Com um ouvido no Clube da Esquina e outro em Madonna, a Mostra de Tiradentes encerra sua 29ª edição no sábado, dedicando a tarde a um intercâmbio com curadores estrangeiros
Nos momentos finais de uma maratona iniciada à força do cinema de invenção, com um Júlio Bressane inédito ("O Fantasma da Ópera"), sons que se confundem com a criação do moderno cancioneiro das Gerais hão de tomar conta da 29ª Mostra de Tiradentes com "Ladeiras da Memória - Paisagens do Clube da Esquina". Raabe Andrade e Daniel Caetano assinam esse documentário por onde passam craques da letra e da melodia como Toninho Horta, Marcio Borges, Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas e Nelson Angelo.
A produção registra o encontro de músicos de diferentes gerações em estúdio, para revisitar canções marcantes do repertório do grupo que dá nome ao filme. É com ela, em sessão neste sábado, às 21h, que as exibições na praça central da cidade mineira chegam ao fim. Paralelamente, por um outro registro musical (e também documental), o evento que inaugura o ciclo anual dos grandes festivais de filmes nacionais despede-se de 2026, depois de ter passado dias lotando seus centros exibidores. O outro longa agendado para a marcha de despedida de Tiradentes se chama "Copacabana, 4 De Maio" e a direção é de Allan Ribeiro.
No longa, o cineasta revive uma noite antológica de 2024, quando Madonna fez o maior show de sua carreira... e foi no Brasil. As areias de Copacabana receberam 1,6 milhões de pessoas. Allan mostra como o Rio de Janeiro se preparou para esse acontecimento pop. Analisa ainda como os personagens foram afetados, esperando por aquele 4 de maio, recordando bandeiras que a cantora levantou durante sua vida.
Em paralelo a esses dois exercícios autorais, Tiradentes conferem os ganhadores de suas seções competitivas, em especial sua menina dos olhos, a Aurora. Concorrem este ano "Vulgo Jenny" (Viviane Goulart, GO); "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (Denise Vieira, DF); "Politiktok" (Álvaro Andrade, BA); "A Voz da Virgem" (Pedro Almeida, RJ); "Para os Guardados" (desali e Rafael Rocha, MG) e "Obeso Mórbido" (Diego Bauer, AM). O programador Francis Vogner dos Reis é quem coordena a curadoria que pinçou essas pérolas para Minas, composta por Juliano Gomes e Juliana Costa (nos longas-metragens); Camila Vieira, Leonardo Amaral, Lorenna Rocha, Mariana Queen e Rubens Anzolin (nos curtas-metragens); com assistências de Barbara Bello (longas) e João Rego (curtas).
No desfecho de suas atividades, Tiradentes cumpre mais uma vez a missão que fez dela alvo de atenções no planisfério global: um encontro de curadores e de programadores estrangeiros, de distintas partes da Terra. Dede os anos 2010, uma das principais virtudes da Mostra, no cenário dos festivais de cinema do Brasil, é sua habilidade de aglutinar "olheiros" (leia-se diretores/as artísticos/as) de algumas das mais importantes maratonas competitivas da Europa e das Américas em suas projeções e em seus fóruns de debate. Este ano, um time internacional de respeito vai participar, neste sábado, de uma discussão chamada Futuros Imaginados, cujo foco é o papel dos filmes (e o futuro deles) na era em que a atenção é disputada vorazmente por telemóveis. A crise das salas de projeção, a disputa com plataformas digitais, a concentração do mercado audiovisual, o enfraquecimento dos modelos de financiamento e o avanço da inteligência artificial serão os tópicos de duas conversações. Uma rola às 15h, e mobiliza Álvaro Arroba (do Bafici, La Quinzaine des Cinéastes, Seminci); Roger Koza (Doc Buenos Aires, Filmfest Hamburgo, Viennale); Walter Tiepelmann (Fidba, Málaga WIP); e Francis Vogner dos Reis, o coordenador curatorial de Tiradentes. A mediação será de Claire Allouche, curadora ligada ao Conexão Brasil CineMundi, na França. A segunda, às 17h, envolve Cíntia Gil (Doclisboa e da Quinzena de Cineastas de Cannes); Romeo Umulisa (Creative Africa Lab, de Ruanda); Cleber Eduardo (Conexão Brasil CineMundi); Cyril Neyrat (FIDMarseille); e Juliana Antunes (cineasta).
"A nossa orientação em Tiradentes é a busca por conformar em cada programação uma ampla diversidade imaginativa com a extensão e multiplicidade que um país continental como o Brasil pode ter", explica Vogner ao Correio da Manhã. "Disputamos o termo-valor 'diversidade'. No nosso caso, divergimos de uma concepção de diversidade limitada e restrita à 'algoritimização' dos produtos audiovisuais como se fossem estes experiências seguras expostas em baias para o consumo a gosto do freguês (risco zero: receberá pelo que pagou) que rebaixa a sensibilidade ao médio, ao palatável, à fruição sem um desafio para um espectador ou espectadora que podem ser sempre ativos no pensamento e no coração durante a projeção de um filme; também não nos faz sentido uma diversidade de temas e de sujeitos no audiovisual restritos, limitados e rebaixados às formas (formatos, na verdade) e modos de trabalho criativo identificados com o regime estético hegemônico. E quando falamos em estética não perdemos de vista sua dimensão política, no sentido que uma obra é capaz de fazer ver, sentir e ouvir as coisas de um modo novo, de tornar visível àquilo que somos condicionados a não ver, não perceber e não estranhar".