauso indignadas, Waltinho popularizou uma cruzada política pela verdade. De 22 de janeiro para cá, outro sucesso nacional de bilheteria, "O Agente Secreto", posicionou-se no panteão dos longas "oscarizáveis" pelo cinemão americano, ao receber quatro indicações ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Sua trama se passa em 1977, época que, de acordo com o roteiro do diretor Kleber Mendonça Filho, foi "cheia de pirraça", à força do retrato do general Ernesto Geisel (1907-1996) nas paredes das repartições públicas.
Custou para que a ficção brasileira tratasse dos anos de chumbo... e de todo o período em que generais governaram este país... com o mesmo nível de ousadia, contundência e até liberdade estilística que o nosso documentário tratou. A escalação de "As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana" (2016), de Paola Vieira e Claudio Lobato, pela TV Brasil, esta noite, às 21h, é uma boa amostragem do quanto nossa produção documental foi atenta aos ranços do golpe. É o retrato de como poetas reagiram à violência fardada de 21 anos de opressão das Forças Armadas. Não há como se esquecer de "Cabra Marcada Para Morrer", de Eduardo Coutinho (1933-2014), que é um farol para Kleber e para Waltinho, e que utilizou um dispositivo investigativo a fim de falar dos envolvidos na filmagem de um experimento de denúncia que foi silenciado em 1964.
"Anistia 79" calou fundo no coração de Tiradentes ao apostar nessa toada de investigar silêncios de outrora. Paralelamente a eles, a realizadora investiga, sobretudo, vozes que ousaram se levantar contra um Planalto de fuzis e quepe. Coube à delicada narrativa de Anita Leandro o Prêmio Carlos Reichenbach (batizado em homenagem ao realizador de "Garotas do ABC", que foi um estandarte da luta antifascista) e a láurea de júri popular. Sua narrativa se remonta a uma agitação política em Roma, em junho de 1979. Naquela data, exilados filmam a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Cerca de meio século depois, essas imagens reacendem o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores.
Ao operar nesse meridiano, a documentarista reforça o coro de bons longas que narram as brutalidades estatais cometidas nos 21 anos em que oficiais militares tomaram o governo e suspenderam a democracia. Os argentinos viveram situação similar, igualmente sangrenta, e a exorcizaram, no cinema, com "A História Oficial", de 1985, e "Argentina, 1985", de 2022, com direito a outros sucessos no caminho. Em veredas ficcionais, o Brasil reagiu (em sua cinefilia) ao avanço dos comandantes fardados já no ato do golpe, com "O Desafio" (1965), de Paulo Cézar Saraceni (1933-2012). Uma nova reação de peso brotaria das telas em 1982, com direito a uma indicação ao Urso de Ouro de Berlim e 1,3 milhão de ingressos vendidos em circuito: "Pra Frente, Brasil", de Roberto Farias (1932-2018). Cerca de 15 anos depois, Bruno Barreto tomou as telas de assalto com "O Que É Isso, Companheiro?", que também concorreu na Berlinale, falando do sequestro do embaixador americano (vivido por Alan Arkin). Fora isso, desde os anos 1980, a realizadora Lucia Murat fez dos Anos de Chumbo o assunto de seus dramas, incluindo "Quase 2 Irmãos" (2005) e o recente "O Mensageiro" (2023). Em 2019, o mesmo Wagner Moura que briga por um Oscar, agora com "O Agente Secreto", arriscou-se (muito bem) na realização relembrando heroísmos possíveis (e poéticos) em "Marighella", só lançado em 2021, em meio à pandemia, cerceado pelo governo de Jair Bolsonaro.
No documentário, fora o realce dado alguns parágrafos acima a "Cabra Marcada Para Morrer", merece destaque toda a obra de Silvio Da-Rin ("Hécules 56"), que nos deixou na semana passada, e parte considerável da filmografia de Vladimir Carvalho (como "Barra 68"), além do trabalho aguerrido de Emília Silveira ("Setenta"). Essas vozes autoralíssimas expuseram a violência da ditadura em um dos maiores territórios da América do Sul. Apesar desse sortimento, faltava uma catarse... sobretudo de retumbância popular, que fosse capaz de reverberar pelo mundo... em termos ficcionais. Walter goleou essa nossa angústia com "Ainda Estou Aqui". Kleber vem agora arrematar a partida, num sinal de que o risco de agentes militares se arvorarem a tomar o Brasil de novo pode sempre rondar os ares da pátria.
A Mostra de Tiradentes, que a premiou, festejou a prata da casa - no caso, as novas estéticas de Contagem, em MG - na premiação de sua seção mais concorrida, a Aurora, concedendo seu prêmio anual a um experimento de 58 minutos chamado "Para Os Guardados", realizado por Desali e Rafael Rocha. Nele, o público vai até a periferia mineira, onde um rapaz, Fael, mantém laços com encarcerados.