O Oscar da França, que será entregue em Paris no próximo dia 26, inclui a produção do Recife na luta pelo prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, coroando a estética revelada em Cannes
Berço mundial de "O Agente Secreto" (pois foi na Côte d'Azur, no Festival de Cannes, que o thriller pernambucano ambientado em 1977 nasceu), a França pode conferir seu Oscar anual, o troféu César, a esse longa-metragem brasileiro que não para de brilhar nas telas do mundo. Soa ainda mais emblemático o fato de essa trama brasileiríssima ter como produtora uma francesa, Emilie Lesclaux, parceira profissional e companheira de vida do diretor Kleber Mendonça Filho.
Mesmo nascida na pátria de François Truffaut, ela fez sua carreira no Recife, que arrebatou os corações francófonos com a saga de um pesquisador da universidade pública (Wagner Moura) em busca de um porto seguro para o filho, sendo caçado por matadores de aluguel, em plena ditadura. A produção dirigida por Kleber concorre à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro na premiação de CEP parisiense, que será realizada no dia 26 de fevereiro, no auditório Olympia.
O César é um troféu de bronze estimado em cerca de € 1,5 mil, batizado com o nome de seu escultor, César Baldaccini (1921-1998), um artesão do Nouveau Réalisme europeu. A festa de entrega da honraria terá a atriz Camille Cottin no comando das atividades e com Benjamin Lavernhe no posto de apresentador. Um prêmio honorário será conferido ao rei do riso Jim Carrey. "O Agente Secreto" está no páreo contra "Black Dog", de Guan Hu (China); "Sirât", de Oliver Laxe (Espanha); "Valor Sentimental", de Joachim Trier (Noruega); e "Uma Batalha Após A Outra", de Paul Thomas Anderson (EUA), o favorito dos favoritos ao Oscar oficial, o dos EUA.
Existem 24 categorias no César, das quais 23 se celebram filmes da França (excepcionalmente da Bélgica ou de algum país africano ou caribenho outrora colonizado em francês), sendo que o título com maior número indicações (foram dez) esta vez é pilotado por um americano, embora se passe na Paris dos anos 1950: "Nouvelle Vague", de Richard Linklater. A saga dos bastidores das filmagens de "Acossado" (1960), por Jean Luc-Godard (1930-2022), cruzou com "O Agente Secreto" em maio, na competição pela Palma de Ouro de Cannes - de onde o longa nacional saiu com os troféus de Melhor Direção e Ator, dados a Kleber e Wagner, respectivamente. Em 11 de janeiro, os dois concorreram na cerimônia do Globo de Ouro.
Wagner ganhou lá também e o casal Emilie e Kleber subiu ao palco para agradecer a conquista do Globo dourado de Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Fora o painel histórico dirigido por Linklater, duas outras produções dispararam na corrida pelo César, com oito indicações cada: "L'Attachement", de Carine Tardieu, e "Dossiê 137", de Dominik Moll.
Votado por 4,9 mil integrantes da Académie des Arts et Techniques du Cinéma, o César foi atribuído pela primeira vez em 1976, quando o vencedor foi "O Velho Fuzil", de Robert Enrico (1931-2001). O cinema brasileiro concorreu três vezes antes. Walter Salles dirigiu dois desses concorrentes. "Central do Brasil", em 1999; e "Diários de Motocicleta", em 2005. O terceiro foi rodado pelo próprio Kleber: "Aquarius", indicado em 2017.
Em 2025, o César de Melhor Filme foi entregue ao musical "Emilia Pérez", que venceu em mais seis categorias, inclusive as de Melhor Ator e Roteiro. Agora, os favoritos nas frentes de melhor atuação, na edição de n° 51 da láurea francesa, são Isabelle Huppert, por "A Mulher Mais Rica do Mundo", e Benjamin Voisin, por "O Estrangeiro".
Com 61 prêmios em seu currículo, "O Agente Secreto" foi indicado a quatro estatuetas na festa do Oscar deste ano, agendada para 15 de março no Dolby Theatre, em Los Angeles: Melhor Filme, Melhor Ator (Wagner Moura), Melhor Produção de Elenco (Gabriel Domingues) e Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Atualmente, o longa testa sua adesão popular com plateias da Holanda, no Festival de Roterdã, de onde pode sair com a láurea de júri popular. As nomeações aos troféus de Hollywood fizeram sua bilheteria disparar. No Brasil, cerca de 1,8 milhão de pagantes já confeririam a narrativa de Kleber em circuito.