Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Um alô para exorcizar a tragédia

'A Voz de Hind Rajab', de Kaouther Ben Hania, recria com atores as reações do time de voluntários do Crescente Vermelho às voltas com a ligação de Hind Rajab | Foto: Divulgação

Indicado ao Oscar, 'A Voz de Hind Rajab' combina encenação com elementos reais, sob a direção de Kaouther Ben Hania para recriar um massacre onde uma garotinha lutou pela vida

Faltando um dia para o Natal, a cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania não desligava do Zoom, a atender conversar mais de tom humanitário do que cinematográfico sobre o filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, "A Voz de Hind Rajab", uma produção responsável por fazer a indústria audiovisual pensar sobre o fracasso do processo civilizatório. O fiasco nos é exposto por uma menininha palestina. Uma menina morta. Hind Rami Iyad Rajab (2018-2024) morreu pouco antes de chegar aos seis anos, em meio a uma ofensiva na Faixa de Gaza. Estava no carro com seus parentes quando a troca de tiros começou. Assustada ao perceber que sua família não se movia mais, ela agarra um celular e liga para um serviço de emergência.

O time que a atende percebe algo muito grave e tenta, como pode, fazer com que a garota não sucumba de medo e mantenha a esperança. Uma mobilização se dá na central de chamadas do Crescente Vermelho (braço da Cruz Vermelha), com voluntárias e voluntários a buscar formas de enviar um resgate para Hind. Isso até o momento em que ela se cala. Calou-se de 19 de janeiro de 2024, quando morreu, até setembro de 2025, quando seus relatos se espalharam pelo Festival de Veneza, onde sua história, transformada num experimento entre encenação e documento, foi coroada com o Grande Prêmio do Júri. O longa estreia agora no Brasil.

"Quando soube desse caso, eu perdi a fé, apesar de ver todo o empenho assistencial do povo do Crescente Vermelho. Quando eu ouvi as gravações de Hind, minha esperança foi renovada. Por isso eu precisava dela em cena. Brinco que o tipo de cinema que faço, habitualmente é de 'gênero fluido', ou seja, é meio ficção e é meio documentário. Portanto, jogar com o elemento concreto da realidade, no registro vocal da garota, seria um procedimento coerente com o que eu faço, como diretora. Havia, sem dúvida, uma série de questões éticas em discussão quando decidi usar a voz real de Hind, mas uma certeza nunca saiu dos meus horizontes: não haveria uma única gota de sangue em cena. E não há", explica Kaouther. "Queria que a violência fosse expressa pelas sensações de quem escuta, de quem acolhe... e pelo relato".

Nos créditos de produção de "A Voz de Hind Rajab", encontra-se um grupo estelar: Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Jonathan Glazer, Alfonso Cuarón, Spike Lee e Michael Moore. Cada um apoiou o trabalho da cineasta como conseguiu. O trabalho anterior dela, "As Quatro Filhas De Olfa" (2023), ganhou o troféu L'Oeil d'Or no Festival de Cannes ao borrar fronteiras do que foi vivido e do que é reconstituído ficcionalmente numa família de mulheres assoladas pela brutalidade na Tunísia. Ali, ela já provou não apenas a destreza em alternar formatos narrativos distintos, como um altruísmo que se expressa um casamento poético entre o melodrama, o documentário e a reflexão sociológica.

Macaque in the trees
A cineasta Kaouther Ben Hania | Foto: Unifrance

"Precisamos de distanciamento para entender tragédias", diz Kaouther, que, aos 48 anos, fez seu primeiro filme, o curta "Brèche", em 2005, sendo indicada pela primeira vez ao Oscar em 2021, com "O Homem Que Vendeu Sua Pele".

Adversária de "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, na disputa pela estatueta de Melhor Filme Internacional da Academia de Hollywood, a cineasta estará no Dolby Theatre, em Los Angeles, em 15 de março, para o anúncio das produções vencedores. Leva à competição a certeza de ter feito a engenharia de filmagem mais difícil de toda a sua carreira.

"Primeiro de tudo: não é fácil produzir um filme desse, pois o mercado não está aberto aos exercícios que não se definem objetivamente de uma só forma, que buscam experimentar. Depois... havia o fato de que, aparentemente, seria um trabalho simples: uma só locação... poucos atores... material de arquivo. Pois não foi nada fácil. Naquele espaço, precisávamos de uma mecânica na qual o elenco de atores que representavam a equipe do Crescente Vermelho, emulasse os sentimentos que o atentado contra Hind provocou. A ideia de fazer um filme sobre essa história era tratar daquele episódio trágico com uma complexidade que as redes sociais não são capazes de dar", explicou a cineasta, num papo com o Correio da Manhã mediado pela Golden Globe Foundation.

Terminada a maratona do Oscar, Kaouther vai se dedicar a seu novo trabalho (já filmado), que se chama "Mimesis". É uma trama ambientada em duas épocas distintas, nos anos 1940 e nos anos 1990, na Tunísia, estruturada como saga familiar, mas atravessada por uma lenda local. No roteiro, discute-se o mecanismo pelo qual a ficção, o mito e o relato oral se sobrepõem à realidade factual, criando crenças coletivas difíceis de desmontar.