Pelo tanto que choveu em Tiradentes, no sábado passado, parecia quase impossível a sessão ao ar livre de "Querido Mundo", na praça, acontecer. O festival de cinema que leva o nome da cidade mineira, e hoje está em sua 29ª edição, apinhou as ruas e as pousadas da região, mas o aguaceiro limitava a circulação. Estimava-se um cancelamento, até o produtor dessa comédia romântica, Julio Uchôa, bradar aos céus seu grito de guerra: "Viva a vida!". Em muito evento do cinema nacional, quando se escuta essa frase, dita numa perseverança espartana, é sinal de que ele chegou, sempre disposto a empregar seu otimismo para que bons filmes possam sair do papel, por sua produtora, a Ananã. O longa-metragem dirigido por Miguel Falabella e por Hsu Chien Hsin a partir de uma peça teatral homônima do eterno Caco Antibes faz jus à peleja diária de Uchôa: ou seja, é um filme muito bom.
Ganhou o Kikito de Melhor Atriz em Gramado (dado para Malu Galli) e deixou Minas Gerais, no fim de semana, repleto de fãs, uma vez que São Pedro, num gesto cinéfilo, fechou as torneiras sobre as nuvens e o tempo firmou. Agora, sob a bênção da plateia da respeitada maratona de MG, é hora de se buscar espaço em tela, no circuito exibidor, para a história de amor em P&B entre dois corações que foram acorrentados ao verbo perder (papéis de Galli e de Eduardo Moscovis).
Formado em Psicologia, mas talhado para o audiovisual em trabalhos na TV Búzios, Uchôa, de 61 anos, passou por mestres do quilate de Daniel Filho, Neville D'Almeira e Tizuka Yamasaki no processo para criar um legado (e muito bem-sucedido) na produção. Emplacou blockbusters ("S.O.S Mulheres Ao Mar"). Ousou trazer uma diva de Almodóvar, a espanhola Carmen Maura, para filmar na América do Sul, rodando "Veneza" (2019), também com Falabella. Reproduziu o Ártico na Zona Oeste carioca, ao filmar "Soundtrack" (2017), com Seu Jorge e Selton Mello, sob neve artificial. Recentemente, o longa batizado com seu bordão, "Viva a Vida!" (2025), de Cris D'Amato, foi parar no pódio dos longas brasileiros mais vistos na Netflix.
Na entrevista a seguir, no calor da Mostra de Tiradentes, Uchôa mapeia o que há de mais firme e o que há de mais incerto no mercado cinematográfico do país.
"Querido Mundo" teve uma sessão consagradora na Mostra de Tiradentes, cinco meses após o lançamento premiado em Gramado. O que você vem aprendendo de mais valioso, de praça a praça, desse filme em P&B no qual Miguel Falabella, em codireção com Hsu Chien, canta o amor? Que espaço existe para ele no mercado?
Julio Uchôa - Mostrar um filme em uma praça é um incrível aprendizado, pois podemos ver e sentir a resposta real de um público espontâneo e diverso. Assistiram e... sem preconceitos... o resultado do preto e branco na tela, a favor de nossa história. Nossos artistas foram abraçados pelo público que se emocionou, acompanhou cada passo vivido pelos nossos personagens. O filme foi motivo de aplausos nas performances do elenco, na fotografia e na arte... Isso nos foi dito através de falas encantadoras na abertura do microfone para debate com o público, após a projeção (em Tiradentes). Isso não quer dizer que será fácil chegar às salas de cinema, e termos as janelas de TV e de streaming dispostas a adquirirem o filme, com artistas incríveis, mas em preto e branco. Sabemos que não estamos agraciados pelo interesse, desejo ou indicação dos algoritmos junto aos compradores. Entendemos que temos que mostrar o resultado prévio do filme para que estes possam pensar em apostar, para criarmos uma estratégia diferenciada para termos o filme em exibição. Nosso trabalho praça a praça é ganhar força, reconhecimento, e, com os resultados, começar a desenhar a carreira do filme, a fim de chegar a mostra-lo nas salas, telas e streamings, do Brasil e do mundo. Temos um enorme trabalho empenhado pela O2Play para a distribuição do filme. Nós acreditamos que o preto e branco comunica e vimos, na praça, em Minas, que o filme e suas imagens chegam às almas das pessoas.
A recepção foi das mais calorosas, num sábado em que a chuva deu uma trégua ao filme. O que ajudou Miguel Falabella a levantar essa história baseada em sua própria peça?
Mega aplausos a todo conjunto artístico que conseguimos ter neste filme, pois tudo ajudou a seguirmos. Malu Galli e Du Moscovis brilham nessa fábula de Miguel Falabella, lindamente dirigida por ele e pelo Hsu Chien. Trabalho de produtor de filme não é só construir o filme, não é só fazer filmar. Temos que prosseguir lutando, para dar visibilidade e uma longa vida aos filmes. Buscar estar em festivais serve para expormos o filme, entender os públicos (como fizemos com Rússia, Gramado e a praça de Tiradentes, com extremo êxito) e então trabalharmos para chegarmos às janelas comerciais para o nosso filme.
Você produziu blockbusters em sua Ananã e ajudou Daniel Filho a fazer muitos sucessos, na TV e na telona. O que mudou no cinema, na forma de se fazer sucesso, dos anos 2010 para os anos 2020?
