Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Gabriel Domingues, um carioca na rota do Oscar: 'Gosto de pensar o casting como uma curadoria humana'

Gabriel Domingues, produtor de casting de 'O Agente Secreto' | Foto: Fabio Audi/Divulgação


Celebração estética das potências criativas do Nordeste, com talentos da Bahia, da Paraíba, de Alagoas, do Ceará, do Rio Grande do Norte e (sobretudo) do Recife, que lhe serve de cenário, "O Agente Secreto" cavou uma de suas quatro indicações ao Oscar por vias cariocas... de essência suburbana das mais resilientes (e cinéfilas): Gabriel Domingues. Foi ele quem estruturou o elenco do thriller ambientado em 1977, que o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho rodou tendo um baiano de Rodelas, Wagner Moura, como aríete na busca por prêmios e consagração. Esse trabalho de escalar (ou produzir) um coletivo de estrelas para um filme se chama, na indústria, casting. Pela primeira vez após 97 edições da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, surgiu uma categoria para honrar essa função.

Domingues está no páreo. Disputa com Nina Gold ("Hamnet"), Jennifer Venditti ("Marty Supreme"), Cassandra Kulukundis ("Uma Batalha Após A Outra") e Francine Maisler ("Pecadores"). Na conversa a seguir, ele explica ao Correio da Manhã como foi combinar Wagner Moura com divas natas como Tânia Maria (a intérprete de Dona Sebastiana) e astros em ascensão como Robério Diógenes, o "sujeito imperfeito" conhecido como Delegado Euclides, pai dos policiais Arlindo (Ítalo Martins) e Sérgio (Igor de Araújo).

Com 1,7 milhão de ingressos vendidos em solo nacional, "O Agente Secreto" leva o talento de Domingues ao Festival de Roterdã nesta sexta e passa pela Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, na tarde de sábado.

Como funciona, na prática, um trabalho de casting?

Gabriel Domingues - Um trabalho de casting é a construção de um pensamento em relação à escolha e à escalação do elenco de um filme. Isso significa estar numa troca permanente com as pessoas que guiam o processo, como o diretor e o produtor. No caso de "O Agente Secreto", essa troca foi principalmente com a produtora, a Emilie Lesclaux. A gente está sempre conversando para entender como vai ser essa escalação, como o filme vai se representar por meio dos atores. Quando existe um roteirista que não é também o diretor, ele pode participar desse processo, porque o casting fala muito de personagem. Nosso grande referencial é sempre o personagem. Gosto de pensar o casting como uma curadoria humana. É a escolha dos humanos que vão estar construindo e povoando esse filme, essa imagem, esse universo cinematográfico.

O que a criação de uma categoria para essa função sinaliza sobre a indústria do cinema?

Sinaliza um passo muito importante da indústria, porque reconhece que quem trabalha com isso também é pensador do filme, das suas camadas, do seu sentido, do seu discurso, do filme como ideia. Isso dá um lugar de autoria, de criação e de reconhecimento artístico para esses profissionais.

Como é a dinâmica de criação com Kleber Mendonça Filho e como foi dar vida ao universo de tipos que traduzem seu Brasil de 1977?

Eu já tinha trabalhado com o Kleber antes. O primeiro filme que fiz no departamento de casting foi "Aquarius", há cerca de dez anos, quando eu ainda era assistente de elenco. Já conhecia um pouco a forma do Kleber de trabalhar. A dramaturgia dele passa muito por um lugar de crônica, de comentário social, cultural e político. Ele pensa o cotidiano brasileiro como comentário sobre a sociedade e sobre o pensamento do Brasil. No caso de "O Agente Secreto", havia uma questão muito forte de traduzir o universo de 1977, que foi um momento muito específico do país. Usamos muito material de arquivo e pesquisa para pensar as imagens, a identidade das pessoas e como era a cara do povo brasileiro naquela época. Também existia uma vontade de entender as cenas como possibilidade de refletir sobre questões sociais e de representação. O Brasil vivia quase dez anos de ditadura militar, com desigualdades muito profundas e abandono de certas camadas da população. Pensamos muito nos cruzamentos entre raça, classe e gênero. O casting é um lugar onde essas questões podem ser pensadas e onde se decide que tipo de comentário o filme vai fazer sobre tudo isso.

De que maneira ter um protagonista como o Wagner Moura muda o curso de um longa na construção de um elenco?

O Wagner é uma estrela, uma pessoa muito reconhecida e um artista muito renomado. Ter ele como protagonista cria um centro gravitacional muito claro para o filme, um eixo muito bem estabelecido. Isso dá a possibilidade de pensar o entorno dele de várias formas, inclusive trabalhando com atores em diferentes estágios da carreira: pessoas que nunca tinham feito cinema; pessoas que já tinham feito outros filmes do Kleber; e outras ainda pouco conhecidas do público. Esse sistema de escalação mistura faces conhecidas e não conhecidas, o que ajuda a refletir a diversidade e também a seduzir o espectador, conduzindo a narrativa pelas figuras humanas. Ter o Wagner como centro permitiu fazer escalações menos óbvias, mais originais, dando ao filme um fôlego maior de autenticidade.

Você aprendeu a amar cinema depois de ver 'Kill Bill" (2003) no extinto Cine Palácio, no Passeio. De que maneira as andanças pelo Rio moldaram seu olhar?

Nasci em Jacarepaguá e cresci no subúrbio. Estudei em vários lugares: Madureira, Méier, Jacarepaguá, Vila Valqueire, Barra. Circulei muito pelas Zonas Norte e Oeste durante a adolescência. Isso me deu uma abrangência muito grande de tipos humanos. Lembro que, no ensino médio, pegava o trem da Central todos os dias para Madureira, e aquilo sempre me intrigou: a diversidade de pessoas, imigrantes, classe operária, camadas populares. Isso fez com que nunca tivesse medo de explorar o Brasil e me interessar por todo tipo de gente.

Quais são seus novos projetos?

No momento, não consigo pensar em novos projetos ainda, pois preciso deixar passar esse tsunami do Oscar. Estou fazendo o novo filme do Leonardo Lacca, que foi assistente de direção em "O Agente Secreto" e que será produzido pela Emilie, mas ainda estamos todos assimilando esse momento.