'Yellow Cake', com a estrela potiguar da hora, Tânia Maria, integram o bonde nacional que briga por aplauso no 55° Festival de Roterdã, incubadora de talentos autorais
Ponto de partida da carreira internacional de Kleber Mendonça Filho nos longas-metragens de ficção, por ter sido a primeira vitrine, no mundo, de "O Som ao Redor", lá em 2012, o Festival de Roterdã, na Holanda, nunca escondeu seu fascínio pela América do Sul, e sempre acolheu o nosso filé mignon autoral em sua competição oficial. Essa mostra tem nome: Tiger. O tigre é o símbolo desse evento, considerado o marco zero do circuito internacional anual das maratonas competitivas (com prestígio GG) de longas-metragens.
Na sequência dela, rolam os festivais de Berlim, Cannes, Locarno, Veneza, Toronto e San Sebastián. Cineastas estrangeiros de respeito, como o inglês Christopher Nolan e a americana Kelly Reichardt, ganharam o felino dourado de Roterdã no passado. Da Pangeia latina, venceram por lá o cubano Carlos M. Quintela ("La Obra Del Siglo"), a paraguaia Paz Encina ("Eami") e um conterrâneo de Kleber, o pernambucano Claudio Assis, com "Baixio das Bestas", em 2007. No ano passado, a láurea de júri popular, oferecida a atrações de verve autoral que a cidade holandesa vê fora do concurso principal, foi dada para "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles. A aposta nacional da vez para esse "prêmio do povão", dedicado à seção Limelight, é "O Agente Secreto", que terá sessão por lá esta noite.
Sua lotação está esgotada, mas uma de suas estrelas, Tânia Maria, famosa por sua atuação sempre de cigarro nos dedos, como Dona Sebastiana, será vista em Roterdã ainda num outro filme brasileiro, que conseguiu vaga na caça ao Tigre: "Yellow Cake". A direção é de Tiago Melo (conhecido por "Azougue Nazaré"). Sua exibição será na próxima segunda. Ambientada em Picuí, situada em uma região conhecida por ter "Terras Raras", na Paraíba, essa ficção científica explora um dos lados mais perigosos da mineração (o risco de contágio por radiação). Mineiros como tântalo, nióbio e (sobretudo) urânio estão no foco da saga de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear envolvida em um projeto secreto para erradicar o Aedes aegypti utilizando a riqueza mineral da região. Agentes dos EUA, mosquitos famintos e conflitos políticos estão no leito desse rio de brasilidade cristalina.
Concorrem com Tiago as produções "La belle année", de Angelica Ruffier (Suécia); "A Fading Man", de Welf Reinhart (Alemanha); "The Gymnast", de Charlotte Glynn (EUA); "A Messy Tribute to Motherly Love", de Dan Geesin (Países Baixos); "My Semba", de Hugo Salvaterra (Angola); "Nangong Cheng", de Shao Pan (China); "O Profeta", de Ique Langa (Moçambique); "Roid", de Mejbaur Rahman Sumon (Bangladesh); "Supporting Role", de Ana Urushadze (Geórgia); "Unerasable!", de Socrates Saint-Wulfstan Drakos (Bélgica); "Variations on a Theme", de Jason Jacobs e Devon Delmar (África do Sul). Há um artista de Pernambuco no júri que vai analisar cada concorrente desses: o cineasta Marcelo Gomes. Fora de suas missões julgadoras, ele exibe em Roterdã, neste sábado, na seção Harbour, o melodrama "Dolores", que codirigiu com Maria Clara Escobar. Na sexta, essa crônica multicolorida sobre conexões familiares femininas - com Carla Ribas em estado de graça - será exibido em Minas Gerais, na Mostra de Tiradentes. Além de Marcelo, o time de juradas e jurados do Tiger reúne a atriz iraniana Soheila Golestani; a diretora e também intérprete franco-grega Ariane Labed; a diretora artística do London BFI Film Festival Kristy Matheson; e o escritor croata Jurica Pavicic.
Nesta sexta, uma mistura escatológica (e aparentemente genial) de comédia com horror gore do Brasil pede passagem a Roterdã: "Privadas de suas vidas", de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner. Seu enredo é um convite à surpresa. Após perder um dos filhos gêmeos em um acidente trágico, Malu (Martha Nowill) vive em conflito com o filho adolescente sobrevivente, Gênesis (Benjamín), uma pessoa não binária que exige ser reconhecida por sua identidade. Pressionada financeiramente, ela aceita organizar a festa de revelação de gênero da vizinha, o que aprofunda tensões familiares e reabre traumas do passado. Quando uma maldição transforma os banheiros do prédio em instrumentos de violência, mãe e filho precisam se unir para impedir que a celebração termine em tragédia.
Seu codiretor, Gustavo Vinagre, participa de Roterdã ainda com "A Paixão Segundo G.H.B.", que é descrito como "odisseia gay", e foi codirigido por Vinicius Couto. O festival chega ao fim no dia 8 de fevereiro. Uma de suas maiores apostas, escalada para a Big Screen Competition, é o thriller português "Projecto Global", de Ivo M. Ferreira, ambientado em 1974, em meio à Revolução dos Cravos.