O cinema está sempre em constante mudança. Desde a pandemia, há um trabalho maior para conseguirmos levar os filmes às salas de cinema com resultados, e com seus respectivos investimentos de operação e mídia (aliás... tantas novas mídias) para os lançamentos. Mas a grande mudança está sendo o crescimento, com robustez, dos streamings. Eles têm gerado novos sucessos... "de bilheteria". Ocorreu com o nosso "Viva a Vida!", que, no streaming, chegou a mais de 7 milhões de pessoas. Com "Ricos de Amor", ficamos no top das comédias românticas na América Latina. Ele gerou sequência, e gerou remake na África. Novas formas de distribuição, novos caminhos e novos resultados! Sempre temos que acompanhar o dinamismo do mundo. Acho que o filme de hoje quer verdades, quer poder ser útil na emoção. Ele quer não enganar muito e ser relevante, com muita qualidade. Acho que boas histórias... boas comédias... sempre estão no ar, e podem servir ao grande público, se empoderadas de qualidades técnicas, artísticas e investimento. Sempre haverá espaço para algo bem trabalhado, bem pensado, feito com vontade de ser bem-feito, querendo dizer algo, querendo mexer, provocar, relatar... Com o streaming presente, o investimento no lançamento é fundamental para um filme chegar a muitas salas em um mundo de tantas mídias, segmentos, opções - sobretudo em um Brasil tão grande. Os P&Ns (jargão para Lucros e Perdas) que vivi 10 anos atrás eram, possivelmente, 10 ou 20 vezes superiores do que os investimentos em lançamentos aplicados aos filmes nacionais hoje. Nosso "SOS - Mulheres ao Mar" teve, há 12 anos, algo tipo R$ 3,6 milhões para o lançamento... e éramos uma aposta).
Que nova configuração você vê hoje?
Temos filmes importantes hoje, com investimentos de menos de 15% desse valor (que o "SOS" teve) para colocação no mercado... e acho que, hoje, as mídias e as vias são mais difíceis que as de 10 anos atrás. Temos que melhorar e buscar ter bons filmes, mas penso que tem de se ter dinheiro para querer colocar um filme para ser visto e para conseguirmos levar público às salas de cinema em um Brasil de tantas mídias novas... e tão grande. É mais barato (leia-se: menos risco e investimento)... e menos desafiador... e menos trabalhoso pular as salas de cinema hoje - justificando-se com alguns insucessos de filmes que não deram bilheteria - e fazer o filme seguir rapidamente para os streamings. Mas temos exemplos de campanhas que construíram bem, sim, a carreira de alguns filmes, fazendo-os serem vistos, reconhecidos e rentáveis. Temos sempre que achar novas formas, novas composições para os lançamentos.
Lançado no início de 2025, "Viva a Vida!" virou um dos maiores sucessos de audiência nacionais Das plataformas digitais (Netflix) no mundo. O que o streaming revela para você hoje sobre consumo de cinema (brasileiro sobretudo) em casa?
É sensacional ver resultado com filmes em que pensamos e trabalhamos por anos, buscando um melhor roteiro em inúmeras versões, correndo atrás de financiamentos e de parceiros. Levamos anos desejando que esse filme achasse seu público, surtisse resultado e emocionasse. Tivemos uma silenciosa abertura do filme, e acho que, honrosamente, a Netflix conseguiu dar visibilidade para "Viva a Vida!". Acho que, graças ao conjunto artístico do filme, ele consegue ser, aos poucos, lindamente consumido. Acho que a fotografia, o elenco, a direção, a história, nossas locações, a trilha... tudo conta. Buscamos fazer e entregar com o máximo de trabalho para alcançar qualidade nos diversos itens do filme, acreditando que isso gera resultado. Registro a admiração e prazer em construir um filme com a diretora Cris D'Amato. Nós construímos filmes sempre com prazer, liberdades artísticas, bons técnicos e com profunda vontade de fazer direito e bonito, para chegarmos ao público. "Viva a Vida!" é um filme que amamos e no qual buscamos, com a direção da Cris, imprimir qualidade artística por todo o seu processo. Estão lá grandes artistas (Dante Belutti, Yurika Yamazaki, Kika Lopes...), uma parte técnica fina (como a trilha da Ultrassom, a pós da O2post... ), um elenco competente e amoroso.
Sua parceria com a Netflix vai além desse filme, não?
A Netflix tem um incrível poder de chegar ao público. Se o produto é bom e bem-feito ele tem tudo para ser consumido. Progressivamente, novos públicos, de forma orgânica, começam a achar o filme. Tivemos, além do "Viva a Vida!", o "Ricos de Amor" partes 1 e 2 e "Diários de Intercâmbio" entregues a Netflix. Tivemos incríveis resultados, pois acho que buscamos ao máximo exaurir nossa capacidade de realizar bem junto a equipes de artistas e técnicos que constroem um filme, com vontade de contar boas histórias e emocionar.
O que você tem para produzir neste momento?
Vem muita brasilidade em nossos próximos filmes. Tivemos um lindo ano com o lançamento de "Viva a Vida!", a passagem do "Querido Mundo" por festivais e um programa da NatGeo/ Disney, "Do Not Attempt", no qual fizemos a produção no Brasil para a série do mágico David Blaine, com apresentação especial em cinema na Rocinha junto ao lançamento.